Reinaldo Barreto Rosa completa 50 anos de atividade médica

Reinaldo Barreto Rosa completa 50 anos de atividade médica.
Reinaldo Barreto Rosa completa 50 anos de atividade médica.

O médico cardiologista e cidadão Castroalvense, Dr. Reinaldo Barreto Rosa, comemorou em 2014, 50 anos de exercício da medicina no município. Durante entrevista, o médico conta um pouco da sua história durante todos esses anos dedicados a profissão, incluindo curiosidades, sua passagem pela prefeitura como gestor e sua opinião em relação à medicina praticada nos dias atuais.

P – Por que o Senhor optou pela medicina?

Reinaldo Barreto Rosa – Na verdade eu escolhi por acaso. Eu pedi a meu pai pra me matricular no Colégio Antonio Vieira, no curso clássico, que era o curso das pessoas que preferiam fazer direito e administração. E quando ele chegou lá, ele equivocou-se e me matriculou no curso cientifico que era direcionado às pessoas que tinham interesse em fazer medicina, odontologia e etc. E quando eu cheguei ao colégio pra assistir a primeira aula, onde funcionava o curso clássico, me informaram que minha matricula tinha sido feita no curso cientifico, aí eu fui… Quer dizer eu pretendia fazer o curso de Direito na realidade, mas como não tinha mais vaga no curso clássico eu fui pro cientifico e lá com o passar do tempo optei por fazer medicina.

P – E se identificou com a escolha?

Reinaldo Barreto Rosa – Com o passar do tempo percebi que eu tinha realmente vocação pra medicina e acabei fazendo vestibular pra medicina mesmo.

Mirela – Qual o caso mais inusitado que te marcou durante todos esses anos de exercício da medicina?

Reinaldo Barreto Rosa – Foram muitas coisas engraçadas que aconteceu, mas teve um que foi muito interessante, certa vez atendi uma senhora da zona rural e coloquei o termômetro embaixo do braço dela e acabei esquecendo e ela foi pra casa com ele.  E tinha um fazendeiro daqui de Castro Alves que tinha uma propriedade próxima a casa dessa senhora e a conhecia, quando ele ficou sabendo que ela estava doente foi visitá-la, isso uns três dias depois. Chegando lá ele a perguntou se já tinha melhorado e como estava a saúde dela, aí ela respondeu que estava melhorando mais não estava gostando do remédio que eu tinha colocado embaixo do braço dela (risos) já tava doendo. Coitada, passou três dias com o termômetro embaixo do braço.

Mirela – Qual o local do município que é especial pra o senhor?

Reinaldo Barreto Rosa – Ah pra mim a região da Mata. É muito bonita, olhando assim do alto o Morro, São Roque, Calugi, são lugares muito bonitos, me sinto muito bem contemplando aquela paisagem.

Mirela – O senhor é conhecido pela população como médico do povo. Hoje em dia uma das mais freqüentes reclamações da população é em relação ao atendimento, a essa falta de acolhimento do médico com o paciente. O que mudou da medicina de 30 ou 40 anos atrás para a praticada atualmente?

Reinaldo Barreto Rosa – Olhe só, tecnologicamente falando a medicina evoluiu bastante, mas o atendimento médico há 40 anos era muito diferente. Quando eu cheguei aqui, por exemplo, não tinha SUS, o médico atendia particular, se ele tivesse bom coração atendia de graça as pessoas que não podiam pagar e as que podiam, ele cobrava. Depois surgiu o Funrural, que favoreceu as pessoas da zona rural que passaram a ter direito a assistência médica gratuita. Depois apareceu o SUS e o programa de Saúde da Família.

Mas o que tenho percebido é que falta qualificação dos médicos. Nos PSf’s  se vê muitos médicos recém formados, inseguros e que acabam transferindo muitos pacientes, as vezes por motivos simples como uma conjuntivite ou uma otite, eles não sabem manejar isso e começam a transferir pacientes para médicos especialistas. E aí o programa Saúde da Família começa a ficar muito caro, os hospitais ficam com uma demanda grande e muitas vezes não conseguem dar conta de atender. Então precisamos qualificar esses médicos.

Mirela – Uma das reclamações mais recorrentes entre os municípios pequenos é a dificuldade em contratar médicos, alegando falta de profissionais. O senhor acredita que não haja profissionais suficientes pra demanda dos municípios?

Reinaldo Barreto Rosa – O problema está na redistribuição, por que médico tem demais no Brasil. No país temos quase 200 faculdades de medicina, na China que tem quase dez vezes a população do Brasil, não chega a 100 faculdades. Nos Estados Unidos tem menos faculdades de medicina do que no Brasil, o nosso país tem 200 milhões de habitantes e os EUA quase 300. Agora temos também o problema das sub-especialidades, o cidadão hoje já quer se formar com a especialidade, e eu acredito que primeiro você tem que se formar médico qualificado em medicina, tem que clinicar, ser um clínico geral e depois escolher sua especialização. Por exemplo, eu conheço médico que só sabe fazer ultrassonografia, outro que só sabe fazer cirurgia de catarata, isso vai fazendo com que os grandes clínicos gerais e cirurgiões desapareçam e aí começa a falta por isso, por que tem muita gente fazendo sub-especialidade, fazendo pequenas coisas quando poderia fazer muito mais. E a distribuição também, você vê no Rio de Janeiro tem 15 médicos por mil habitantes, é muito médico. Agora por que disso? O Rio de Janeiro possui atrativos turísticos. O cidadão se forma e quer ficar por lá mesmo.

Mirela – Qual a sua opinião sobre a qualidade dos cursos de medicina?

Reinaldo Barreto Rosa – Terrivelmente ruim. Hoje se têm muitas faculdades que não formam médicos, expelem médicos. Formar é uma coisa, expelir é outra. Os que ainda procuram estudar depois de se formam, procuram conhecimento, até mesmo pela internet, através de cursos, congressos, se torna um bom profissional. Mas a outra parte que se contenta só com o que viu na faculdade, fica atendendo aí de qualquer jeito. Mas é muito triste a realidade de muitos cursos hoje em dia. No meu tempo só existia duas faculdades na Bahia, a baiana e a federal, o vestibular era de arrepiar os cabelos. Hoje você tem faculdade em Salvador, Feira de Santana, Santo Antonio de Jesus, Vitória da Conquista, muitas delas particulares, com mensalidades altíssimas. Então muitas delas não levam em consideração o desempenho dos alunos e nem o reprovam com receio do aluno se transferir para outra faculdade. E não é só medicina não, os outros cursos estão passando pelo mesmo processo.

Mirela – E os cursos à distância, qual a sua opinião sobre eles?

Reinaldo Barreto Rosa – É horrível. Eu acho, por exemplo, hoje a internet facilita a aprendizagem do aluno que quer aprender, eu mesmo não compro mais livro de medicina de texto, por que um livro quando é publicado já está defasado em três anos. Internet você entra em qualquer site de associação médica tem aulas interativas, simpósios, cursos, isso tudo ao vivo. A gente entra no site de associação americana de cardiologia, você vê todas as novidades sobre o tema. Então não existe nenhuma justificativa para a pessoa não aprender ou se atualizar. Já o ensino a distancia, pra cursos exclusivamente teóricos, talvez seja interessante, agora pra um curso como medicina e, muitos outros que o contato com o paciente é fundamental, não serve. Você precisa sentir o paciente, examiná-lo, conversar com ele. Você não trata a hipertensão do paciente, você trata o paciente com hipertensão, ou seja, o médico deve tratar a pessoa e não só a doença. E muitos médicos hoje não estão mais criando esse vinculo entre o médico e o paciente, de ouvir o paciente, de examiná-lo, senti-lo, ele fica diante do computador passando exames sem nem mesmo olhar para o paciente. Eu sei que existem grandes médicos, grandes hospitais, mas infelizmente temos uma grande parte que se comporta dessa forma.

Mirela – Qual o balanço que o senhor faz desses 50 anos de exercício da medicina?

Reinaldo Barreto Rosa – O que fica na verdade é essa relação do paciente com o médico que eu aprendi a valorizar. Isso ficou cada vez mais forte, por que eu trato gente como gente, seja lá quem for. Meu relacionamento com as pessoas é fantástico. Eu os escuto, me relaciono bem com eles, sem fazer nenhum tipo de distinção. Tratar as pessoas com humanidade, cordialidade, humildade, acho que esses foram os meus maiores aprendizados nesses últimos 50 anos.

Mirela – Durante minha pesquisa sobre sua vida pública, muitas pessoas me falaram que a sua primeira candidatura foi fruto de uma aclamação popular. Gostaria que o senhor contasse um pouco dessa história, da sua decisão em ingressar na política.

Reinaldo Barreto Rosa – Eu nunca havia pensado em entrar pra política, mas quando as pessoas começam a fazer algo pela comunidade, acaba se destacando naquela sociedade. E na época da eleição um determinado grupo político sem candidato procura aquela pessoa que eles acreditam que tem chance de concorrer e ganhar as eleições. Na verdade eu fui influenciado, as pessoas diziam que tinha que ser eu, que eu tinha chance de ganhar, aí o ego da gente começa a ser exaltado e todo o ser humano é vaidoso, então eu pensei que já que a possibilidade de eu ser eleito é grande, então eu vou. E terminei ganhando mesmo duas vezes, mas na realidade, depois de algum tempo, já tenho mais de 15 anos que eu não milito mais na política, eu resolvi só exercer a medicina mesmo.

Mirela – Qual foi à situação mais inusitada que o senhor passou enquanto prefeito?

Reinaldo Barreto Rosa – Na verdade o cargo de prefeito é uma trabalheira muito grande, por que o gestor de uma cidade pequena ela está junto com todas as carências imagináveis. O prefeito é cobrado dia e noite. O emprego, transporte de doente, o calçamento de rua, esgotamento sanitário, falta de energia, estrada ruim, enfim, ele está muito próximo do povo.  Uma cidade pequena, não é como uma cidade grande que ninguém vê prefeito e além disso eu sempre fui uma pessoa muito popular na época, sempre estive junto com as pessoas mais simples, com todo mundo, sempre participei ativamente de qualquer movimento social na sociedade, joguei futebol desde menino com todo mundo, fui em festas, dançava, carnaval, micareta, me dava com todo mundo, desde a infância, me dava com crianças mais humildes, enfim, foi por isso. Mas confesso que não aceitaria mais exercer o cargo de prefeito não, por que é uma trabalheira muito grande, eu não digo que me arrependo de ter sido prefeito, mas não gostaria de ser novamente não.

Mirela – Da época em que o senhor foi prefeito para os dias de hoje, muitas coisas mudaram, principalmente em relação à estrutura da gestão em si, já que atualmente se tem muitos programas, secretarias, ministérios, acredito que na sua época não se tinha toda essa estrutura que se tem hoje. Diante dessa nova realidade, o senhor achar que para o gestor e para o município, essa nova forma de governar é melhor?

Reinaldo Barreto Rosa – Na minha gestão eu não contava com nenhuma secretaria, não existia secretaria na prefeitura, era apenas um departamento de educação. E eram apenas duas verbas, a federal que era do fundo de participação que tinha que servir pra tudo: saúde, educação, infraestrutura. E tinha também a verba do Governo do Estado que era em relação à taxa do ICMS, que era bem menor que o FPM. E a arrecadação própria era muito tímida, muito pequena, dava pra comprar umas coisinhas, fazer pouca coisa. Na verdade a arrecadação própria do município, que era o imposto territorial, imposto sobre serviços, era muito pequena, a cidade pobre e muita gente não pagava, ficando na dívida ativa e levando anos pra quitar a dívida. Na verdade a verba maior era mesmo a do FPM e não tinha divisor de águas não era pra tudo. Hoje não, tem-se a verba especifica pra educação, e bem poupuda, a saúde também e tem todas as secretarias. Um município pequeno como Castro Alves e outros circunvizinhos, tem secretarias estanques que funcionam. Agora eu acho que não melhorou muita coisa não. Seria bom se as secretarias fossem enxutas, mas na realidade se enche de pessoas, sabe como é né, cidade pequena todo mundo quer um emprego, então vai se colocando gente e vai se inundando as secretarias de pessoas sem qualificação e sem nada pra fazer, então só pra dar o emprego e ganhar o voto mesmo. E isso é em todo o município, não tem jeito, se o prefeito não fizer isso está liquidado. Então essas secretarias seriam benéficas se fossem enxutas, e dirigidas adequadamente por pessoas capacitadas. A secretaria de saúde por médicos capacitados, a secretaria de educação também por pessoas capacitadas, mas infelizmente não é assim, então não funciona bem. Todos os municípios estão inundados de funcionários que nada fazem ou nada sabem, então, é muito difícil ser prefeito no interior atualmente, por que ele é coagido a dar empregos e se não der, provavelmente ele não consegue um bom resultado eleitoral. Eu me lembro que quando sair da prefeitura da ultima vez, tinha-se uma média de 380 funcionários e me parece que hoje a prefeitura trabalha com cerca de 1.200 ou 1300 funcionários. É uma situação muito difícil de administrar. Portanto, eu acho que antigamente não era melhor por que as verbas eram menores e hoje não é melhor que as verbas são maiores, mas tem muita gente pra usufruir dessa verba.  Então acabou ficando uma coisa pela outra. E os serviços não funcionavam bem e até hoje não funciona nada bem, eu não conheço nenhum município com o numero correto de funcionários e que os serviços funcionem todos bem. Todos têm problemas com excesso de funcionários, problemas com pagamentos, verba insuficiente, enfim com muitas deficiências.

Mirela – Como era sua relação com Antonio Carlos Magalhães?

Reinaldo Barreto Rosa – Nossa relação era muito boa, inclusive ACM, quando eu fui eleito pela segunda vez, Castro Alves tinha sofrido um problema terrível e crônico de falta de água, nosso serviço de abastecimento de água tinha quase 100 anos absoleto, a água vinha da região do engenho novo. Então a primeira coisa que eu fiz foi ir até ele e pedir a rede de abastecimento de água pra cidade e ele me prometeu que antes do meu mandato acabar chegaria água encanada no município. E realmente, no dia 09 de dezembro nós inauguramos o serviço de abastecimento de água aqui. ACM era uma pessoa que exigia adesão total, e o prefeito de uma cidade pequena, se não aderir ao governador vai aderir a quem? Se não aderir acaba prejudicando a população e o município, por que ele não vai encontrar nada na esfera estadual, então pra mim ACM foi muito bom. Só o serviço de abastecimento de água em Castro Alves foi uma dádiva.

Mirela – Naquela época como a população sobrevivia com esse problema da seca e da falta de água?

Dr. Reinaldo: Na primeira gestão nós tínhamos carro-pipa. Eram quatro ou cinco rodando direto na zona rural e na sede diariamente. Era terrível, a verba quase toda do município era pra isso. E não era só na zona urbana, na zona rural, em especial na região da caatinga, por que naquela época o município era muito grande, tinha Rafael Jambeiro, então nós tínhamos que trabalhar com o abastecimento de águas nessas regiões todas ressequidas. Era muito difícil. E graças a nossa reivindicação à ACM, que foi atendida, graças a Deus, resolvemos esse problema, pelo menos a maior parte dele.

Mirela – Qual a sua relação com o farmacêutico Orlando Lima?

Reinaldo Barreto Rosa – Aquele era uma figura, muito meu amigo. Mas não levava nada muito a sério na política, inclusive chegou a se candidatar a vereador acabou ganhando uma e  perdeu duas vezes, por que ele levava as coisas mais na brincadeira, mas era muito meu amigo gostava muito dele, gosto até hoje. Orlando era uma figura muito emblemática aqui em Castro Alves. A gente saia junto, eu ia atender doentes na roça e levava ele, mas politicamente ele não levava nada á sério, mas acredito que se ele levasse teria muita coisa pra apresentar enquanto político, mas ele preferia levar na chacota pedia voto de brincadeira.

Mirela – Na sua opinião, qual a expectativa de desenvolvimento econômico de Castro Alves nos dias atuais?

Reinaldo Barreto Rosa – Na realidade Castro Alves não é um município pobre, o município tem uma região de zona da mata muito fértil, até chega a ser próspera, embora não quanto poderia ser, por que não existem programas de incentivo a agricultura, de incentivo ao agronegócio, o município tem áreas muito férteis, mas eu acho que o maior problema do município é não trabalhar bem sua zona rural. Existe praticamente uma monocultura de mandioca, antigamente era fumo e mandioca e mais nada, numa região que poderia dar muitas outras culturas.

Antigamente aqui tinha muitos armazéns de fumo que empregava milhares de pessoas aqui, mas depois com a expansão mundial da luta contra o fumo, esses armazéns todos acabaram fechando, mas Castro Alves teria um potencial muito grande na parte de agricultura, se tivesse programa de governo, como antigamente que se tinha a Ematerba, Encarba e outros programas e todos eles desapareceram. Enfim, Castro Alves não tem outra saída, aqui na zona urbana o comercio é esse pequeno porque a população é pobre né, vive basicamente de alguns poucos funcionários públicos estaduais, alguns aposentados federais e alguns profissionais liberais como pedreiros… Enfim, não tem uma elite financeira forte, como Santo Antonio ou Cruz das Almas possui.

Mas mesmo assim, tem melhorado um pouquinho, a gente tem visto algumas construções nas ruas, já foi pior, mesmo a passos lentos a cidade vai desenvolvendo um pouquinho.

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 120546 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br.