Noite de Reis: Viva os Reis Titango, Agarrube e Tintuma | Por Juarez Duarte Bomfim

Mestre Irineu.
Mestre Irineu.

A estes três seres divinos Deus confiou o poder de zelar pela luz resplandecente da Corte Celestial. Para retribuir a pureza e o amor manifestados pelos Reis do Oriente, Mestre Irineu, reverente, confiou a eles a entrega de todos os trabalhos realizados sob o seu domínio.

Hino 64. Eu peço a Jesus Cristo

Eu peço a Jesus Cristo

Eu peço à Virgem Maria

Eu peço ao meu Pai eterno

Vós me dê a santa luz.

Eu sigo na verdade

Eu sigo meu caminho

Eu sigo com alegria

Que eu sou filho da Rainha.

 

A força da floresta

A força do astral

A força está comigo:

A minha mãe é quem me dá.

 

Eu chamo o rei Titango

Eu chamo o rei Agarrube

Eu chamo o rei Tintuma

E eles vêm lá do astral.

 

A força é divina

A força tem poder

A força neste mundo

Ela faz estremecer.

 

Sempre vivo neste mundo

Viva todos que quiser

Viva Deus, lá nas alturas

E o Patriarca São José

 

Eu dou viva à Virgem Mãe

Viva suas companheiras

Nos proteja neste mundo

Vós como mãe verdadeira.

 

O sol que veio à terra

Para todos iluminar

Não tem bonito e nem feio

Ele ilumina todos igual.

 

A lua tem três passagens

Todas três nela se encerra

É preciso compreender

Que ela é quem domina a terra.

Neste hino, Mestre Raimundo Irineu Serra Juramidã anuncia que detém as forças da floresta e do astral, que lhe foram concedidas por sua Mãe, Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, e chama os Três Reis do Oriente pelos nomes de Titango, Agarrube e Tintuma.

Na data de 5-6 de janeiro, quando dos festejos da Noite de Reis, acontece importante rito doutrinário da liturgia daimista. É quando os adeptos da doutrina fazem as suas “entrega dos trabalhos”. A celebração desta data é encerrada com uma cerimônia de apresentação e entrega individual dos trabalhos espirituais pelos seguidores da Doutrina ao seu superior hierárquico. Significa o término do ano litúrgico daimista.

O dia/noite de Reis representa o encerramento e ao mesmo tempo abertura do ano litúrgico daimista, como continuidade permanente do ciclo devocional.

Ao final da apresentação do Hinário do Mestre, bailado, todos cantam e bailam, a seguir, o hino nº 25, “Oferecimento” (só cantado nesta data).

Logo após, os batalhões se enfileiram em frente aos comandantes masculino e feminino, e cara a cara com estes, os soldados da Rainha levantam a mão direita, com a palma da mão para a frente saúdam o comandante do salão, ou alguém que foi designado, ao qual vai entregar os seus trabalhos. Baixam as mãos e afirmam, um após o outro:

– Na Santa Paz de Deus eu recebi os meus trabalhos de (2014) e na Santa Paz de Deus eu entrego os meus Trabalhos de (2014) com (ou sem) alteração, com poucas (ou muitas; ou sem) preces rezadas.

Ao término da entrega dos trabalhos pelos fardados, a Comandante entrega os trabalhos do batalhão feminino ao Comandante Geral do Salão (que geralmente é o comandante masculino, que acumula as duas funções); o Comandante Geral entrega ao Vice-Presidente e o Vice ao Presidente do Centro Livre – e este deve entregar o trabalho de toda a irmandade ao Mestre Raimundo Irineu Serra, no plano invisível.

Pergunta: por que o ritual de encerramento do ano litúrgico daimista está associado aos Três Reis do Oriente?

Na Bíblia é dito que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, adorar o Menino Jesus:

– Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo.

Eles chamavam-se Gaspar, Melchior e Baltazar. Porém, são suposições sem base histórica ou bíblica. Foi Beda, o Venerável quem deu estes nomes aos magos.

Na Doutrina do Santo Daime os Três Reis do Oriente são chamados pelos nomes de Titango, Agarrube e Tintuma.

A estes três seres divinos Deus confiou o poder de zelar pela luz resplandecente da Corte Celestial. Para retribuir a pureza e o amor manifestados pelos Reis do Oriente, Mestre Irineu, reverente, confiou a eles a entrega de todos os trabalhos realizados sob o seu domínio.

O sol que veio à terra

Para todos iluminar

Não tem bonito e nem feio

Ele ilumina todos igual

Nesta estrofe, encontramos similitude nas palavras do Nosso Senhor Jesus Cristo:

– Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.

E na última estrofe do hino n] 64, mais uma vez Mestre Irineu transmite conhecimentos astronômicos e astrológicos ao seu povo simples – os caboclos amazônicos – como já tinha feito em hinos anteriores.

A lua tem três passagens

Todas três nela se encerra

Quer dizer, a lua tem três movimentos principais: rotação em torno de seu próprio eixo, revolução em torno da Terra e translação em torno do Sol junto com a Terra.

É preciso compreender

Que ela é quem domina a terra

Desde a antiguidade que os povos atribuem à Lua o domínio sobre todas as atividades da natureza e do homem. Daí que a decisão sobre colheita, caça, concepção e muitas outras sempre estiveram relacionadas às fases lunares. A lua influencia as marés, e hoje se sabe cientificamente que a energia luminosa da Lua tem influência sobre o clima e a atmosfera terrestre.

A Lua influencia as emoções humanas, os negócios, o sono, a saúde; determina os ciclos de crescimento: é à Lua crescente que as pessoas ameaçadas de calvície recorrem quando vão cortar os seus cabelos, pois “até os fios de cabelo de sua cabeça estão contados”.

Lua branca, soberana. Quis a Lei Divina que fosse assim. Só nos cabe conhecer e compreender.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Mestre Irineu.
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Juarez Duarte Bomfim
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Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]