Homenagem ao Professor Francisco Ferreira de Lima, amante dos livros

Francisco Lima.
Francisco Lima.
Francisco Lima.
Francisco Lima.

O menino rurícola que migrou com a família num caminhão “pau de arara” para a tórrida Cidade de Jequié (BA) e realizou pós-doutorado na London University (Inglaterra).

Francisco Ferreira de Lima é professor do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural.

Chico Lima é graduado em Letras pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), mestre pela PUC do Rio de Janeiro e Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP).

E não param aí os seus feitos acadêmicos. O menino rurícola que migrou com a família num caminhão “pau de arara” para a tórrida Cidade de Jequié (BA), realizou pós-doutorado na London University (Inglaterra), e britanicamente saudava a Rainha: God save the Queen!, durante o indefectível chá das cinco.

Entretanto, tudo isso é história, tudo isso é lenda. De fato o que o Amigo Chico Lima exercita na atualidade é a condição de neo-aposentado na balaustrada da Praia do Porto da Barra (Salvador-Bahia), à sombra dos flamboyants, comtemplando o mar da Bahia e vendo graciosamente — tal qual o poetinha na sua adorável Ipanema — as meninas “que vem e que passa(m) num doce balanço a caminho do mar”… — que não me ouça, ou leia, a sua muito amada Myrian, companheira de todas as horas, luz na sua estrada.

Francisco Lima foi digno e merecedor de honras e homenagens pela UEFS quando da sua recente aposentadoria, após 37 anos dedicados à docência e pesquisa.

E todos os adjetivos seriam insuficientes e todos os bytes do computador seriam poucos para descrever as suas virtudes e qualidades, tanto profissionais como, principalmente, pessoais.

Muito me enobrece gozar de sua amizade nesses quase trinta anos de convivência e coleguismo. Sua fina ironia, douta erudição, amor pelos livros, tudo isso nos faz de certa maneira cúmplices nos interesses intelectuais.

E até nossas diferenças são complementares. Chico Lima é um empedernido agnóstico enquanto este que vos escreve é um devoto das coisas intangíveis, ao qual chamamos Deus.

Nas duras perdas que o Amigo Chico Lima teve nos últimos anos, no grande mistério que é a passagem dos entes queridos deste plano de existência para outro mais sutil, tentei transmitir ao Amigo Chico algumas noções da Ciência Espírita — desconfio que não obtive muito êxito.

Todavia, voltando ao assunto… agora, de pijama, bermuda e chinelo de dedo passeando pelo Porto da Barra, Chico Lima vai continuar a fazer o que mais gosta: devorar livros. Lembro quando o Amigo voltou de gozo de Licença Prêmio e fez um balanço do que realizou no tempo livre: leu livros.

Neste ócio criativo Chico Lima aprende para ensinar, e tenho o privilégio de ser um dos seus alunos, nas longas conversações que mantemos, num diálogo sem fim.

Ah… e temos algo em comum: o Amor pelo distante e calorento Planeta Acre, do qual o Chico já foi morador. Ele me prometeu que quando aposentasse, visitaria o Acre e o seu amigo Professor Vicente Cerqueira.

Estamos aguardando, Chico.

CHICO LIMA: DO CAMINHÃO PAU DE ARARA AO PÓS-DOUTORADO NA LONDON UNIVERSITY

“Recrutado por um empreiteiro da construção civil, (meu pai) vai para o sul da Bahia, Ubaitaba, trabalhar na elaboração de uma estrada de ferro como ‘apontador’. Modernamente talvez se dissesse gestor de pessoas, pois era este o trabalho: acompanhar o dia-a-dia, ou melhor, o hora-a-hora de dezenas de trabalhadores, de modo a fazê-los cumprir suas tarefas, sob pena de enfrentar a punição severa, da qual não se excluía o castigo físico, que ele aplicaria – ainda hoje assim me parece – sem grandes lamentos ou remorsos, pois, se bem pudera ser um daqueles, já não o era. E assim se via superior hierárquico, sem nenhum problema de identidade. E assim queria ser visto.

“Corria o ano de 1953. Finalmente, a hora da partida. A família já está acomodada no caminhão o ‘pau de arara’, o ônibus do tempo – ainda a rodar nos dias de hoje em romarias populares, por todo o interior do Brasil.

“(…) No final de 1973 despedi-me para sempre de Jequié, com uma sensação, tornada clara por uma canção de Gil, na qual, indo para o exílio, dizia que a Bahia, já lhe dera “régua e compasso”. Tudo que precisava daquela cidade já me fora dado – na medida do que ela podia dar; na medida do que eu podia ter. Jogo empatado, deixei-a sem muitas saudades.

“Mas deixava, também em definitivo, minha família. Aproximando-se a partida, fui tomado de um desejo de que o tempo parasse, pois a mim me parecia ter chegado antes da hora. Olhava para os meus pais e irmãos e me angustiava com a certeza de que uma fase da minha vida acabava ali. Que nunca mais seríamos os mesmos, com tudo de bom e de ruim que a intimidade familiar proporcionara. À porta de casa, após longo e pouco usual abraço, meu pai deu-me todo o (pouco) dinheiro que tinha no bolso. E, como na canção do outro baiano, lá me fui eu, triste e alegre, querendo ficar e querendo partir, “sozinho pra capital”, a buscar meu próprio caminho no mundo.”

O PLANETA ACRE POR CHICO LIMA

“No carnaval de 1979, na Praça Castro Alves, em passo de frevo de Caetano, reencontro Pascoal Muniz, um conterrâneo de Jequié e contemporâneo da Universidade, que se mudara de armas e bagagens, nada mais, nada menos, para o Acre, onde prestara concurso para a Universidade. E disse-me que se houvesse interesse de minha parte ele iria confirmar a notícia de que haveria abertura de vagas para professor de inglês no Departamento de Letras.

“(…) Já dera quase um mês de aula quando recebo um telegrama da então FUFAC – Fundação Universidade Federal do Acre – onde deveria me apresentar em uma semana, sob pena de perder a vaga, como sucedera com o primeiro colocado – que, infira-se, eu lograra a segunda colocação. O texto findava com a informação de que já havia uma passagem em meu nome numa determinada companhia aérea. Em uma semana, como Ferreira de Castro, estava pronto para minha aventura na selva.

“Antes de embarcar, porém, tive que consultar o mapa de maneira a ter certeza da localização exata do Acre, pois não estava muito seguro se ele era parte norte ou sul da Amazônia, prova de que, além de servir para alimentar o ufanismo do “Brasil Grande” e um arsenal de (equivocados) lugares-comuns, como o de ser o “pulmão do mundo”, essa região é uma ilustríssima desconhecida dos brasileiros.

“Vista de cima, Rio Branco não se parecia com nada do que até então já vira. Havia, sim, um aglomerado de construções a que se poderia chamar de cidade; mas nele havia tantas casas com quintais, e, nestes, tantas árvores que se criava uma ilusão de uma batalha feroz e permanente: a cidade a afirmar-se perante a floresta e a floresta a reafirmar-se perante a cidade, desconstruindo identidades e limites, como a buscar o que era seu.

“E não era novidade menor vista do chão. Ruas e ruas sem calçadas e calçamento; as casas de madeira, muitas, as mais pobres em estilo palafitas, tudo criava a impressão de pobreza excessiva, no que não estava de todo enganado.

“Se bem tal impressão não tenha sido desfeita de todo, ela foi amenizada ao longo do tempo com a (para mim) surpreendente informação de que não há pedra naquela parte da Amazônia. Casas de alvenaria eram por isso consideradas – naqueles agora distantes idos de 1979 – “coisa de rico”, luxo para poucos. Dizia-se naquele tempo que os acreanos costumavam trazer pequenos pedaços de pedra para mostrar à família quando retornavam de uma viagem a outras partes do Brasil.”

CHICO LIMA POR CHICO LIMA

“Muito antes de conhecer Fabianos, Sinhás Vitórias, Baleias e tantos outros assemelhados feitos em papel, já com eles convivia em carne, osso e vidas secas.

“Nascido em pleno sertão paraibano, venho de uma nobre linhagem de narradores orais, parentes próximos daquele “Pantaleão” de Graciliano, popularizado por Chico Anísio, que costuma ornamentar suas histórias para gozo próprio e deleite da plateia, enxertando ficção na aridez da narrativa rasa e sem graça, visando sempre o mesmo fim: iluminar cantos sombreados e alargar significações, através de um deliberado desdobramento do real – prática, aliás, muito condenada pelos crentes e descrentes de todos os tempos, vulgarmente chamada de mentira. E, diga-se já, por nós chamada, eu e minha linhagem, de verdade verdadeira, posto negar o que a vida é para afirmá-la como deveria ser: lúdica e saborosa ventura.”

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]