Eleições 2014 | Do Jornal Público de Portugal: Serão os evangélicos a decidir quem é o próximo Presidente do Brasil?

Marina Silva é classificada como protestante praticante e pode vir a governar país de maioria católica.
Marina Silva é classificada como protestante praticante e pode vir a governar país de maioria católica.
Marina Silva é classificada como protestante praticante e pode vir a governar país de maioria católica.
Marina Silva é classificada como protestante praticante e pode vir a governar país de maioria católica.

Pela primeira vez, o movimento evangélico no Brasil lançou uma candidatura em nome próprio à presidência do país. É a do Pastor Everaldo, líder da Igreja Assembleia de Deus e candidato do Partido Social Cristão (PSC), um dos muitos que contribuem com deputados para a chamada bancada evangélica do Congresso do Brasil: um poderoso lobby organizado em função dos interesses da sua fé religiosa e que conta atualmente com 73 parlamentares.

A última sondagem realizada pelo Ibope dava apenas 1% das intenções de voto ao pastor Everaldo: a sua campanha perdeu terreno com a ascensão de Marina Silva ao lugar cimeiro da “chapa” Unidos pelo Brasil, a coligação liderada pelo Partido Socialista Brasileiro e que ficou sem o seu candidato presidencial, Eduardo Campos, morto num acidente aéreo. Missionária da Assembleia de Deus, a maior congregação evangélica do Brasil, com mais de 12 milhões de fiéis, Marina é agora a principal – e a mais bem colocada – representante do movimento pentecostal na política brasileira.

Nas suas primeiras declarações, ainda em choque, após a morte de Campos, a candidata usou uma linguagem carregada de evocações religiosas, falando em “providência divina” e em “mistérios que nós não compreendemos” para explicar o facto de não ter seguido a bordo do jacto que se despenhou. Depois de ter sido duramente criticada, na anterior campanha presidencial de 2010, pelo alegado “fundamentalismo” do seu discurso que adviria do seu vínculo religioso, Marina Silva tem – para já – escapado a esse tipo de acusações e contestação.

Com o poder de representar quase 30% do eleitorado brasileiro, o bloco eleitoral evangélico é “cortejado” por quase todos os candidatos presidenciais, que não hesitaram em participar em debates organizados pela Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil, em cortar fitas na inauguração de templos ou a ler trechos bíblicos em assembleias de fiéis.

Como explicou ao PÚBLICO o sociólogo da Universidade de São Paulo, Ricardo Mariano, especialista em religião e política, os evangélicos “conquistaram bastante respeitabilidade e legitimidade religiosa. Não se pode mais pensar a democracia brasileira sem considerar o activismo político evangélico”, afirma, acrescentando que o “grande temor” de qualquer político do país é sofrer o boicote do movimento evangélico. “Todo o candidato tem de evitar essa oposição.”

Em presidenciais passadas, o bloco evangélico dividiu o seu voto – e os analistas esperam que o fenómeno volte a repetir-se este ano. Apesar de quatro grandes grupos pentecostais terem manifestado o seu apoio público à candidatura do Pastor Everaldo, ele tornou-se efectivamente carta fora do baralho com a entrada de Marina Silva na corrida. Até então, a Presidente candidata a um segundo mandato, Dilma Rousseff, era a concorrente mais bem posicionada para captar o voto dos evangélicos que, como nota Ricardo Mariano, “estão concentrados nas camadas sociais com menor rendimentos e escolaridade, que tendem a votar no Partido dos Trabalhadores, sobretudo no Nordeste”.

A agnóstica Dilma aprendeu a lição de há quatro anos, quando a sua campanha tremeu com a possibilidade de perder a segunda volta por causa da oposição dos líderes evangélicos. Nessa altura, a aliança com a IURD do bispo Edir Macedo terá sido fundamental. Em Brasília, manteve-se fiel à promessa feita ao eleitorado religioso: na sua presidência, não haveria propostas legislativas referentes ao aborto ou ao casamento gay – como de facto não houve.

Este ano, a Presidente montou um “comité evangélico” na sua estrutura de campanha, realizou várias acções com líderes religiosos. Mas a Presidente, e sobretudo o PT, também contam com uma feroz oposição no movimento evangélico. Em guerra aberta está, por exemplo, o pastor Silas Malafaia, que dirige a Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e critica os petistas por “apoiarem tudo o que é lixo moral”.

Pastor liberal radical

Quando Marina se tornou candidata, beneficiou da migração do voto evangélico (ela domina entre esses eleitores, captando 37% desses votos, oito pontos mais do que a sua média eleitoral a nível nacional). A campanha do Pastor Everaldo, que ocupava o quarto lugar nas sondagens, com 4% das intenções de voto, perdeu a sua natureza “inédita”. Mas Ricardo Mariano identifica várias características interessantes da candidatura. “O que chamou a atenção foi o radicalismo liberal da sua agenda económica”, diz, com o pastor a defender a extinção de ministérios e a privatização das empresas públicas, incluindo a Petrobrás. “Nenhum dos 30 partidos do Brasil é tão liberal”, compara, distinguindo a novidade do movimento de Everaldo: pela primeira vez, notam-se esforços para o estabelecimento de um nicho eleitoral claramente de direita no Brasil. “Isso é absolutamente inédito num país onde ninguém quer dizer que é de direita”.

*Com informações do Jornal Público de Portugal.

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