Eleições 2014: Em entrevista ao Jornal Nacional, presidente Dilma Rousseff diz que governo desenvolveu instrumentos de combate à corrupção e que eles atuam com rigor

Dilma Rousseff durante a entrevista para o Jornal Nacional.
Dilma Rousseff durante a entrevista para o Jornal Nacional.

Confira entrevista concedida pela candidata a Presidente da República Dilma Rousseff (PT), ontem (18/08/2014), à Rede Globo de Televisão, programa Jornal Nacional, tendo como entrevistadores Willian Bonner e Patricia Poeta.

Willian Bonner: Candidata, boa noite!

Dilma Rousseff: Boa noite, Bonner! Boa noite, Patrícia Poeta! Boa noite, telespectadores.

Willian Bonner: Pois então, o tempo total dessa entrevista é de 15 minutos, como foi o dos demais candidatos e a gente procura reservar um minuto e meio no fim para que o candidato possa expor aqueles projetos que ele considera prioritários para o governo para o caso de ele ser eleito ou no caso de ser reeleita, no caso de hoje. O tempo começa a contar a partir de agora.

Candidata, no seu governo houve uma série de escândalos de corrupção e de desvios éticos. Houve escândalo de corrupção no Ministério da Agricultura, houve escândalo de corrupção no Ministério das Cidades, no Ministério do Esporte, houve escândalo de corrupção no Ministério da Saúde, no Ministério dos Transportes, no Ministério do Turismo, no Ministério do Trabalho. A Petrobras acabou se tornando objeto de duas CPIs no Congresso. A senhora sempre diz que todos esses escândalos foram revelados pela Polícia Federal e estão sendo investigados pela Polícia Federal, que é um órgão do governo federal. A questão que eu lhe faço é a seguinte: qual a dificuldade desde o início de se cercar de pessoas honestas que lhe permitam formar uma equipe de governo honesta e que evite essa situação que vimos de repetidos casos de corrupção? Não pode haver uma sensação no ar de que o PT descuida da questão da ética ou da questão da corrupção?

Dilma Rousseff: Bonner, não pode não. Sabe por quê? Porque nós, justamente, fomos aquele governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, à irregularidade e malfeitos. Por exemplo, a Polícia Federal, no meu governo e no do presidente Lula ganhou imensa autonomia para investigar, para descobrir e para prender. Além disso, nós tivemos uma relação muito respeitosa com o Ministério Público, e nenhum Procurador-Geral da República foi chamado no meu governo e no do presidente Lula de “Engavetador-Geral da República”. Por quê? Porque também escolhemos com absoluta isenção os procuradores. Outra coisa, fomos nós que criamos a Controladoria-Geral da União, que se transformou num órgão forte e também que investigou e descobriu muitos casos. Terceiro. Aliás, eu já estou no quarto, fomos nós que criamos a Lei de Acesso à Informação, criamos no governo um Portal da Transparência. Mas eu quero te dizer uma coisa: nem todas as denúncias de escândalo, Bonner, resultaram em realmente a constatação que a pessoa tinha que ser punida e condenada. Pelo contrário. Muitos daqueles que foram identificados como tendo, pela mídia, como tendo praticado atos indevidos foram posteriormente inocentados. Eu quero te dizer o seguinte.

Willian Bonner: A senhora listou aqui uma série de medidas que foram providenciadas depois de ocorridos os escândalos.

Dilma Rousseff: Não, isso tudo foi antes.

Willian Bonner: Bom, entre as medidas que a senhora providenciou depois dos escândalos esteve o afastamento de alguns ministros. Em quatro casos a senhora trocou um ministro por alguém que era do mesmo partido dele, e do mesmo grupo político dele, que frequentava o mesmo círculo. Essa situação a senhora considera que não foi trocar seis por meia dúzia?. A senhora considera que foi uma atitude prudente como presidente substituir, nestas circustâncias, como medida eficaz da sua parte, candidata?

Dilma Rousseff: Continuando o que estava dizendo, Bonner, nem todas as pessoas denunciadas foram punidas pelo Judiciário e tiveram comprovadamente culpa. Muitas pessoas inclusive se afastaram porque é muito difícil resistir à pressão da família ou a apresentação da pessoa como tendo praticado um crime.

Agora, respondendo à segunda pergunta: por exemplo, recentemente eu fui muito criticada por ter substituído o César Borges pelo Paulo Sérgio. Ora, o Paulo Sérgio foi meu ministro e foi ministro do presidente Lula. Quando saiu do governo, ele ficou dentro do governo num cargo importante, que é da Empresa de Planejamento e Logística. O César Borges o substituiu. Posteriormente, eu troquei o César Borges novamente aí pelo Paulo Sérgio, fiz a troca ao contrário. O César Borges também ficou dentro do governo, na Secretaria de Portos. Os dois são pessoas que eu escolhi, nas quais eu confio. Acho que são pessoas bastante…

Willian Bonner: Mas não foi por pressão do partido, candidata?

Dilma Rousseff: Os partidos podem fazer exigências. Agora, eu só aceito quando eu considero que ambos, e isso que eu queria concluir, ambos são pessoas íntegras, e não só íntegras, são competentes, têm tradição na área e são pessoas da minha confiança. Então eu troquei porque eu tinha confiança nessas pessoas.

Willian Bonner: E em relação ao seu partido? Seu partido teve um grupo de elite de pessoas corruptas. Comprovadamente corruptas. Eu digo isso porque foram julgadas, condenadas e mandadas para a prisão pela mais alta corte do judiciário brasileiro, eram corruptos. E o seu partido tratou esses condenados por corrupção como guerreiros, como vítimas, como pessoas que não mereciam esse tratamento, vítimas de injustiça. A pergunta que eu lhe faço: isso não é ser condescedente com a corrupção, candidata?

Dilma Rousseff: Eu vou te falar uma coisa, Bonner. Eu sou presidente da República. Eu não faço nenhuma observação sobre julgamentos realizados pelo Supremo Tribunal. Pelo motivo muito simples. Sabe por quê, Bonner? Porque a Constituição exige que o presidente da República , como exige dos demais chefes de poder, que nós respeitemos e consideremos a importância da autonomia dos outros órgãos.

Willian Bonner: Então a senhora não condena a postura do PT nesse caso?

Dilma Rousseff: Eu não julgo ações do Supremo. Eu tenho as minhas opiniões pessoais.

Willian Bonner: Mas e a postura do partido?

Dilma Rousseff: Enquanto eu for presidente, eu não externo opinião a respeito do julgamento do Supremo. E vou te dizer, Bonner. Não é a primeira vez que eu respondo isso. Eu, durante o processo inteiro, não manifestei nenhuma opinião sobre o julgamento. Até porque respeito o julgamento.

Willian Bonner: Mas candidata, a pergunta que eu fiz foi sobre a postura do seu partido. Sobre a postura do seu partido…

Dilma Rousseff: Eu não vou tomar nenhuma posição, Bonner, que me coloque em confronto, conflito, ou aceitando ou não. Eu respeito a decisão da suprema corte brasileira. Isso não é uma questão subjetiva. Para exercer o cargo de presidência, eu tenho de fazer isso.

Patricia Poeta: Corrupção não é o único problema. Seu governo diz que investiu muito na área de saúde. Essa continua sendo exatamente a maior preocupação dos brasileiros, segundo uma pesquisa do instituto Datafolha. Isso depois de 12 anos do governos do PT, ou seja, mais de uma década, candidata. Não foi tempo suficiente pra colocar esse problema nos trilhos, não?

Dilma Rousseff: Olha, Patrícia, nós tivemos e ainda temos muitos problemas a enfrentar e desafios a enfrentar na saúde. Eu acredito que nós enfrentamos um dos mais graves desafios que há na saúde, porque na saúde você precisa de ter médicos. Pode ter tudo, se não tiver médicos, não tem atendimento à saúde. Também é possível a gente olhar a população e ver nas pesquisas que ela reclama, sempre reclamou da falta de médicos.

Nós tivemos uma atitude muito corajosa. O Brasil tem uma das menores taxas de médicos por mil habitantes, 1,8. Isso levou a uma carência imensa de médicos na Atenção Básica, nos postos de saúde. É sabido que 80% dos problemas de saúde da população você consegue resolver atenção básica. Então qual a providência que nós tomamos com muita resistência? Mas muita resistência. Nós, primeiro, chamamos os médicos brasileiros pra atender o número, precisávamos em torno de 14 mil médicos. O número veio insuficiente, não tinha médicos suficientes formados no Brasil com condições de atender. Depois chamamos médicos, brasileiros ou não, formados no exterior individualmente. Na sequência, também não chegou a um número suficiente. Na sequência, chamamos médicos cubanos através da OPAS, e aí conseguimos chegar a 14.462 médicos, que pelos dados da OMS correspondem a uma capacidade de atendimento de 50 milhões de brasileiros. 50 milhões de brasileiros não tinham atendimento médico, hoje tem. Agora estamos numa 2ª etapa.

Patrícia Poeta: Deixa só eu fazer um adendo porque eu acho que é importante pros nossos telespectadores. A senhora diria que então, diante dos nossos telespectadores, que hoje enfrentam filas e filas nos hospitais, muitas vezes são atendidos em macas, que muitas vezes não conseguem um fazer exame de diagnóstico, que a situação da saúde do nosso país, hoje, é minimamente razoável? Depois de 12 anos?

Dilma Rousseff: Não acho, até porque, Patrícia, o Brasil precisa também de uma reforma federativa porque há responsabilidades federais, estaduais e municipais. Nós assumimos no caso dos Mais Médicos o atendimento aos postos de saúde como uma responsabilidade basicamente, nós assumimos como federal. Ela é uma responsabilidade compartilhada, mas assumimos como federal porque temos mais recursos. Agora veja o resto do raciocínio, Patrícia…

Willian Bonner: Ainda temos que falar de economia…

Dilma Rousseff: Vou falar de economia, tenho o maior prazer, Bonner.

Veja só qual é a sequência disso. Agora nós consideramos que é muito importante duas coisas: primeiro, tratar das especialidades, criar as condições pro Brasil dar atendimento de especialidade, que são aquelas que nós sabemos, ortopedista, o ginecologista, o cardiologista com exames mais rápidos.

Assim como nós enfrentamos e resolvemos os problemas dos 14 milhões, aliás, dos 50 milhões de brasileiros, e dos 14 mil médicos, hoje nós temos já condições de resolver isso porque diminuímos a pressão, porque todo mundo que não era atendido num posto de saúde iria para uma UPA ou para um hospital.

Patrícia Poeta: Era 12 anos, nos 12 anos de governo, 3 mandatos. Mas o Bonner quer falar de economia…

Dilma Rousseff: Mas nesses 3 mandatos do PT teve o SAMU, que atende 149 milhões de brasileiros, o que não existia. Acho que temos de melhorar a saúde, não tenho dúvida disso. Nenhuma.

Willian Bonner: Vamos em frente. Economia, a inflação anual esta no teto da meta estabelecida pelo governo, tá em 6,5%. A economia encolheu 1,2% no 2º trimestre desse ano e tem uma projeção de crescimento baixíssima para este ano, menor do que 1%. O superávit do 1º semestre deste ano foi o pior dos últimos 14 anos. Quando a senhora é confrontada com esses números ruins, a senhora diz que são produto, são resultado de crise internacional. Aliás a senhora diz até que eles não são tão ruins assim, porque a senhora lembra o caso de demissões de milhões da Europa, e o fato de o Brasil ter hoje uma situação praticamente de pleno emprego.

Aí, quando os analistas que dizem que ano que vem vai ser difícil, de acertos de casa, que é preciso arrumar a economia brasileira, é importante, e isso vai impor alguns sacrifícios, vai ser um ano duro, a senhora diz que isso é pessimismo. Aí eu lhe pergunto: a senhora considera justo, olhando os números da economia, ora culpar o pessimismo, ora culpar a crise internacional? Seu governo não tem responsabilidade nos resultados que estão aí?

Dilma Rousseff: Oh, Bonner, primeiro: nós enfrentamos a crise pela primeira vez no Brasil não desempregando, não arrochando salários, não aumentando tributos, pelo contrário, diminuímos. Reduzimos e desoneramos a folha, reduzimos a incidência de tributos sobre a cesta básica. Nós enfrentamos a crise também sem demitir. Qual era o padrão anterior?

Willian Bonner: Mas o resultado no momento é muito ruim. Inflação alta, indústrias com estoques elevados, ameaças de desempregos…

Dilma Rousseff: Veja bem, Bonner, eu não sei da onde que são os seus dados…

Willian Bonner: Da indústria

Dilma Rousseff: Mas temos duas coisas acontecendo. Nós temos uma melhoria prevista no 2º semestre, vou te dizer porque: primeiro…

Willian Bonner: Isso não é ser otimista em contrapartida ao pessimismo que a senhora critica?

Dilma Rousseff: Não… Você sabe, Bonner, tem uma coisa na economia que chamam índices antecedentes, e os índices que evidenciam como é que é a situação atual. O que são os índices antecedentes, por exemplo? A quantidade de papelão que é comprada, a quantidade de energia elétrica consumida, a quantidade de carros que são vendidos. Todos esses índices indicam uma recuperação no 2º semestre. Além disso, a inflação cai desde abril e atinge hoje, se você não olhar pelo retrovisor e o olhar o que esta acontecendo hoje, ela atinge 0%. O último dado do IPC-S que saiu, se não me engano, hoje ou ontem, chegou a 0,078%. Acabou? Ô, desculpa.

Willian Bonner: Eu quero garantir à senhora o um minuto e meio, para seus projetos.

Dilma Rousseff: Eu quero dizer que pra mim estamos superando as dificuldades de uma crise com emprego e renda.

Willian Bonner: Seus projetos prioritários…

Dilma Rousseff: Olha, Bonner, eu fui eleita para dar continuidade aos avanços do governo Lula. Ao mesmo tempo, nós preparamos o Brasil para um novo ciclo de desenvolvimento, um Brasil moderno, mais inclusivo, mais competitivo, mais moderno. Criamos as condições para o Brasil dar um salto, colocamos educação no centro de tudo. Queremos continuar a ser um país de classe média, cada vez maior a participação da classe média. Cada vez maior a participação da classe média. E eu queria concluir dizendo o seguinte: acredito no Brasil. Mais do que nunca, precisamos acreditar no Brasil, diminuir o pessimismo, e peço o voto dos telespectadores, peço o voto para o Brasil continuar avançando. Muito obrigada.

Dilma Rousseff: fomos aquele governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, à irregularidade e malfeitos. Por exemplo, a Polícia Federal, no meu governo e no do presidente Lula ganhou imensa autonomia para investigar.
Dilma Rousseff: fomos aquele governo que mais estruturou os mecanismos de combate à corrupção, à irregularidade e malfeitos. Por exemplo, a Polícia Federal, no meu governo e no do presidente Lula ganhou imensa autonomia para investigar.
Dilma Rousseff: eu fui eleita para dar continuidade aos avanços do governo Lula. Ao mesmo tempo, nós preparamos o Brasil para um novo ciclo de desenvolvimento, um Brasil moderno, mais inclusivo, mais competitivo, mais moderno.
Dilma Rousseff: eu fui eleita para dar continuidade aos avanços do governo Lula. Ao mesmo tempo, nós preparamos o Brasil para um novo ciclo de desenvolvimento, um Brasil moderno, mais inclusivo, mais competitivo, mais moderno.
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