Editorial: Destruição socioambiental marca gestões do prefeito José Ronaldo em Feira de Santana

José Ronaldo de Carvalho e a década perdida no planejamento urbano.
José Ronaldo de Carvalho e a década perdida no planejamento urbano.

O Jornal Grande Bahia estreia a série de reportagens com o tema ‘Feira de Santana a cidade desconstruída’, oportunidade em que aborda como o município deixou de evoluir nos diferentes aspectos: social, urbano, ambiental e econômico, e de que maneira a falta de um eficaz planejamento transforma Feira de Santana na cidade do atraso, da incúria, da má gestão, da destruição ambiental, da escola pública de baixa qualidade, da saúde pública ineficiente, do sistema viário caótico, e do transporte público decadente. As reportagens contam com análises do jornalista e cientista social Carlos Augusto, e são embasadas na verificação empírica da realidade com documentação a partir do registro de imagens.

A década perdida

Uma década perdida, assim entra para história a era José Ronaldo de Carvalho em Feira de Santana. Eleito três vezes prefeito, Ronaldo enfrenta dificuldades em todos os setores da gestão municipal. Uma das mais graves crises que afeta a maior parte da população está no setor de transporte público. Uma frota de veículos velhos, roteiros e horários inadequados, vias não pavimentadas, veículos que atuam clandestinamente, terminais de ônibus mal planejados, e uma das tarifas mais caras do país conformam o dantesco quadro em que se encontra a atual situação do transporte público no município.

Nas duas primeiras gestões de Zé Ronaldo o município crescia economicamente enquanto os problemas se acumulavam. A falta de visão de longo prazo conduziu Feira de Santana a um crescimento social, econômico e ambiental desequilibrado. A falta de visão, aliada a uma mídia acrítica, e cujos protagonistas mantêm vínculos com poder local, conduziu a municipalidade para um consenso, que aos poucos tornou-se dissenso, ou seja, de grande gestor de Feira de Santana, Ronaldo começa a ser responsabilizado por uma década de atraso em vários setores da sociedade e da urbanidade.

Os erros se repetem e a falta de interlocução com a sociedade conduz ao agravamento e destruição socioambiental de Feira de Santana. A cidade agoniza, o grito é percebido na desordem em que se transformou o centro da cidade, e como um câncer no corpo humano, a desordem do centro ramifica-se para regiões periféricas. As barracas que o prefeito edifica nas praças são monumentos a estupidez humana. No dia em que são inauguradas parecem bonitas, pouco tempo depois se tornam decadentes. Ao invés de árvores, chafariz, bancos, mesas para rodadas de diálogos e mesas para jogos como xadrez, dama e baralho são dispostas as infames mesas de plástico com os novos donos do espaço público, os proprietários das barracas. “Ronaldo entra para história como o rei das barracas de Feira de Santana”, avaliam populares. Sim, o prefeito deixa para gerações de feirenses este infame modelo de desenvolvimento urbano.

A perda de oportunidade

O significativo crescimento socioeconômico de Feira de Santana nos dois primeiros governos de José Ronaldo (DEM, 1ª de janeiro de 2001 – 31 de dezembro de 2008) ocorreu em função do crescimento que o Brasil atravessou nos dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 1 de janeiro de 2003 – 31 de dezembro de 2010). Um gestor com visão de longo prazo teria percebido que mais importante do que aceitar a popularidade do momento, fazendo esdruxulas e ilegais concessões a segmentos da sociedade, era necessário planejar o crescimento para que as futuras gerações pudessem viver em um lugar melhor.

O futuro chegou, uma década depois. O futuro chegou e o resultado é algo que merece questionamento e reflexão: Que sociedade construímos para as futuras gerações? Cedo ou tarde morremos, o que importa não é apenas aquilo que realizamos em vida para nós mesmos, mas o que deixamos no mundo para os que surgirem depois de nós. José Ronaldo de Carvalho deixa um triste legado de desconstrução socioambiental, além de um setor industrial que se confunde com a própria tessitura da urbanidade, e uma cidade que agoniza pela falta de ordenamento e planejamento.

Transporte público demonstra que em uma década no poder José Ronaldo não foi capaz de promover serviço com qualidade
Transporte público demonstra que em uma década no poder José Ronaldo não foi capaz de promover serviço com qualidade.
Situação dos ônibus de Feira de Santana.
Situação dos ônibus de Feira de Santana.
Calçada da Sales Barbosa em Feira de Santana. Decadência do espaço urbano por falta de cuidado com o que é público.
Calçada da Sales Barbosa em Feira de Santana. Decadência do espaço urbano por falta de cuidado com o que é público.
Lagoa ao lado da Universidade Estadual de Feira de Santana é invadida. Permissividade com crimes ambientais.
Lagoa ao lado da Universidade Estadual de Feira de Santana é invadida. Permissividade com crimes ambientais.
Praças do centro de Feira de Santana são ocupadas por barracas. Primeiro o município permite o crime, depois institucionaliza, ciclo perverso que se repete e degrada a vida na urbis.
Praças do centro de Feira de Santana são ocupadas por barracas. Primeiro o município permite o crime, depois institucionaliza, ciclo perverso que se repete e degrada a vida na urbis.
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Sobre Carlos Augusto 9616 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).