Brasil: Tudo de graça | Por Alberto Peixoto

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Robson Ramon Aguiar, fazendário da SEFAZ.
Robson Ramon Aguiar, fazendário da SEFAZ.

As diversas manifestações que ocorrem de norte a sul do país, deixa explícito que o brasileiro quer tudo de graça, ou seja: saúde, educação, casa própria, terra, transporte, entre outros. Diante deste quadro fica a pergunta: e quem vai pagar por tudo isso? Com certeza todos aqueles que trabalham, produzem e pagam impostos.

Nos países do mundo “civilizado”, como os Estados Unidos – entre tantos outros europeus – onde só existe gratuito o ensino fundamental, quem pretender cursar uma universidade, que são muito caras, convém dizer, precisa desembolsar uma polpuda quantia em dólares ou euros para ingressar na faculdade. De outra forma só sendo um atleta que venha interessar aos quadros esportivos da instituição para, desta maneira, receber uma bolsa de estudo. Outros segmentos que possuem alto custo no exterior são a saúde e a moradia.

Como pode se admitir que em um país com extensões continentais, onde o nível de analfabetismo é galopante, poucos, uma minoria, trabalhe para pagar a conta do “Tudo de Graça”? Há uma reclamação quase generalizada de que o brasileiro trabalha 4 ou 5 meses no ano para pagar impostos e regalias de políticos corruptos. Na realidade, também estamos alimentando a indústria das bolsas e dos passes livres e em contra partida, é preciso pagar – os que trabalham – para ter um plano de saúde melhor, educação para os filhos ou a sua educação, segurança, entre outros segmentos essenciais.

O povo brasileiro  está cansado de patrocinar um bando de desocupados que praticam atos de banditismo, que bloqueiam ruas, estradas, queimam pneus, picham monumentos públicos, na realidade não passam de bandidos praticando todo tipo de vandalismo contra o cidadão que, na realidade, também é vítima. E o poder público, do alto de sua inércia, não toma providências.

Em um bate papo informal com o colega Robson Ramon Aguiar, funcionário público, lotado na SEFAZ – Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia – resolvi entrevistá-lo e saber quais as suas impressões sobre estes movimentos que se tornaram rotina em todo o país.

Alberto Peixoto – Como você analisa estas manifestações que estão acontecendo em todo o País?

Robson Ramon – Vejo a essência das manifestações de forma positiva, o revés da moeda ocorre na forma como elas acontecem ou como este descontentamento é manifestado, de forma desordeira e atingindo indiscriminadamente a tudo e a todos, um exemplo que tenho a dar foi uma conversa que tive com um membro de comunidade que pretendia participar de um bloqueio de estrada para reivindicar melhora no sistema de transporte para um distrito aqui de Feira de Santana, eu perguntei se antes da manifestação a comunidade já havia procurado as autoridades, “ela disse que não” vejam que é uma forma de manifestação inconseqüente, vai-se ao extremo antes mesmo de procurar o diálogo que é a premissa da civilidade.

A. P. – Como você analisa o Brasil de hoje?

R. R. – O Brasil está envolvido em um paradigma, o povo almeja infra estrutura de primeiro mundo, mas no entanto ao meu ver, o “pontapé” inicial para conseguirmos os “louros” alcançados pelos países ditos do primeiro mundo, está na educação, pela educação conseguiremos primeiramente votar melhor, depois a reboque, paulatinamente conseguiremos um futuro melhor.

A. P. – Os movimentos que estão sendo realizados contra a Copa do Mundo no Brasil não podem estar sendo uma estratégia política da oposição para desestabilizar o Governo? As eleições estão às portas.

R. R. – A conotação política das manifestações não pode ser desconsiderada, mas algumas manifestações ordeiras, poucas, diga-se de passagem, são legitimas e devemos ter discernimento para separar o joio do trigo, aí é onde entra a educação, entende?

A. P. – Os protestos que estão ocorrendo em todo o país, segundo sua ótica, trouxeram uma melhor percepção sócio-política do brasileiro? 

R. R. – Veja bem, muitos, manifestam-se pelo simples fato de haver alguém que consegue envolver um grupo de pessoas, que conseqüentemente não conhecem direitos e deveres e contam com a omissão do poder público, veja o caso que aconteceu com a manifestação que fecharam a av. José Falcão a pouco tempo, o grupo invadiu uma área de preservação ambiental e reivindicava a urbanização do local, a resposta da Prefeitura é que não podiam urbanizar o local pois é área de preservação, mas deixou que construíssem casas ali, assim sendo, lanço uma pergunta no ar: porque deixaram construir? Veja, um ciclo sem fim, onde a educação seria fundamental para uma melhor percepção do que se reivindica e de como se reivindica.

A. P. – Já se pode dizer que o brasileiro atual está mais politizado, mais inteirado com os problemas sociais e econômicos do Brasil?

R. R. – A meu ver esta melhor politização só será conseguida com o entendimento e o discernimento dado pela educação e tudo isso, leva tempo.  O Chile levou mais de 30 anos para ter uma educação de primeiro mundo, hoje este fator é destaque naquele país.

A. P. – Dê suas impressões sobre a maturidade política do brasileiro.

R. R. – Há uma longa estrada a ser percorrida, esta maturidade não se consegue da noite para o dia, muitos ainda se iludem com as “bolsas” e outras tantas benesses dadas pelo poder público nas 3 esferas. No interior do estado, conheço uma cidade de em torno de 15.000 habitantes, não posso informar o nome, que a prefeitura trouxe uma indústria e teve dificuldade para conseguir preencher as 60 vagas disponibilizadas, pois a população já está acostumada a viver de ajuda da prefeitura, que fornece cesta básica, etc. etc.

A.   P. – Para concluir, fale sobre o Tudo de Graça.

R. R – O tudo de graça é uma ilusão causada pela falta de educação, pois nada é de graça, alguém tem que pagar a conta e neste caso quem paga no Brasil é a classe média, pois aqui o que se cobra do rico é pouco em comparação a sua renda, o pobre é beneficiado pelos programas sociais e quem está no meio dos extremos, sustenta tudo.

Sobre Alberto Peixoto 488 Artigos
Antonio Alberto de Oliveira Peixoto, nasceu em Feira de Santana, em 3 de setembro de 1950, é Bacharel em Administração de Empresas pela UNIFACS, e funcionário público lotado na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia, atua como articulista do Jornal Grande Bahia, escrevendo semanalmente, é escritor e tem entre as obras publicadas os livros de contos: 'Estórias que Deus Duvida', 'O Enterro da Sogra, 'Único Espermatozoide', 'Dasdores a Difícil Vida Fácil', participou da coletânea 'Bahia de Todos em Contos', Vol. III, através da editora Òmnira. Também atua incentivador da cultura nordestina, sendo conselheiro da Fundação Òmnira de Assistência Cultural e Comunitária, realizando atividades em favor de comunidades carentes de Salvador, Feira de Santana e Santo Antonio de Jesus. É Membro da Academia de Letras do Recôncavo (ALER), ocupando a cadeira de número 26. E-mail para contato: [email protected] Saiba mais sobre o autor visitando o endereço eletrônico http://www.albertopeixoto.com.br.