Albert Camus: Paixão, Política & Jornalismo | Por Ubiracy de Souza Braga

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Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.
Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.
Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.
Albert Camus foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.
Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

“Je n`ai pas dit exclut Dieu, ce qui est équivalent à sa demande. Albert Camus 

Albert Camus nasceu no dia 7 de novembro de 1913, na Argélia francesa numa família dita “pied-noir”. Esta expressão se refere à população francesa das antigas colônias, Departamentos franceses no norte da África: Argélia, Tunísia e Marrocos, que foi repatriada a partir de 1962, notadamente após a guerra de Independência da Argélia. Morreu em 1960, vítima de um acidente de automóvel. Em sua maleta estava contido o manuscrito de “O Primeiro Homem”, um romance autobiográfico. De biografia ímpar, rara em tempos de crise de consciência na modernidade, como o transitório, o fugidio, o contingente. Com pai francês e mãe de origem espanhola, Camus conhece cedo o gosto amargo da morte. Conviveu com o lado obscuro do século XX. Escreveu sobre a peste, o medo, a submissão do “homem ao absurdo”, a guerra de Independência da Argélia, sua terra natal paixão e de formação política. Em 1938, Albert Camus colaborou com a fundação do jornal “Alger Républicain”.

Durante a guerra mundial de 1940-45, colabora pari passu com o jornal “Combat”, além de sua participação no jornal “Paris-Soir”. Como intelectual empreende uma crítica analítica singular. Independente, fora do partidarismo oportunista e, sobretudo, das formas contemporâneas do binômio “produção-consumo”, no sentido que o Marx de 1859 emprega, no âmbito do jornalismo consumista que se faz refém no dias de hoje da chamada “indústria cultural”. “Combat” foi um jornal francês. Sua fundação ocorre em meio à 2ª guerra mundial, sendo um diário clandestino editado pela Resistência francesa e com a colaboração de Albert Camus. Em agosto de 1944, com o fim da ocupação nazista em Paris, o periódico passa a circular fora da clandestinidade e a partir deste momento, adotam uma postura infelizmente anticomunista. Em 1947 Albert Camus deixa o jornal, juntamente com Pascal Pia. O jornal “Combat” teve grande destaque na década de 1960, com os eventos da Guerra da Argélia e o movimento de Maio de 1968. Camus tornou-se jornalista pelo dom de retratar a realidade social, após cursar filosofia e trabalhar em jornais da Argélia e na prestigiosa Editora Gallimard, na França.

Tivesse Camus escapado ao acidente que lhe tirou a vida, aos 46 anos, em janeiro de 1960, talvez mudasse de ideia sobre sua visão aparentemente sombria do século XX. Teria assistido a Independência política da Argélia, a derrota do franquismo, quem sabe mesmo a derrubada do muro de Berlim, o final da guerra fria e, em particular, a criação da União Europeia. No dia 21 de julho de 1990, Roger Waters, ex-baixista do Pink Floyd, fez um dos maiores e mais importantes shows da história do rock. Perante 200 mil pessoas, na Potsdamer Platz, em Berlim, ele, acompanhado por vários astros da música pop, tocou na comemoração da queda do Muro de Berlim, ocorrida no ano anterior (1989). Marco da Guerra Fria, o Muro de Berlim dividia a cidade de Berlim em ocidental e oriental. Com o colapso do bloco comunista, a edificação acabou sendo derrubada, e a cidade passou a ser uma só, novamente.

Em 2010, em seu cinquentenário de morte, Nicolas Sarkozy, propôs que seus restos mortais fossem retirados de seu túmulo, na vila de Lourmarin, e transladados para o Pantheon, em Paris. Já se vão pouco mais de 100 anos de seu nascimento, a melancolia, a estética “noir” dos cafés de Saint-German-des-Pés, a imagem do homem viril e de algumas mulheres encantadoras, tais como: Maria Casares, Catherine Sellers. Maria Victoria Casares Quiroga y Pérez, artisticamente, María Casares (1922-1996) atriz espanhola com notório sucesso no cinema francês. Trabalhou na televisão, cinema, atuando num dos clássicos franceses: “Les enfants du paradis”, mas dedicou-se ao teatro, tornando o seu nome prêmio teatral: “Prêmio María Casares”. Camus conheceu Maria Casares, mais tarde estrela de Orfeu de Cocteau, mas já uma atriz reconhecida, em 1944. Filha de um rico espanhol republicano, um refugiado de Franco, ela era uma mulher voluntariosa, inteligente e apaixonada. Ela talvez tenha sido a única de suas amantes que teve uma relação de igualdade com ele.

Além disso, Todd diz: – “Se ele era um Don Juan, era um Don Juana”. Casares, que morreu recentemente, escreveu uma autobiografia em que ela foi sincera sobre sua relação com o célebre Camus, mas com uma curiosa altivez nunca citou diretamente de suas centenas de cartas. Conhecida por ter, entre outros julgados sob a direção de Alain Resnais, Marguerite Duras ou Albert Camus, que era um dos companheiros da atriz Catherine Sellers que também empresta sua voz para documentários. Ela foi membro do júri de Marguerite Duras. Recebeu o prêmio de melhor atriz da União de críticas nos anos 1981/1982. Jean Grenier foi fundamental para que Albert Camus se graduasse em filosofia. Tanto Grenier quanto o velho mestre Guerin, foram lembrados no livro: “O Homem Revoltado” (1951). Sua dissertação de mestrado é sobre neoplatonismo e sua tese de doutoramento, assim como a de Hannah Arendt sobre Santo Agostinho (cf. Braga, 2011).

A guerra da Argélia (1954-1962) representou um movimento de luta pela Independência da Argélia, então território francês. Caracterizou-se por ataques de guerrilha e atos de violência contra civis – perpetrados tanto pelo exército e colonos franceses chamados os “pied-noirs” quanto pelo Front de Libération Nationale – FLN e outros grupos argelinos pró-Independência. O governo francês considerava criminoso ou terrorista todo ato de violência cometido por argelinos contra franceses, inclusive militares. No entanto, alguns franceses, como o antigo guerrilheiro anti-nazi e advogado Jacques Vergès, compararam a Resistência francesa à ocupação nazi com a resistência argelina à ocupação francesa. Uma campanha de atentados antiárabes (1950-1953) havia sido praticada por colonos direitistas. Desencadeado, em contrapartida, a luta lançada pela FLN em 1954. Apenas dois anos antes de a França ser obrigada a desistir do seu controle sobre a Tunísia e Marrocos. O principal rival argelino da FLN – com o mesmo objetivo de Independência política para a Argélia – era o “Mouvement National Algérien” – MNA, cujos insurgentes principais eram trabalhadores argelinos em França. A FLN e o MNA lutaram entre si durante o conflito social e político.

Em filosofia, metodologicamente “Absurdo” se refere ao conflito entre a tendência humana de buscar significado inerente à vida. Ou a inabilidade humana para encontrar algum significado. Nesse contexto “absurdo” não significa, “logicamente impossível”, mas sim “humanamente impossível”. O universo e a mente humana não causam separadamente o Absurdo. Mas é o Absurdo que surge pela natureza contraditória de ambos existindo simultaneamente. Esta filosofia está relacionada ao existencialismo de Sartre (cf. Braga, 2012) e ao niilismo de Nietzsche (cf. Braga, 2014), ainda que não deva ser confundido com estes. “Absurdismo”, portanto, como conceito tem suas raízes no século XIX com o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard. Já como sistema de crença nasceu do movimento existencialista quando o filósofo e escritor francês Albert Camus rompe essa linha filosófica e publica seu manuscrito “O mito de Sísifo”. As consequências da 2ª Guerra Mundial proporcionaram um ambiente social propício para as visões “absurdistas”, especialmente na devastada França, como as de Emil Cioran (2009; 2011a; 2011b; 2012).

O absurdo no ensaio: “Lhe Mythe de Sisyphe” é considerado um ponto de partida. Trata-se de uma sensibilidade, não de uma filosofia do absurdo. O autor diz isso em parte do prólogo: – “aqui se encontrará unicamente a descrição, o estado puro de uma doença do espírito. Nenhuma metafísica, nenhuma crença foi misturada a isso por enquanto”. Sem lugar a dúvidas, “O mito de Sísifo” é a obra capital do absurdo. Assim como fez Jean-Paul Sartre, ao publicar em 1943 o ensaio “O ser e o nada”, onde tenta exibir a tese da novela “A náusea” (1938), Camus publica o ensaio em que tenta resolver os problemas propostos em sua narração “O estranho”, ambos de 1942. Um dos aspectos relacionados por estudiosos a este ensaio de Camus é o tema do suicídio. Foi analisado magistralmente por Émile Durkheim, mas para Camus, especialmente em sua primeira parte: “Um raciocínio absurdo”. A resposta que Camus tenta diante deste problema, refere-se a um trabalho sobre o sentimento do absurdo, sua gênese, seu conteúdo. Desenvolve o conceito do tempo, como inimigo, para entender a ilogicidade do mundo. O espectro da morte como uma certeza do absurdismo.

De acordo com o “absurdismo”, por toda a história os humanos tentam encontrar sentido para suas vidas. Isto é correto, mas tradicionalmente, essa busca resulta em uma das duas conclusões: ou que a vida não tem sentido, ou que a vida contém nela um propósito definido por uma força maior – uma crença em Deus, ou a aderência a alguma religião ou outro conceito abstrato. Camus percebe que preencher a lacuna com alguma crença ou sentido inventado é um mero “ato de ilusão”; isto é, evitar ou contornar ao invés de reconhecer e abraçar o Absurdo. Para Camus, “a ilusão é uma falha fundamental na religião”, no existencialismo, no caso do existencialismo ateísta, entretanto, não inclui “ilusão” e em várias outras escolas do pensamento. Se o indivíduo escapa ao Absurdo, então ele não poderá confrontá-lo. Mesmo com uma força espiritual para dar significado, outra questão surge: Qual o propósito de Deus? Ora, Kierkegaard acreditava que não há propósito de Deus compreensível aos humanos. Fazendo da crença em Deus “um absurdo por si mesma”, um fim em si mesmo. Camus, por outro lado, sugere que acreditar em Deus é “negar um dos termos da contradição”, entre a humanidade e o universo, portanto, não absurdo, mas é o que ele chama de “suicídio filosófico”. Camus, como analogamente também Kierkegaard, ainda assim, sugere que enquanto o absurdo não leva à crença em Deus, também não leva à Sua negação. Camus nota, – “Eu não disse exclui Deus, o que equivale à Sua afirmação”.

No entanto, todo este pessimismo tende a apagar-se com o mesmo final que dá a sua obra. Diz: “devemos imaginar Sísifo feliz”. E aqui surgem então dois conceitos fundamentais: a consciência e a esperança. Diante deste mundo complexo e incompreensível, diante da cotidianidade da vida, onde tudo acabará com a morte, surge a consciência. Camus diz isso muito bem: “pois tudo começa pela consciência e nada vale mais do que por ela”. O absurdo então não é a sociedade nem o homem, senão a interação entre ambos. “A consciência é um desejo louco de clareza”. Em relação à esperança, trata-se de encontrar outros caminhos; tudo tem um por que, inclusive o que parece fora da razão. Finalmente, está a rebelião, a ilusão da liberdade que denota ser outra obsessão de Camus. Assim o homem se libera e voltamos ao conceito do presente. – “O presente e a sucessão dos presentes… é o ideal absurdo”.

Para alguns, suicídio é uma solução quando confrontados com a futilidade de viver a vida destituída de qualquer significado, sendo o suicídio apenas um meio de adiantar o resultado final do destino de cada um. Para Albert Camus em “O Mito de Sísifo”, não é uma solução vantajosa, porque se a vida é verdadeiramente absurda, combatê-la é ainda mais absurdo; ao invés disso, nós deveríamos viver, e conciliar o fato de que vivemos numa realidade sem sentido. Suicídio, de acordo com Camus, é simplesmente um ato de evitar o Absurdo, ao invés de viver apesar dele. É a beleza que as pessoas encontram na vida que a faz valer a pena. As pessoas podem criar sentido para suas vidas, que pode não ser um sentido filosoficamente objetivo, se é que há um, mas ainda assim pode prover algo pelo que lutar. Entretanto, ele insistiu que se deve sempre manter uma distância irônica (Kierkegaard) entre esse significado inventado e o conhecimento do Absurdo, de forma que o significado inventado não tome o lugar do Absurdo.

A liberdade não pode ser alcançada além do que a absurdidade da existência permite; entretanto, o mais perto de que alguém pode chegar de ser absolutamente livre é pela aceitação do Absurdo. Camus introduziu a ideia da “aceitação sem resignação” como um meio de lidar com o reconhecimento do absurdo, questionando se um homem pode ou não “viver sem apelo”, enquanto definindo uma “revolta consciente” contra a evasão da absurdidade do mundo. Em um mundo destituído de significado superior ou justiça após a morte, o ser humano se torna tão absolutamente livre quanto é humanamente possível. É através dessa liberdade que o homem pode atuar, ou como místico, através do apelo a alguma força sobrenatural, ou, como um herói do absurdo, através da revolta contra tal esperança.

A rejeição da esperança, no “absurdismo”, demonstra a recusa de acreditar em qualquer coisa além do que essa vida absurda pode prover. Doravante, a recusa do herói do absurdo à esperança se torna sua habilidade de viver o presente com paixão. A esperança, como Camus enfatiza, não tem, entretanto nada a ver com desespero, significando que os dois termos não são antônimos. O indivíduo pode viver rejeitando completamente a esperança, e, de fato, só pode fazê-lo sem esperança. A esperança é vista pelo “absurdista” como outro método fraudulento de evadir o Absurdo, e não tendo esperança, o indivíduo estará motivado a viver cada momento ao máximo. O “absurdista” não é guiado por moralidade, mas ao invés disso, pela sua própria integridade. O “absurdista” é, de fato, amoral, porém não necessariamente imoral. Moralidade implica um firme senso definitivo de certo e errado, enquanto a integridade implica honestidade consigo mesmo e consistência nas motivações subjacentes das ações e decisões do indivíduo.

Na interpretação de Georges-Michel Darricades, metodologicamente há dois tópicos fundamentais nos quais podemos abraçar a obra de Camus: “o absurdo e a rebeldia”. De alguma maneira, ele gostava de ordenar seus ciclos, denominados assim por ele. Desta maneira, na série de análise sobre o “Absurdo”, logicamente incluía: “O estranho”, “O mito de Sísifo”, “Calígula” e “O mal-entendido”; e na série “Rebeldia”, estava o livro “A peste” e “O homem rebelde”. Há muitas páginas de Camus que ultrapassam a sucinta relação que Georges-Michel Darricades pretende para dar consistência ao artigo. Aí estão: “Avesso e Direito”, “Casamentos”, “O verão”, no plano dos ensaios; “A queda”, “O exílio no reino da narrativa”; “O mal-entendido”, “O estado de sítio”, “Os justos”, no teatro. E outros textos como “Atualidades” e “Cadernetas”, que estão mais perto da contingência e do devir dos acontecimentos que lhe tocou viver. Esta filosofia está relacionada ao existencialismo e ao niilismo, ainda que não deva ser confundido com estes.

Lembramos que o tema da rebelião já o preocupava vários anos antes. Um amigo lhe pedira para escrever algo a respeito para uma compilação sobre o tema, por isso, tinha várias anotações em seu Diário sobre ele. Este ensaio, um dos mais importantes de Camus, reflete um antes e um depois em relação aos seus contemporâneos. Significou o início do distanciamento e a polêmica com Sartre. E também recebeu o ataque de boa parte da intelectualidade francesa e da publicação: “Les Temps Modernes”. A pergunta central que o autor propõe nesta obra é: “o crime é legítimo?”. Então, denuncia o terrorismo de Estado no nazismo, fascismo e no comunismo, este último através de sua expressão mais depurada, o stalinismo. O autor se distancia dessa rebelião morna, comum em muitos intelectuais de seu tempo: “eu me sublevo, depois me retiro à montanha, lavo as mãos…”. Ao contrário, fala da cidade, a rebelião deve ser feita ali para ser realmente eficaz. No entanto, sabe que é difícil; o indivíduo luta contra o mal, mas é impossível mudá-lo em um só dia pelo bem. E, com suas próprias palavras: – “depois de tudo, os filhos sempre morrerão injustamente, mesmo na sociedade perfeita. Em seu maior esforço, o homem só pode tentar diminuir aritmeticamente a dor do mundo”. Mas “o porquê de Dimitri Karamazov continuará ressoando; a arte e a rebeldia somente terminarão com o último homem”.

Do ponto de vista literário particularmente o livro: “L`Étranger” é o mais famoso romance do escritor Albert Camus. Lançada em 1942, tendo sido traduzida em mais de quarenta línguas é sua obra-prima. Recebeu uma adaptação cinematográfica com o título em italiano: “Lo straniero”, filme franco-italiano de 1967, do gênero drama, realizado por Luchino Visconti em 1967, como ocorre em 1972 com o filme: “Ludwig”, sobre a vida e a morte de Luís II da Baviera, mais conhecido por sua admiração por Richard Wagner e sua comissão de vários palácios na Baviera entre eles: “Neuschwanstein” e “Herrenchiemsee”. O filme foi gravado em Munique. Contudo, “L`Étranger”, para o que nos interessa, faz parte do “ciclo do absurdo”, a trilogia composta de um romance: a) “L`Étranger”, um ensaio: b) “Le mythe de Sisyphe”, e c) da peça de teatro: “Calígula”, que descrevem o aspecto fundamental de sua filosofia: o absurdo. O romance narra a história de Meursault, que comete um assassinato e é julgado por esse ato. A ação desenrola-se na Argélia, época em que ainda era colônia francesa. A acusação concentra-se no fato de “Meursault não conseguir ou não ter vontade de chorar no funeral da sua mãe”.

Sob estas diretrizes, não é sem sentido que sua obra filosófica e literária tenha o absurdo como estandarte, como bandeira militar, analogamente como no mar é a bandeira distintiva de um chefe de Estado que é arvorada no mastro principal de um navio. Grosso modo, seus livros testemunham as angústias e rancores de seu tempo e os dilemas e conflitos já observados por escritores que o precederam, tal como Kafka ou Dostoievski, por exemplo. Esta proximidade entre Camus e estes dois autores evidencia uma cadeia que se estende até os dias atuais, indica a fonte de um movimento heterogêneo – abrange arte, teatro, literatura, filosofia -, que por conveniência poderemos identificar como a “estética do absurdo”. Alguns ilustres filiados a este movimento cujo foco é o absurdo são eles: Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Albert Camus mudou-se para a França em 1939, pouco antes da invasão alemã. Mudou-se principalmente devido às polêmicas com as autoridades francesas na Argélia.

Por uma ironia do destino, nas notas ao texto ele escreve que aquele romance deveria terminar inacabado. Por coincidência, a sua mãe falece no mesmo ano que ele. Uma curiosidade sobre o acidente de automóvel: Camus não deveria ter feito a viagem para Paris de carro junto com os amigos Gallimard: Michel, Janine e a filha deles, Anne. Ele iria fazer esta viagem com o poeta René Char, de trem. Mas, por insistência de Michel, ele resolve ir de carro com eles. Char também foi convidado, mas não quis lotar o carro, além de já haver comprado sua passagem. Camus também já tinha seu bilhete de trem comprado quando foi convencido a ir de carro. No acidente de automóvel o Facel-Véga de Michel se espatifou contra uma árvore. Apenas Camus morreu na hora. Michel morreu no hospital 5 dias depois. O relógio do painel do carro parou no instante do acidente: 13: 55 horas. Enfim, eis aqui um pequeno fragmento de seu discurso à Academia sueca ao receber o prêmio Nobel: – “A tarefa do escritor, ao mesmo tempo, não se separa de deveres difíceis. Por definição, hoje, ele não pode colocar-se a serviço de quem faz a história: está a serviço daqueles que a sofrem” (“La tâche de l`écrivain, tout en n`étant pas séparé de fonctions difficiles. Par définition, aujourd`hui, il ne peut pas vous apporter de qui rend service de l`histoire: est au service de ceux qui souffrent”). Bibliografia geral consultada:

CAMUS, Albert, “A Noite da Verdade”. In: Revista Veja. São Paulo: Abril Cultural, fevereiro de 1945. Disponível em: http://veja.abril.com.br; Idem, La peste. Paris: Editor Gallimard, 1972; Idem, La chute. Editor Gallimard, 1972; DOSTOIÉVSKI, Fiódor, Os Irmãos Karamázov. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1962; GOLDMANN, Lucien, Per una Sociologia del Romanzo. Milão. Bompiani, 1967b; ARAÚJO, Pedro Zambarda de, “Jornalismo francês e Albert Camus”. In: http://www.albertcamus.com.br/2010/11/; BRAGA, Ubiracy de Souza, “45 anos d`A Batalha de Argel, 50 de Monsieur Frantz Fanon”. Disponível em: http://www.jornalgrandebahia.com.br/2011/05/; Idem, “Franz Kafka e a figura paterna em praga”. Disponível em: ; Idem,

“Hannah Arendt: No limiar entre a ética, a política e a rememoração”. Disponível em: http://cienciasocialceara.blogspot.com.br/2011/12/; Idem, “Outro Sartre: Amor, Cinema & Política”. In: http://estudosviquianos.blogspot.com.br/2012/09/; Idem, “Outro Nietzsche – Arte, Cinema e Palavras”. In: http://espacoacademico.wordpress.com/2014/06/04/; GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo, Acaso e Repetição em psicanálise: uma introdução à teoria das pulsões. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986; MARAM, Rita, Torture. The role of ideology in the French-Algerian war. New York: Prager Publishers, 1989; NEIBERG, Micahel S., The Second Battle of the Marne, 2008; DARRICADES, Georges-Michel, “Albert Camus, o absurdo e a rebeldia”. In: http://amaivos.uol.com.br/; EMIL, Cioran, Silogismos da Amargura. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2011; Idem, História e Utopia. Rio de Janeiro: Editora Rocco 2011; Idem, Nos Cumes do Desespero. São Paulo: Editora Hedra, 2012; entre outros.

*Ubiracy de Souza Braga é Sociólogo (UFF), cientista político (UFRJ), doutor em ciências junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), e professor Associado da Coordenação do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Ceará (UECE).| Contato: [email protected]

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