Neto do autoritarismo | Por Ernesto Marques

Ernesto Marques é jornalista. (Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Ernesto Marques é jornalista. (Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Ernesto Marques é jornalista.
Ernesto Marques é jornalista.

ACM reconquistara o governo pelo voto em 1990, depois da maior derrota da história política baiana em 1986, quando Waldir Pires se elegeu governador com mais de 1,5 milhão de votos de vantagem sobre Josaphat Marinho. Soube amplificar e perenizar um poder avassalador, a partir do seu primeiro “mandato” executivo, quando trocou alianças com os militares golpistas de 1964. E exerceu esse poder sem falsos pudores, com ou sem mandato.

Em qualquer tratativa, empresarial ou política, um item a considerar era a remota possibilidade de contrariar o “chefe”. Ainda hoje se sabe e não há quem conteste: contrariado, ele era implacável. Aos seus muitos e dedicados sabujos, castigos que iam da ostensiva indiferença a certos “carinhos”. Àqueles elevados à categoria de desafetos, a ira, com direito a temperos diversos, dependendo do freguês.

A forma como o atual prefeito e seus auxiliares reagiram ao posicionamento da OAB-BA na questão do IPTU traz recordações amargas, direto do túnel do tempo. As nossas mazelas do passado autoritário podem nutrir bons argumentos para a literatura, o cinema e todas as possibilidades de expressão artística. Mas devem servir, sobretudo, para nós, humanos, aprendermos que autoritarismo impõe atraso civilizatório.

A tentação autoritária não admite questionamento, e quem o faz vira alvo a ser abatido. Para agradar o príncipe, voluntariosos vassalos de sempre, acrescidos dos mais jovens, capricham na artilharia. É o que está a acontecer neste começo de 2014, com a Ordem dos Advogados do Brasil e o presidente da sua seccional baiana, Luiz Vianna Queiroz.

Denunciar os vícios de inconstitucionalidade do IPTU foi decisão do Conselho da OAB-BA, cabendo ao presidente dar encaminhamento processual e voz pública ao ato. O prefeito arvora-se plenipotenciário defensor dos interesses da cidade e dos mais pobres. Quem o questiona é rotulado de defensor de interesses escusos e dos ricos. Ou o IPTU é do jeito que está, ou a cidade quebra. Sob a lógica do autoritarismo que se reedita como boa prática para solução rápida dos problemas de Salvador, o raciocínio é de uma pobreza binária: ou está com Sua Excelência, ou está contra a cidade.

Incrível a frequência com que os fantasmas do nosso tenebroso passado político deram a nos visitar com um assombro absurdo procedendo outro. Dia desses, fui à 29ª. Vara Cível, no Fórum Rui Barbosa, acompanhar a audiência do incrível caso em que um acusado de tortura processa um torturado. O ex-tenente da PM e atual advogado e pastor, Átila Brandão, deixou o seu colega, defensor do jornalista Emiliano José, por ele processado, com a mão estendida. Negou-lhe o cumprimento protocolar e o acusou de “traição à classe”. Era o mesmo Luiz Viana Queiroz, fazendo jus à tradição democrática dos advogados que o antecederam na presidência da Ordem com estatura intelectual e profissional compatível com o espaldar daquela cadeira.

O ataque à OAB-BA e ao seu presidente inspira reação ponderada e firme de outras figuras públicas e instituições acreditadas pela nossa sociedade. O debate sobre o financiamento da cidade como bem a conhecemos não pode ser tão empobrecido por veleidades autoritárias perdidas no tempo. Salvador não merece isso.

*Ernesto Marques é jornalista.

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