“As rosas falam”. Oram, cantam e bailam em louvor ao Senhor | Por Juarez Duarte Bomfim

Artigo aborda poesia da letra da música ‘As rosas não falam’, do compositor carioca Cartola.
Artigo aborda poesia da letra da música ‘As rosas não falam’, do compositor carioca Cartola.

Há uma bela canção do cancioneiro nacional chamada “As rosas não falam”, do compositor carioca Cartola. Uma música romântica, sobre a perda da pessoa amada, na qual o individuo abandonado lamenta:

“Queixo-me às rosas

Mas que bobagem

As rosas não falam

Simplesmente as rosas exalam

O perfume que roubam de ti, ai”

Amigos insistiam com o cantor Roberto Carlos para ele gravar “As rosas não falam”. Roberto Carlos relutava e declarou o motivo:

— Eu falo com as rosas. Eu converso com as rosas e as rosas conversam comigo.

Quem tem olhos para ver, veja. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Não há nada nesse mundo que seja incapaz de sentir alegria ou tristeza, que não tenha coração.

Certa vez, Baghavan Sri Sathya Sai Baba escolhia saris (vestuário feminino) para presentear mulheres que ajudavam na construção da Universidade Sathya Sai em Anantapur (Índia). De um lote de cem saris ele separou noventa e seis e descartou quatro, para devolução ao fabricante.

Logo depois foi notado que a caixa de papelão que continha os quatro saris derramava lágrimas. Eram os saris lamentando que não conseguiram a aprovação de Swami e haviam sido declarados impróprios. “Sim! Eles haviam derramado lágrimas!” nos conta Sai Baba.

Milhares de anos antes, a ponte em direção a Sri Lanka estava sendo construída sobre os estreitos para que o Deus Rama e seus exércitos pudessem marchar rumo ao reino do rei-demônio Ravana, onde Sita estava enclausurada.

O exército de macacos de Rama, liderados pelo valoroso General Hanuman arrancavam montanhas e saltavam grandes distâncias no espaço com aqueles picos sobre os seus ombros, para que fossem lançados ao mar, criando uma passagem para Rama.

Os macacos haviam formado uma fila por todo o caminho, desde os Himalaias até o ponto mais ao sul, onde a ponte estava sendo erguida rapidamente. Quando a passarela estava terminada, espalhou-se rapidamente pela fila a notícia de que não eram necessárias mais montanhas, e cada macaco colocou no chão, onde estava, a montanha que tinha nos ombros naquele momento.

Uma montanha, dentre tantas, não se conformou. Ela começou a lamentar a sua sorte:

— Por que fui removida de onde estava e agora sou rejeitada? Puxa, estava tão feliz por ter sido destinada para servir um Proposito Divino; estava enlevada porque os exércitos de Rama e o próprio Rama iriam caminhar sobre mim. Agora, não estou nem lá, nem onde estava!

A montanha derramava lagrimas profusas. As noticias alcançaram Rama e sua compaixão foi enorme. Ele ordenou que em sua próxima encarnação como Avatar, quando viria novamente para desenvolver sua missão na forma humana, iria certamente abençoar a montanha entristecida.

Esta mesma montanha era o pico de Govardhana que Rama (como o garoto Krishna) ergueu em seu dedo durante sete dias inteiros, para salvar os rebanhos de Gokul do dilúvio que o deus Indra ousou infligir sobre eles.

Santo Agostinho, Doutor da Igreja, afirmava que as escrituras sagradas deveriam ser lidas duas vezes: a primeira leitura no sentido literal e histórico e a segunda no sentido moral e alegórico. Assim deve ser lida a Bíblia, assim deve ser lido o Mahabharata.

Nosso Senhor Jesus Cristo declarou:

— Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá, e há de passar.

A fé remove obstáculos. Este o sentido moral e alegórico da mensagem crística. Porém, há o sentido oculto, que o Mestre revelou através de seus milagres e prodígios — este o sentido literal e histórico. Com a força do pensamento, da vontade e do poder vibratório do Verbo Criador Om, qualquer palavra proferida com clara compreensão e concentração profunda terá valor materializante, ensina Yogananda. A fé remove montanhas.

Quem tem olhos para ver, veja. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Existe pulsação vital e permanente cognição em qualquer ser animado ou objeto inanimado. Há vida e cognição, sentimento e conhecimento nos reinos mineral, vegetal e animal.

Quem já visitou os sítios arqueológicos de Sacsayhuaman e Ollantaytambo em Cusco-Peru, se depara com o grande enigma de qual tecnologia propiciou o deslocamento das grandes pedras para a construção daqueles monumentos. Não há explicação plausível (verossímil) dentro do quadro da ciência positiva. Só através do sistema de conhecimento ao qual se dá o nome de extraordinário ou extrassensorial pode-se acessar esses mistérios.

Com a consciência expandida em concentração e meditação percebemos, vemos e ouvimos o fluxo de vida que brande por toda a parte. Percebemos vivas, sólidas e eternas guardiãs do meio-ambiente as grandes montanhas da Chapada Diamantina e a montanha Huayna Picchu, debruçada sobre a Cidade Sagrada de Machu Picchu.

O Deus Rama se deslocava pela antiga Bharata num artefato voador superior ao avião da atualidade. Sai Baba nos diz que tal aparato era movido pelo poder criador dos mantras proferidos.

Santo Antônio de Pádua predicava aos peixes. São Francisco de Assis se irmanava com os quatro mundos: mineral, vegetal, animal e hominal. Quando a barbárie da medicina medieval o impingia tratar do seu mal das vistas com fogo queimando suas têmporas, o Pobrezinho de Assis pedia ao “irmão fogo” que fosse suave consigo.

Nos habituamos a perceber inteligência e interação com os humanos nos animais domésticos, nos mamíferos como cães e gatos. Todavia, mesmo os animais mais primitivos na escala evolutiva têm inteligência e interagem conosco, às vezes por linguagens não verbais, intuitivas, telepáticas.

Os esquilos, animaizinhos frágeis, lamentavam não poder servir no exercito de Rama como guerreiros. Tal noticia chegou aos ouvidos de Rama que, compassivamente, colocou um esquilo no colo e o consolou, acariciando o seu dorso, com dois dos seus dedos. Deste ato surgiram as duas listras que marcam o dorso daqueles pequenos animais.

As rosas falam. O reino vegetal é pleno de vida. Perceba a folha da bananeira lhe saudando, ao passar. Compreenda que quando uma folha, galho, ramo ou a árvore inteira dança embalada pela brisa marinha não é apenas a ação do vento sobre si. É também sua vontade manifesta, mesmo que não haja nenhuma corrente de ar que a impulsione naquele momento.

As flores e folhas a todo momento agradecem ao Criador a sua existência, em permanente louvor. São manifestações Dele. Elas são o Próprio Criador Imanente. Que também as transcende.

Pergunta: para que adentrar esses mistérios? Qual a finalidade deste conhecimento?

São infindas as respostas: A compreensão que somos todos um. Deus está em tudo e em todos. Para maior responsabilidade do ser humano com a natureza e o seu próximo. E lembrarmos que fazemos parte dessa rede cósmica que é a nossa morada e morada do pai Celeste.

Quem tem olhos para ver, veja. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. E o coração para responder.

E nada vos será impossível.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]