Por cima do meu cadáver!

Chamou-me a atenção uma fotografia do desfile do 2 de Julho de décadas passadas, com seus carros alegóricos invocando cenas da Independência da Bahia
Chamou-me a atenção uma fotografia do desfile do 2 de Julho de décadas passadas, com seus carros alegóricos invocando cenas da Independência da Bahia
Chamou-me a atenção uma fotografia do desfile do 2 de Julho de décadas passadas, com seus carros alegóricos invocando cenas da Independência da Bahia
Chamou-me a atenção uma fotografia do desfile do 2 de Julho de décadas passadas, com seus carros alegóricos invocando cenas da Independência da Bahia

Lendo o as memórias urbanas de Isaias Carvalho Neto, e as inúmeras fotografias que acompanham o excelente livro, me vem também à lembrança flashes da minha infância e mocidade. Chamou-me a atenção uma fotografia do desfile do 2 de Julho de décadas passadas, com seus carros alegóricos invocando cenas da Independência da Bahia.

Meu pai, seu Vavá, levava a família — esposa e filhos — para assistir a “parada” nas tardes do feriado local, instalados na calçada da Avenida 7 de Setembro. Criança tímida e ensimesmada, à época logo me entediava com tudo que não fosse letra impressa (revistas em quadrinho, livros infanto-juvenis, jornais e revistas) e resignadamente atravessava a extraordinária tarde como mais uma obrigação familiar a cumprir. Só despertava e me interessava na hora da partilha das guloseimas da tarde: pipoca, biscoitos, picolé, pirulito, balas etc.

Porém, anualmente uma repetitiva cena me surpreendia, comovia e espantava: a dramatização do martírio de Soror Joana Angélica, Mártir da Independência da Bahia, num destes carros alegóricos tipo escola de samba carnavalesca.

Resumidamente traçarei a biografia da heroína baiana: Joana Angélica nasceu em Salvador. Em 21 de abril de 1782, entra para o noviciado no Convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa, na capital baiana. Ali foi escrivã, mestra de noviças, conselheira, vigária e, finalmente, abadessa.

Ocupava a direção do Convento, em fevereiro de 1822, quando a cidade ardia de agitação contra as tropas portuguesas do Brigadeiro Inácio Madeira de Melo — que tinham vindo para Salvador desde o “Dia do Fico” daquele que viria a ser D. Pedro I.

Grande resistência opunham os nativos baianos: no ano anterior (1821) a cidade já tinha sido palco de revoltas. A posse de Madeira de Melo tinha sido obstada, em 18 de fevereiro, mas a superioridade das forças do Brigadeiro impingiram a derrota dos nativos.

Soldados e marinheiros portugueses se embriagavam e cometiam excessos pela cidade, comemorando e, a pretexto de perseguir eventuais “revoltosos” atacavam casas particulares e, em sanha desenfreada, tentam invadir o Convento da Lapa.

Sólida construção colonial, ainda hoje existente na Capital Baiana, o Convento da Lapa compõe-se de uma clausura, cuja principal entrada é guarnecida por um portão de ferro.

Os gritos da soldadesca são ouvidos no interior. Imediatamente a Abadessa, pressentindo certamente objetivos da profanação da castidade de suas internas, ordena que as internas fujam pelo quintal.

O portão é derrubado e, num gesto heroico, Joana Angélica abre a segunda porta, postando-se como último empecilho à abusiva invasão.

Abrindo os braços, num gesto comovente, tenta impedir que os invasores passem, exclamando:

— Para trás, bandidos. Respeitem a Casa de Deus. Recuai, só penetrareis nesta Casa passando por sobre o meu cadáver.

A soldadesca engalanada, em cima do carro alegórico, com as baionetas em riste, se entreolha e, como se dissessem “não seja por isso”… espetam cruelmente a indefesa freirinha.

Após o assassinato a golpes de baioneta, penetrando no sagrado recinto, os truculentos soldados encontram apenas o velho capelão, Padre Daniel da Silva Lisboa — a quem espancam a golpes de coronhas, deixando-o como morto.

Joana Angélica tornou-se, assim, a primeira mártir da grande luta que continuaria, até a definitiva libertação da Bahia, no ano seguinte, a 2 de julho de 1823, data efetiva da Independência da Bahia.

Me escandalizava o assassinato frio e cruel daquela frágil freira, por jovens atores magricelos, dublês de truculentos soldadinhos. A cena me entristecia. Porém, o mais surpreendente é que, cerca de 20 metros adiante, magicamente Joana Angélica levantava ressurrecta, se colocava de novo à entrada do barroco portão, e a teatralização se repetia.

Nesta época, eu ainda não refletia sobre o mistério da paixão e morte do Salvador, e o sagrado prodígio da sua ressurreição… Entretanto, via a freira heroína morrer novamente, para ressuscitar mais adiante.

São cenas que não voltam mais… Porém, gravadas no coração e mente daquele que a viu e viveu.

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Sobre Juarez Duarte Bomfim 747 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.