Ex-presidente da Câmara de Feira de Santana e diretor da empresa Moradda, Everton Cerqueira comenta sobre participação na venda de lotes no Parque Lagoa do Subaé

Everton Pereira de Cerqueira.
Everton Pereira de Cerqueira.

O Jornal Grande Bahia entrevista o ex-presidente da Câmara Municipal de Feira de Santana e diretor da empresa Morada Empreendimentos Everton Pereira de Cerqueira, sobre a participação na venda de lotes sem urbanização (rede de água, saneamento básico, pavimentação, energia elétrica), no Parque Lagoa do Subaé. A partir de uma associação entre a Moradda Empreendimentos e João Falcão urbanizadora, que conta com a direção do empresário e também ex-vereador Wilson Falcão, novos lotes passaram a ser comercializados.

Jornal Grande Bahia – Qual a sua participação na venda de lotes do Parque Lagoa do Subaé?

Everton Cerqueira – Esse loteamento já deve ter mais de 30 anos. Ele foi aprovado, na época, no governo do prefeito Colbert Martins. O pai do Wilson, na época, disse que tinha alguns lotes restantes sem vender, e nós fizemos um contrato de venda desse lotes restante. Então nós vendemos.

JGB – E você entrou como sócio em que momento?

Everton Cerqueira – Agora, há dois anos atrás. Nós fizemos um contato para vender alguns lotes restantes.

JGB – Você sabe dizer quantos lotes são ao todo?

Everton Cerqueira – Se não me engano são 100, mais ou menos.

JGB – O Wilson Falcão me falou que em torno de dois mil lotes.

Everton Cerqueira – Deve ser justamente isso.

JGB – Então sua responsabilidade então nessa parceria seria a venda desses dois mil lotes?

Everton Cerqueira – 100 lotes mais ou menos.

JGB – De quem é a responsabilidade pelo empreendimento?

Everton Cerqueira – Pela venda. Até hoje o terreno é da família [Falcão]. Nós entramos com a parte de venda de 100 lotes, que estavam sem vender. Os lotes que fizemos nós recolocamos meio fios, abrimos ruas, e colocamos energia. Porque tinha um problema com o meio ambiente, de aprovação. Então, os lotes que eram perto da lagoa, eu mesmo assumi, fui até o secretário do meio ambiente e cheguei lá, separamos alguns lotes perto da lagoa.

JGB – O que você chama de perto, quantos metros?

Everton Cerqueira – Deve ser uns 100 metros da lagoa, então todos esses lotes nós não vendemos. Nós entregamos na época [a Prefeitura de Feira de Santana], o secretário era Antônio Carlos Coelho, e nós entregamos. Inclusive a secretaria, saiu plantando árvores.

JGB – Vocês preservaram cerca de 100 metros da lagoa?

Everton Cerqueira – Isso, em volta perto da lagoa, então esse lote todo era um loteamento aprovado e mesmo assim nós não vendemos. Porque o meio ambiente veio aparecer depois da venda do loteamento. Então todo lote que tiver perto da lagoa, são invasões, e isso inclusive, nós falamos com Roberto Tourinho que é o atual secretário, pedindo a ele que procurasse uma forma de botar para fora, e que tirasse essas casas que estavam sendo feitas perto da lagoa. O secretário pediu para nós tirarmos alguns retratos, da área invadida e passar para ele, para assim ele tomar providência.

JGB – Ainda não ficou claro para mim a sua associação com Wilson Falcão nesse negócio? Porque vocês se tornaram sócios, qual foi a necessidade dessa sociedade?

Everton Cerqueira – Nós não somos sócios. O terreno é da família dele, Falcão. Nós só pegamos a venda de alguns lotes. E essa venda que nós fizemos abrimos meio-fio, abrimos ruas.

JGB – Nos loteamentos que vocês venderam, os 100 remanescentes, que é objeto de uma a parceria entre Moradda Empreendimentos e Wilson Falcão, na hora que vocês foram vender, disponibilizaram rede de água, de energia, rede de esgotamento, as vias com acesso devido, pavimentado, vias principais, vias vicinais, vocês objetivamente fizeram isto?

Everton Cerqueira – Pavimentação em nenhum loteamento existe, não é obrigado a fazer. A única coisa que nós fizemos foi o meio-fio, abrimos todas as ruas, e colocamos energia onde a Coelba só colocava na época, onde já tinha casas.

JGB – Mas nem todos os lotes foram contemplados?

Everton Cerqueira – Não.

JGB – E água encanada?

Everton Cerqueira – Água encanada hoje que existe, antes a água era colocada pelo estado.

JGB – Então foram lotes vendidos que não tinha nenhuma infraestrutura, que possibilitasse a habitação? Você viveria sem água, sem energia elétrica?

Everton Cerqueira – Mas nós colocamos energia elétrica. Não colocamos em todas mas colocamos.

JGB – Então o senhor reconhece que algumas não tinham?

Everton Cerqueira – Quando nós vendemos esses lotes todos, a Coelba, não estava colocando energia até que fosse definido o problema da área do meio ambiente, quando foi em fim definida, a Coelba não instala a energia sem que ainda exista a casa, então só não tem energia aonde não tinha casas.

JGB – Essa nova etapa de venda, na conversa com Wilson Falcão, ele me disse que foi autorizada a venda dos lotes recentemente pelo governo municipal. Isso está correto?

Everton Cerqueira – É correto.

JGB – Eu tive a oportunidade de sobrevoar aquela área, por várias vezes, inclusive recentemente. E eu vi a outra margem da lagoa sendo desmatada, as informações que eu colhi, no local, diz que seria a segunda etapa do loteamento?

Everton Cerqueira – Se esta desmatada não é nossa. Não é da segunda etapa que é pretensão nossa fazer. Nós não fizemos nada ainda. Ali é de Wilson Paes Cardoso.

JGB – Nessa perspectiva, o loteamento é uma área extremamente alagadiça que está entre duas lagoas?

Everton Cerqueira – Não. Nós não chegamos até a outra lagoa, o loteamento não atinge a nenhuma outra lagoa. Aquele terreno que passa da lagoa, uma parte ainda é do loteamento e a outra área como já disse é de Wilson Paes Cardoso.

JGB – Você não tem responsabilidade sobre isso, como você já falou, mas o que causa assim certa estranheza eu não vi pavimentação, eu vi terrenos totalmente acidentados, e o que é pior, eu vi pessoas, em uma condição econômica social extremamente vulnerável, que precisam de um apoio do estado. Como você analisa este cenário? E se você vai com frequência ao loteamento? Inclusive nos foi relatado que as pessoas adquirem doenças em função do nível de contaminação da lagoa, vários tipos de problemas de saúde são ocasionados por estar próximo da lagoa. Como é que você percebe a situação?

Everton Cerqueira – Para você ter ideia, aquilo ali é um loteamento popular. Quem compra geralmente é com a prestação de R$ 80,00 ou R$100, são pessoas que não tem condições de ficar numa área cara, isso eu lhe garanto. Ninguém está dentro da lagoa, está a mais de 100 metros. E quando está no período de chuva, realmente o mato sobe. Mas, não passa ônibus em lugar nenhum.

JGB – O que é pior é que nem no futuro vai passar porque as ruas são extremamente estreitas.

Everton Cerqueira – Isso de jeito nenhum. Todas as ruas são de sete metros.

JGB – Vocês não fizeram a via principal de acesso?

Everton Cerqueira – Tem a rua, a principal é a do município. O loteamento tem ruas, pode ter matos nas ruas, mas todas com sete metros de largura. Caso contrário a prefeitura não aprova.

JGB – Ocorre que a condição de trafegabilidade é horrível.

Everton Cerqueira – Realmente a vegetação cresce.

JGB – Você confirma que não existe nenhuma morada próxima da lagoa?

Everton Cerqueira – Vendido pela empresa não, todas que tiverem lá são invasões.

JGB – E os loteamentos que lá foram vendidos tinham todos os serviços, água, luz?

Everton Cerqueira – Não, não tinha água, nem esgoto que não era obrigado. Inclusive esgoto só quem coloca é o estado. A única coisa que é exigida hoje é água e energia.

JGB – Mesmo assim alguns não têm?

Everton Cerqueira – Alguns não têm porque justamente, o loteamento tem mais de 20 anos e nós não temos hoje nenhuma obrigação hoje em fazer, não existia o que existe hoje. Eu tenho um loteamento ali no tomba já chegando no bairro Feira X, e nós estamos colocando energia e estamos colocando agora água. E a pavimentação só prefeitura, a não ser condomínio, em que se é obrigado a fazer.

JGB – Nós lhe agradecemos pela entrevista, e se quiser acrescentar mais alguma informação,  algum dado. Ficou claro que a sua responsabilidade é com a comercialização, e a responsabilidade efetiva é de Wilson Falcão, da Urbanizadora João Falcão.

Everton Cerqueira – Que na época que foi feito loteamento não era exigido nada disso. Hoje, quando nós vendemos é tudo dentro da normal. Quando a pessoa começa a pagar o IPTU a responsabilidade é da prefeitura.

JGB – Você atribui o problema a prefeitura?

Everton Cerqueira – É da prefeitura.

Confira o áudio da entrevista

Carlos Augusto entrevista Everton Pereira de Cerqueira.

Everton Cerqueira atribui a responsabilidade pelos problemas a prefeitura de Feira de Santana e as concessionárias públicas de serviços. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Everton Cerqueira atribui a responsabilidade pelos problemas a prefeitura de Feira de Santana e as concessionárias públicas de serviços. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Valdilene Bispo mora a poucos metros da Lagoa do Subaé. Nas mãos, o contrato de compra que tem como vendedores o Consórcio Moradda/Falcão, de Everto Cerqueira e Wilson Falcão. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Valdilene Bispo mora a poucos metros da Lagoa do Subaé. Nas mãos, o contrato de compra que tem como vendedores o Consórcio Moradda/Falcão, de Everto Cerqueira e Wilson Falcão. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Ruas do Loteamento Parque Lagoa do Subaé estão intransitáveis.
Ruas do Loteamento Parque Lagoa do Subaé estão intransitáveis.
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Sobre Carlos Augusto 9616 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).