Apresentados ao pecado na sagrada cidade de Rishikesh

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rishikesh-ganga-ghat Depois de 20 dias dentro do Ashram (mosteiro) indiano, passados em meditação e contemplação mística, saímos em excursão turística pelo norte da Índia. Éramos um grupo de 25 brasileiros — apenas sete homens.

O período passado entre orações e cânticos era de total separação por gênero, e o vestuário feminino — uma profusão de sáris e punjabis coloridos — não permitia antever um palmo sequer de corpo feminino.

Qual não foi a surpresa ao, logo na chegada a Nova Delhi, formosa nordestina do grupo de excursionistas brasileiros, insinuante na sua indumentária provocativa, coladinha ao corpo, passear rebolante sob os olhares admirados dos mancebos do grupo… Dessa maneira, fomos reintroduzidos ao pecado dos pensamentos luxuriosos.

Ao vê-la passar, rebolativa, poderia cantarolar como o poetinha carioca: “olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é essa menina, que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar…”

Todavia, o que me vinha à memória eram os cantares do sábio Rei Salomão: “eu te comparo, oh mulher, as éguas dos carros do Faraó” (Cantares 1:9), talvez devido a visão traseira de voluptuosa dama.

Apesar de entrada em idades, Lindaura Maria — este o nome da nossa heroína — conservava o frescor da juventude. Por ser alagoana lembrava imediatamente um outro doce pecado da Praia de Pajussara, bela senhora que abalou os alicerces da combalida República pelos idos dos 1990, num imbróglio familiar de paixões, ciúmes e canalhices de líder político caído em desgraça, acusado de dar em cima da própria cunhada.

Bem… o trem de turistas da terra de Pindorama partiu de Nova Delhi a caminho de Haridwar (Norte da Índia) para a maior das aventuras desta movimentada excursão: íamos em direção a Rishikeshi, margens do Rio Ganges, o lugar mais louco do Planeta que conheci até agora.

Chegamos a Rishikeshi após um tour por montanhas e florestas. Sim, existem florestas na Índia, apesar dos seus mais de um 1,2 bilhões de habitantes. Florestas povoadas de macacos, assim como as ruas das grandes metrópoles. A Índia surpreende…

Era o dia da graça de 15 de julho de 2009, início das comemorações ao deus Shiva, no rio Ganges, num festival que duraria um mês inteiro e só acontece a cada seis anos.

De diversas partes da Índia grupos de homens e raríssimas mulheres saiam em peregrinação à cidade sagrada de Rishikeshi, geralmente a pé, trajando sumário vestuário de cor laranja e carregando aos ombros oferendas à divindade. Ainda na saída da cidade de Nova Delhi encontramos à beira da estrada numerosos grupos de peregrinos, que tardariam uma semana ou mais de deslocamento ao recanto místico.

Já na surpreendente cidade de Rishikeshi, saímos a passeio pelas ruas que margeiam o Ganges, cruzamos o rio de barco e, ao entardecer, participamos de majestoso ritual denominado Ganga Arathi.

O Arathi é um ritual hindu de queima de cânfora, diante de uma imagem divina, acompanhado de cantos sagrados, os bajhans. Como o próprio rio Ganges é considerado sagrado, a imagem divina ali se manifesta.

Todavia, neste ano de 2009, gigantesca e bela estátua do deus Shiva foi inaugurada sobre uma passarela nas correntezas do Ganges, enriquecendo ainda mais o esplendoroso ritual.

Chamava a atenção durante os breves dias que passamos naquela intrigante cidade, o vai-e-vem dos devotos peregrinos da localidade. Aqueles grupos de jovens rapazes passavam os dias pra lá e pra cá, se banhando no Ganges e em brincadeiras juvenis.

Os que tinham algumas rupias (moeda indiana) se alimentavam nas muitas barraquinhas de comida montadas para tal fim. Os que aparentavam total carência, o que comiam? Defecavam e urinavam em qualquer lugar onde surgisse a necessidade; dormiam ao relento, no lugar onde a noite os alcançava.

Sociologicamente, me indagava: quem são eles? Têm famílias? Alguma atividade de trabalho? De estudo? De qual região da Índia se deslocaram? Alguns que tentavam travar diálogo com este que vos escreve eram impedidos pela intransponível (infelizmente…) barreira linguística.

Ah e não podemos esquecer de um peculiar componente da paisagem indiana: os sadhus, com suas pinturas exóticas, suas vestes simples, suas figuras extravagantes. Frente a um sadhu nunca sabemos se estamos em face de um santo ou um mero vagabundo. O forte olor de cannabis indica denunciava a pouca santidade de alguns.

O purificador banho dos excursionistas nas águas geladas do Ganges ficou para a manhã do dia seguinte, e foi aí que tudo aconteceu…

Numerosa plateia se reuniu para observar o banho das brasileiras… Não. Aqueles jovens rapazes se amontoaram para contemplar o banho sensual de uma só brasileira… Tinham olhares para uma só brasileira: a nossa heroína, Lindaura Maria.

Da Praia de Pajussara ao banho no Rio Ganges, provocando grande furor. Esta foi a façanha da formosa alagoana Lindaura Maria, compartilhada involuntariamente por todos os brasileiros daquela excursão à cidade sagrada de Rishikeshi, norte da Índia.

A exuberância de tão vistosa manceba lhe proporcionava o poder de escolha. E ela fixou o olhar, qual rija flecha, no mais garboso dos mancebos do grupo. Era o jovem rapagão Tadeu Romeu. Belo, alto, loiro, rico, bem empregado, paulistano morador da zona nobre, o genro que mamãe pediu a Deus.

O apolíneo Tadeu Romeu, que mais se assemelhava a um astro de Bollywood — a poderosa indústria cinematográfica indiana — caminhando garbosamente pelos espetaculares monumentos indianos, como o Taj Mahal, rompia o milenar recato das mulheres indianas, que lhe dirigiam furtivos olhares, apesar da rígida vigilância de pais, maridos e irmãos.

Todavia, era preciso fisgar promissor mancebo. A começar pela indumentária. E a Lindaura Maria desfilava suas sinuosas curvas e generosos decotes pelas margens do sagrado Rio Ganges, arrastando atrás de si uma multidão.

Uma multidão composta de jovens rapazes, quase meninos, peregrinos religiosos ao Ganges. Andavam em bandos e passavam o dia pra lá e pra cá, andando de um lado a outro, em busca de entretenimento. Matavam o tempo em brincadeiras pueris e banhos de imersão nas águas geladas do Ganges.

A visão de uma bela mulher ocidental, com o corpo à mostra, era motivo de observação minuciosa. Se reuniam em volta da gostosa do grupo, ops, digo da formosa do grupo como enxame de abelhas em torno da taça de mel.

Mas não transmitiam no semblante olhar de lubricidade, concupiscência ou lascívia, como é mister em locais de turismo sexual como Bahia e Cuba. Não olhavam para a formosa Lindaura Maria com expressão de cobiça luxuriosa…

Recordavam sim o primeiro homem, Adão, curioso e atônito por conhecer o que existia por baixo da folha de parreira da tentadora Eva — a responsável pela queda do homem.

Dessa maneira, pela voluptuosidade da bela Lindaura, aqueles jovens e ingênuos peregrinos indianos eram apresentados ao pecado da carne, da luxúria, que não os libertaria da roda de samsara — os ciclos reencarnatórios de nascimento e morte.

Pois é, o doce veneno das Alagoas, Lindaura Maria, no afã de seduzir um único homem do planeta, acabara de apaixonar (quase) 700 milhões de indianos…

Entretanto, aquela curiosa turba admirando, observando a esplêndida Lindaura não transmitia ameaça, a princípio. O ordeiro e não violento povo indiano surpreende pelo seu pacifismo. Inclusive nos divertíamos com a insólita situação:

— Lindaura Maria, você se elegeria facilmente Miss Rishikeshi 2009!

Porém, a cada vez mais numerosa plateia ali reunida, que continuava a aumentar, passou a preocupar a todos. Inclusive as autoridades policiais, que dispersavam a turba ignara.

Agressão por parte daqueles pacíficos rapazes não houve. Todavia, o limite para a continuidade daquela excepcional situação foi quando um pequeno grupo deles se adiantou e pediu para a garbosa Lindaura posar para uma fotografia, após sair gloriosa do purificador banho no Ganges. Talvez a busca da comprovação, na volta para suas vilas e aldeias, de que existem sim mulheres dadivosas como aquela.

A recusa da tentadora alagoana em posar para os quase meninos os forçou a tentar tocá-la, a posicionando para o foco da máquina. Erigido em cavalheiro defensor da integridade da manceba, Tadeu Romeu a retirou do constrangedor cenário a empurrando levemente para um dos inúmeros templos ali existentes, às margens do Rio Ganges.

Os guias turísticos da excursão, capitaneados pelo indefectível Sanju, se erigiram a partir de então em escolta pessoal da tentadora turista, que revolucionara a cidade sagrada de Rishikeshi.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]