A Cidade Global: os pressupostos da memória, da cultura e do capital | Por Juarez Duarte Bomfim

Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana.(UEFS).
Cartaz anuncia o IX Encontro de estudos Multidisciplinares em Cultura (IX ENECULT).
Cartaz anuncia o IX Encontro de estudos Multidisciplinares em Cultura (IX ENECULT).

Aconteceu em Salvador – Bahia, de 11 a 13 de setembro de 2013, o IX Encontro de estudos Multidisciplinares em Cultura – IX ENECULT. Este que vos escreve participou da MESA COORDENADA: CULTURA URBANA, MEMÓRIA E PATRIMÔNIO, organizada pelo Prof. Dr. Francisco Antônio Zorzo (UFBA) e com a apresentação de trabalhos do Prof. Ms. Mário Pragmácio Telles (UFF) e do Prof. Dr. Juarez Duarte Bomfim (UEFS)

O objetivo da mesa coordenada foi promover uma reflexão a respeito da cidade, da cultura e da memória urbana. A proposta da mesa coordenada se baseia nos propósitos de trabalho conjunto um grupo de pesquisadores de instituições superiores brasileiras, que vem se reunindo desde o ENECULT de 2011. Tais desígnios visam estabelecer laços conceituais e de investigação empírica entre diversas abordagens teóricas da cidade e da sua representação. A mesa reuniu três comunicações que tratam de temas significativos dentro da temática da memória da cidade, das políticas culturais e do direito ao patrimônio urbano. São retratados e relacionados, através dos estudos dos integrantes da mesa, os processos de mercantilização da cidade, a emergência de direitos ligados ao patrimônio e as formas de produção da cultura na era da globalização.

A seguir, o Artigo de Juarez Duarte Bomfim.

A CIDADE GLOBAL: OS PRESSUPOSTOS DA MEMÓRIA, DA CULTURA E DO CAPITAL

Por Juarez Duarte Bomfim

Resumo

A cidade global que se torna realidade nesse início do século XXI é a que se produz como condição e resultado da globalização do capitalismo. O que a singulariza é o seu patrimônio histórico, que se constitui em um elemento diferenciador e facilita a identificação cultural. Todavia, o processo de mercantilização do patrimônio e a gestão mercantilista da cidade são preocupantes. A cidade assume várias funções no mundo, ressignifica outras, reexperimenta novas funções. Continua a ser um objeto ainda não totalmente decifrado, enigmático. Na era da globalização, além de constituir-se no lugar privilegiado para a produção de mercadorias, torna-se, em si, também uma mercadoria especial. A cultura deve ser entendida como recurso estratégico e pilar fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas e ações da sociedade civil organizada.

Palavras-chave: Cidade Global, patrimônio histórico, cultura.

Resumen

La ciudad global que se convierte en una realidad a principios del siglo XXI es la que se produce como condición y resultado de la globalización del capitalismo. Lo que la distingue es su patrimonio histórico, que se constituye un elemento diferenciador y facilita la identificación cultural. Sin embargo, el proceso de mercantilización del patrimonio y la gestión mercantilista de la ciudad es preocupante. La ciudad adquiere múltiples funciones en el mundo, replantea otras y reexperimenta nuevas funciones. Sigue siendo un objeto aún no totalmente descifrado, enigmático. En la era de la globalización, además de constituirse en lugar privilegiado para la producción de bienes, es en sí misma también una mercancía especial. La cultura debe ser entendida como un recurso estratégico y fundamental para el desarrollo de las políticas públicas y de las acciones de la sociedad civil organizada.

Palabras clave: Ciudad Global, patrimonio histórico, cultura.

Introdução

Ao final do século XVIII os europeus começaram a conceber o passado como um domínio diferente, com histórias e personalidades únicas — como se o passado fosse um distante e estranho país (LOWENTAL, 1998). Este novo passado deixou pouco a pouco de proporcionar lições comparativas, mas começou a ser apreciado como herança que dava validez ao presente e o exaltava. O novo papel intensificou o interesse por salvar relíquias e restaurar monumentos como emblemas da identidade, da continuidade e das aspirações comunitárias.

No século XIX a conservação do passado passa a converter-se em um conjunto de programas nacionais; mas é só no século XX que se desenvolvem ações para que cada país busque assegurar sua própria herança contra o espólio e a deterioração patrimonial.

Por que necessitamos do passado? Para que o queremos? Pergunta David Lowental (1998). As reações frente ao passado são amiúde ambíguas. As declarações explícitas de admiração ou desdém ocultam os seus contrários. A reverência pela tradição sublinha a iconoclastia destrutiva. A nostalgia retrospectiva coexiste com o modernismo impaciente. Sob essa tensão permanente são realizadas as políticas de conservação, assim como os benefícios que proporciona o passado, os efeitos para o tempo presente e as rivalidades entre o velho e o novo.

Com essa nova ideologia o passado passa a dar validez às atitudes e ações do presente, afirmando sua semelhança com as anteriores. O uso prévio sela com aprovação o que se faz hoje. O precedente histórico legitima as iniciativas atuais.

O passado dá validez ao presente de duas formas: conservando e restaurando. O objetivo último da preservação e da reabilitação do patrimônio histórico é a manutenção e potencialização de quadros e referências necessários à expressão e consolidação da cidadania. Nesta perspectiva de reapropriação política do território urbano pelo cidadão é que a preservação incrementa a qualidade de vida.

O patrimônio histórico dessa forma se constitui em um elemento diferenciador, porque ao longo de séculos vai modelando um traçado urbano, quer dizer, uma relação equilibrada entre os espaços construídos e os espaços abertos; vai criando uma morfologia, edificações, um tipo de construção que facilita a identificação cultural. Esta é a grande riqueza e o enorme potencial do patrimônio histórico. É o que o faz exclusivo. Não se pode imitar. Só se pode conseguir com história (SANTA OLALLA, 2000).

A nova economia global está articulada territorialmente em torno a redes de cidades, o que provoca a necessidade de contar com uma gestão urbana capaz de situar cada cidade em condições de concorrer com êxito na competição internacional, posto que dela dependerá o bem estar dos cidadãos.

O processo de mercantilização do patrimônio e a gestão mercantilista da cidade são preocupantes e consideradas perigosas. “Vender cidade” passa a ser a palavra de ordem. Fala-se da economia do patrimônio, isto é, o patrimônio como negócio, com o intuito de criar novos mercados fluorescentes de turismo — chamado cultural — cada vez mais expansivo, e o patrimônio histórico torna-se um recurso fundamental da cidade. A experiência acumulada sobre a recuperação, conservação, reabilitação e desfrute do patrimônio histórico tem demonstrado que os investimentos em patrimônio cultural são rentáveis e que a cultura é uma fonte de riqueza, geradora de emprego e capaz de aportar um aumento significativo ao Produto Interno Bruto.

É importante também assinalar que o patrimônio é considerado o único elemento eficaz para a superação dos limites políticos e de fronteiras, e que consegue identificar a sociedade (SANTA OLALLA, 2000).

Patrimônios da Humanidade

Verificando que o patrimônio cultural e o patrimônio natural estão cada vez mais ameaçados de destruição, não somente por causas tradicionais de degradação, mas também pela evolução da vida social e econômica, que se agrava com fenômenos de alteração ou de destruição ainda mais temíveis; considerando que a degradação ou o desaparecimento de um bem do patrimônio cultural e natural constitui um empobrecimento nefasto do patrimônio de todos os povos do mundo; considerando que a proteção desse patrimônio em escala nacional é frequentemente incompleta; considerando que os bens do patrimônio cultural e natural apresentam um interesse excepcional e, portanto, devem ser preservados como elementos do patrimônio mundial de toda a humanidade, a Conferência Geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), reunida em Paris, 1972, aprovou a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural. Isto quer dizer que os bens do patrimônio cultural e natural dos países signatários desta Convenção poderão obter da Unesco a condição de Patrimônio da Humanidade, ou seja, ser incluídos na Lista do Patrimônio Mundial.

Cada um dos Estados participantes nesta convenção reconhece que a obrigação de identificar, proteger, conservar, valorizar e transmitir às futuras gerações o patrimônio cultural e natural situado no seu território lhes é incumbido. Promete tentar tudo fazer para este fim, utilizando seus recursos disponíveis e, quando for o caso, mediante a assistência e cooperação internacional de que possam beneficiar-se, notadamente nos planos financeiro, artístico, cientifico e técnico (ORGANIZACIÓN de las Ciudades del Patrimonio Mundial, 2006).

Hoje em dia, as cidades rivalizam entre si para conseguirem a declaração de patrimônio cultural por parte da Unesco, dado que se considera que a declaração servirá para aumentar o turismo e atrair atividades econômicas.

Os pressupostos da memória, da cultura e do capital

Como consequência do conflito que rege a nova dinâmica da economia mundial, todas as cidades tratam de conseguir transmitir sua imagem mais positiva e, neste intento, o patrimônio cultural tem-se manifestado como um dos fatores de qualidade mais indiscutíveis desde o ponto de vista internacional, sobretudo se estiver inscrito na Lista do Patrimônio Mundial.

Estar incluído na lista de Patrimônio da Humanidade se torna o máximo desejo dos governos, posto que encontrar-se incluído nessa lista supõe ocupar um lugar destacado no mundo. Não é de se estranhar, porque as cidades que são patrimônio mundial são destinos altamente demandados pela indústria turística, que se constitui em um dos setores mais importante da economia mundial.

A cultura passa a ser entendida como recurso estratégico e pilar fundamental para desenvolver políticas públicas, e se inicia um processo de procura dos bens de que se dispõe, para poder “vendê-los”. Entretanto, os governos que desejam unicamente ter o título de Patrimônio da Humanidade para obter vantagens econômicas e aumentar o turismo, podem frustrar-se a curto prazo, pois mais que um título de prestígio e de glória, o que adquire é um compromisso e uma obrigação.

A cidade da era da globalização depende da sua capacidade de produzir acontecimentos que tentam seduzir e atrair visitantes, fazer que prolonguem sua estadia no lugar de visita e que voltem, para o êxito econômico da atividade turística local. Desenvolvimento cultural sustentável é o objetivo a ser alcançado.

A Cidade Global

No topo de uma possível hierarquia de cidades pode-se encontrar um pequeno número de densas regiões urbanas a que se pode chamar de cidades globais. Fortemente ligadas entre si, por meios decisórios e finanças, elas constituem um sistema mundial de controle da produção e da expansão do mercado. Essas cidades mundiais rapidamente reestruturam as suas funções de controle global, bem como a divisão do trabalho espacial interno, para responder a presente reestruturação da economia mundial (IANNI, 2001).

A cidade global que se torna realidade nesse início do século XXI é a que se produz como condição e resultado da globalização do capitalismo. Torna-se uma realidade propriamente global na época em que o capitalismo, visto como processo civilizatório, invade, conquista, assimila, desafia, recobre, convive, acomoda-se ou mesmo recria as mais diversas formas de vida e trabalho, em todos os cantos do mundo (IANNI, 2001). É um processo histórico de amplas proporções que já se desenvolvia irregularmente com o mercantilismo, colonialismo e imperialismo e que alcança magnitude e generalidade excepcionais na contemporaneidade. Essa é a configuração histórica e geográfica em que surge a cidade global, quando muitas cidades são recriadas nos horizontes da globalização.

Nessas grandes cidades, de periferias e zonas suburbanas espraiadas, a complexidade social e econômica, os elementos extraterritoriais e o multiculturalismo, faz muito difíceis reconhecer significados através da estrutura físico-visual do espaço urbano. Ao percorrer qualquer metrópole de hoje, tem-se a impressão de estar em várias cidades ao mesmo tempo: a cidade dos imigrantes, a dos migrantes internos, a cidade dos negócios, a cidade da antiga atividade industrial, a cidade histórica… Todavia, não são distintas, há uma dinâmica que as une e que encontra muitas explicações na organização espacial da economia (ALDEROQUI, 2003).

A cidade assume várias funções no mundo, ressignifica outras, reexperimenta novas funções. Continua a ser um objeto ainda não totalmente decifrado, enigmático (VÉRAS, 2003). Na era da globalização, além de constituir-se no lugar privilegiado para a produção de mercadorias, torna-se, em si, também uma mercadoria especial. Neste início de século, essas grandes urbes compõem ambientes construídos, com características físicas e densidades históricas diferenciadas, acumulando valores simbólicos e culturais que passam a ser consumidos como mercadorias virtuais.

Essas condições representam elementos importantes na competição atual entre as cidades, movimento presente no intenso processo de globalização da acumulação capitalista e manifestam-se interferindo na escolha de localizações preferenciais para atividades e sedes produtivas, relacionadas a vantagens econômicas e ao maior consumo dos lugares. Dessa maneira, algumas cidades entram nos circuitos mundiais com mais potencialidades que outras e com diferentes vocações e intensidades (GORDILHO, 2000).

Exemplos de cidades globais são metrópoles como Tóquio, Los Angeles, São Francisco, Miami, Nova York, Londres, Paris, Randstadt, Frankfurt, Zurique, Cairo, Bangcoc, Cingapura, Hong Kong, Cidade do México e São Paulo.

É na cidade global que a questão social adquire todas as características de uma questão simultaneamente urbana. Na grande cidade estão bastantes presentes os negócios do narcotráfico e da violência, bem como as manifestações de xenofobia, etnocentrismo e racismo, além das carências de recursos habitacionais, de saúde, educação e outros; e estes já são problemas simultaneamente sociais e urbanos. Envolvem a organização, o desenho e a dinâmica da cidade, implicando arquitetura, urbanismo e planejamento, e revelam-se de modo especialmente acentuado nas grandes cidades, metrópoles, megalópoles. Mas além desses problemas, desenvolvem-se outros, tornando a questão urbana ainda mais complexa.

Os futurologistas diziam que os efeitos da tecnologia da informação sobre a cidade seria de dissolver os espaços, faria por desaparecer as cidades, pois, como o desenvolvimento da comunicação eletrônica e dos sistemas de informação propicia uma crescente dissociação entre a proximidade espacial e o desempenho das funções rotineiras — trabalho, compras, entretenimento, assistência à saúde, educação, serviços públicos, governo — a consequência seria o fim da cidade, ou pelo menos das cidades como as conhecemos agora, visto que estão destituídas de sua necessidade funcional (CASTELLS, 2003).

Todavia ocorreu justamente o contrário, pois desde os anos 1980 se produz um “renascimento” das cidades, tanto na Europa como na América, com a revitalização de bairros históricos, reabilitação de zonas degradadas, a reciclagem e dotação de equipamentos culturais para torná-las mais rentáveis e a restauração de edifícios emblemáticos. Contudo, a interação entre a nova tecnologia da informação e os processos atuais de transformação social realmente têm um grande impacto nas cidades e no espaço.

Castells afirma que o teletrabalho dos trabalhadores à distância representa a ultima esperança dos planejadores de transportes metropolitanos antes de se renderem à inevitabilidade de megacongestionamentos (2003). Porém, a quantidade de trabalhadores à distância com empregos regulares para operar on-line em casa, é muito pequena no conjunto e provavelmente não terá grande crescimento em um futuro previsível. Pois as casas não se tornariam locais de trabalho, mas a atividade de trabalho poderia espalhar-se consideravelmente pela área metropolitana, intensificando a descentralização urbana.

E como essas tendências afetam as cidades? Parece que os problemas de transporte, em vez de melhorar, piorarão porque o aumento das atividades e a compressão temporal possibilitado pela nova organização em rede transformam-se em maior concentração de mercados em certas áreas e em maior mobilidade física de uma força de trabalho antes confinada a seus locais de trabalho durante o expediente. Dados indicam que o tempo de deslocamento em razão do trabalho mantém-se em um nível constante nas áreas metropolitanas dos Estados Unidos, não devido à melhora da tecnologia, mas por causa de um modelo mais descentralizado de localização de empregos e residências que permite o fluxo de tráfego mais fácil entre os subúrbios (CASTELLS, 2003).

Nas cidades europeias onde o modelo radioconcêntrico ainda predomina nos deslocamentos diários — como Paris, Madri ou Milão — o tempo de deslocamento para ida ao trabalho e a volta a casa é enorme, em especial para os ferrenhos adeptos do automóvel. Nas novas e sempre crescentes metrópoles asiáticas, sua entrada na era da informação é paralela ao surgimento dos piores congestionamentos da história, de Bangkok a Xangai. E São Paulo, Goiânia, Salvador… seguem congestionadas.

Apesar da propalada desterritorialização na era do globalismo, as grandes metrópoles se tornam cada vez mais atraentes enquanto negócios, ocorrendo uma estreita relação entre mercado financeiro e mercado imobiliário, acarretando novas configurações urbanas.

Essa dupla relação se manifesta de forma multifacetada: enquanto os mercados financeiros se tornam cada vez mais imaterializados, “desincorporados” em novos “produtos” especulativos ou virtuais, os níveis de concentração nas cidades são mais elevados e o solo urbano é sobrevalorizado, por abrigar serviços cada vez mais sofisticados ligados a esse capital financeiro, ou como sedes das empresas transnacionais, como é o caso das cidades globais. Essa relação contraditória se explica pelo paradoxo de que quanto mais desterritorializadas as atividades no sentido de dispersão geográfica, maior a necessidade de controle — e são as grandes cidades que podem desempenhar essa função (VÉRAS, 2003).

Nesse sentido, a produção de grandes e sofisticados equipamentos urbanos (arranha-céus, shoppings etc.) deve ser vista como resultante de cálculos de obter rentabilidade máxima. A cidade global tem de ser vista como ambiente comercial complexo, onde construir é um negócio que extrai lucro, ao mesmo tempo, da produção de espaço, da localização, da imagem e do status.

Nas grandes cidades dos países centrais, o modelo de “conjuntos habitacionais” mesmo bastante difundido, não eliminou as habitações de populações pobres localizadas nos centros urbanos, constituída tanto por moradores que lá se mantiveram como pelos novos imigrantes. Nos anos 1980, com o desenvolvimento de projetos de intervenção pública para renovação urbana, manifesta-se outro tipo de mudança na localização habitacional ligada as classes sociais, denominado gentrificação, isto é, expulsão das populações pobres residentes em áreas centrais degradadas, substituídas por outras de renda mais alta.

Essas intervenções que se perpetram nas grandes cidades, basicamente têm sido relacionadas à ampliação dos setores financeiro e turístico, associadas à dinamização de atividades imobiliárias. Geralmente incidindo em áreas decadentes de propriedade pública ou semi-pública, esses projetos de urbanização têm como objetivo integrar atividades de recreação, cultura, compras e habitação para moradores de renda mais alta. Esse novo modelo – de cidade-espetáculo (GARCÍA, 2003) ou cidade-como-palco – se reproduz em cidades antigas, de vocação turística, envolvendo grandes investimentos públicos e privados, quase sempre expulsando as famílias pobres residentes, de forma direta ou, indiretamente, pelos altos custos de morar nessas áreas “revitalizadas” (GORDILHO, 2000).

Alguns destes espaços são fruto de lógicas puramente mercantis — como os espaços e superfícies comerciais — e outros obedecem a uma lógica combinada de cultura e mercado, como os espaços especializados de produção e consumo culturais. Todos eles, apesar de sua lógica de significação própria, material ou simbólica, encontram-se em vias de serem açambarcados pelos princípios ordenadores de consumo, mesmo os espaços monumentais e históricos das cidades (SILVA, C., 2002).

Salvador da Bahia, como cidade global intermediária, não foge a esta regra, pois desde finais dos anos 1980 vem sendo tratada como um produto de marketing e exportação, exercendo um papel estratégico na circulação do capital (CORREIA, C., 2002).

Conclusão: o caso de Salvador da Bahia

O fomento ao turismo, a infraestrutura de serviços direcionada para atrair grandes corporações para a Região Metropolitana de Salvador, são indicadores dos efeitos concretos do processo de globalização na cidade.

A imagem que se busca vender de Salvador é de publicitariamente se dar destaque a elementos reconhecidamente atrativos nos atuais polos de turismo de massa: paisagens inebriantes, exotismo, historicidade, cultura local soberba (FERNANDES, A., 2002). Segue-se a lógica de fazer convergir turismo e cultura, o que em si não é uma tendência negativa, muito pelo contrário. Todavia, no caso em questão, quando o que se privilegia é o olhar do outro, o olhar de fora, o olhar “insaciável” em busca de identidades, particularidades e exotismos, o que se assiste é o atendimento à demanda por circuitos econômicos de promoção que, ao exigir o caráter de uma certa identidade como condição para integrar o seu domínio, torna pitoresca a herança cultural existente. Isto acaba por transformar a cidade em uma caricatura de si mesmo.

É importante reconhecer que a cidade de Salvador possui, de fato, alta densidade de tradições culturais e natureza privilegiada. Porém, a crítica cultural contemporânea demonstra que a minimização de amplos fenômenos sociais, históricos e culturais a simples atrativos turísticos é prejudicial para as possibilidades de desenvolvimento local em termos culturais, sociais e econômicos, ao invés de se apontar para a construção de uma cidade plena de vigor em sua tradição e contemporaneidade (FERNANDES, A., 2002).

Para consolidar a estratégia de fazer Salvador uma cidade atrativa para os investimentos das empresas globais, o maior fluxo de recursos concentrou-se nos últimos anos em obras de embelezamento das áreas do circuito turístico consolidado ou potencial, e de dotação de infraestrutura nos novos espaços de interesse econômico. Enquanto isso, nos bairros populares as condições de vida permanecem precárias, e refletem as desigualdades socioespaciais quanto às oportunidades de emprego e renda, habitação, transporte, infraestrutura urbana etc., intensificando o processo de desagregação espacial que, gradativamente, desloca a população de baixa renda, excluída do mercado formal de terras e habitação, para as áreas de precárias condições de habitabilidade (CORREIA, C., 2002) caracterizadas pela deficiência dos serviços públicos básicos.

Dessa maneira, paralelamente ao boom publicitário de Salvador, vista como um produto de consumo e buscando ser competitiva no mundo globalizado, se constrói uma cidade que combina altas taxas de crescimento demográfico, acirrada desigualdade social, desequilíbrio espacial de padrões de urbanização e ocupação do solo, degradação física dos espaços públicos, deficiência na oferta de serviços urbanos e altos índices de pobreza urbana.

Este é o desafio a ser enfrentado pelo Poder Público e — num Estado democrático de direito — principalmente pela sociedade civil organizada.

Referências

ALDEROQUI. Silvia S. In: Cidades. Caderno CRH. nº 38, p.153-175. Salvador: Centro de Recursos Humanos. UFBA, jan/jun 2003.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 7 ed. revista e ampliada. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
CORREIA, Claudia. Entre o global e o local: Salvador em tempo de crise. In: Quem faz Salvador. COSTA LIMA, Paulo et al. (Coord.). Salvador: UFBA, 2002.
FERNANDES, Ana, Caiu na rede: (des) compasso da produção recente de arquitetura em Salvador. Quem faz Salvador. COSTA LIMA, Paulo et al. (Coord.). Salvador: UFBA, 2002.
GARCÍA, Fernanda Ester Sánchez. Buscando um lugar ao sol para as cidades: o Papel das Atuais Políticas de Promoção Urbana. Revista Paranaense de Geografia nº 04 Disponível em
Acesso em 04 mar 2005.
GORDILHO SOUZA, Ângela. Limites do habitar. Segregação e exclusão na configuração urbana contemporânea de Salvador e perspectivas no final do século XX. Salvador: EDUFBA, 2000.
IANNI, Octavio. A era do globalismo. 5 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

LOWENTAL, David. El pasado es un país extraño. Madrid: Akal Universitaria, 1998.
ORGANIZACIÓN de las Ciudades del Patrimonio Mundial. Disponível em http://www.ovpm.org/ Acesso em 01 mar 2006).
SANTA OLALLA. Begoña Bernal. Los recursos culturales de la ciudad y las políticas de desarrollo urbano. Oportunidades de desarrollo sostenible para los conjuntos históricos / III Jornada de geografía urbana. Universidad de Burgos, 18-21 de mayo de 1998. Burgos: Universidad de Burgos, 2000.
SILVA, Carlos Fortuna A. S. A cidade do lado da cultura: espacialidades sociais e modalidades de intermediação cultura. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (org.). A globalização e as ciências sociais.São Paulo: Cortez, 2002.
VÉRAS, Maura Pardini Bicudo. Sociedade urbana: desigualdades e exclusão social. In: Cidades. Caderno CRH. nº 38, p.79-114. Salvador: Centro de Recursos Humanos. UFBA, jan/jun 2003.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]