Macumba para turista

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

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A cidade sagrada de Rishikeshi, norte da Índia, é um grande mercado religioso e esotérico para ocidentais. Um autêntico mercado da fé, com um menu vastíssimo. Não pensem que uso o termo “mercado da fé” de maneira depreciativa ou pejorativa, pois como diz o Frei Betto: “como os supermercados, as Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas, prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação”.

Neste mercado religioso se compete com outras religiões na disputa por devotos, espaço e legitimidade. Assim também competem entre si os inúmeros ashrams (mosteiros) da Índia, inclusive como hotelaria alternativa para turistas alternativos.

A opção é vasta e, quando não ingênuo, o usuário desses serviços religiosos reflete e avalia sobre a sua autenticidade. Tradição, longevidade, número de fiéis na Índia e no restante do mundo etc. são fatores importantes para reconhecer a autenticidade de uma casa espiritual. Porém, todos estes fatores ainda conservam certa subjetividade.

Para muitos antropólogos esta é uma falsa questão: relativistas como são, para eles a questão da autenticidade está ligada à legitimidade e por isso, repetindo Einstein, diriam: tudo é relativo…

Assertiva talvez correta para certas ciências sociais, mas não para os espiritualistas, buscadores da verdade. Os buscadores da verdade, quando visitam uma das diversas opções espirituais existentes, quer na condição de turista, quer na condição de pesquisador, devem ouvir a sua voz interior, que é a voz do coração, e perceber se naquele recinto ocorre a manifestação do sagrado.

Ou ainda, a depender do serviço espiritual que o demandante requer, avalia se aquela casa é autêntica ou não, quer dizer, se não é aquilo que o escritor Oswald de Andrade cunhou certa vez de “macumba para turista”.

No sentido estrito, este termo, “macumba para turista”, é usado para designar os pais de santo que jogam búzios e fazem previsões com a intenção de explorar os clientes. No mercado da fé, com o objetivo de obter vantagens pecuniárias do freguês, este “conselheiro espiritual” falseia, mente e pratica charlatanismo — seja ele suposto praticante de cultos afro-brasileiros ou cartomante, quiromante etc. O menu é vasto. A expressão “macumba para turista” pode ser utilizada também como exemplo de tudo que não é autêntico, imitação vulgar, macaqueamento cultural.

Voltando à Índia… Paramahansa Yogananda, no seu fundamental “Autobiografia de um Yogue” nos alerta que, para encontrar um homem santo na Índia você se depara com centenas de falseadores. Também Jesus Cristo afirma para tomarmos cuidados com os falsos profetas que “vêm ter convosco cobertos de peles de ovelha, mas por dentro são lobos rapaces” (Mateus 7:15).

Os buscadores da verdade, que procuram ouvir a voz do coração, levam esses alertas em conta em se tratando de visitas a templos e líderes religiosos. Muito me comoveu e emocionou conhecer o túmulo do santo indiano Sivananda, no seu ashram em Rishikeshi, o “Divine Life Society”. Lugar sagrado, impregnado de ananda, a bem-aventurança. Outro lugar sacratíssimo foi o grande templo Hare Krishna que visitamos em Nova Delhi, onde cantamos e dançamos no ritual do Arathi, num final de tarde, na temporada das monções — O Arathi é um ritual hindu de queima de cânfora, diante de uma imagem divina, acompanhado de cantos sagrados, os bajhans.

Estávamos, eu e minha consorte, em turismo religioso pelo Norte da Índia. No pacote turístico estava incluída a visita a grandes templos e ashrams (mosteiros). Surpresas agradáveis além dos locais já descritos acima (templo Hare Krishna, Ashram de Sivananda) foi o grandioso templo Akshardham, um templo da religião Sikh com a sua grande cozinha coletiva — ambos em Nova Delhi, e um templo shivaísta em Jaipur-Rajastão.

Todavia, neste périplo por lugares religiosos, me chamou a atenção um curioso pequeno templo, em Rishikeshi, dedicado a Shivalingam (o falo sagrado). Antes desta instrutiva viagem a Índia, os cultos fálicos faziam parte apenas do conteúdo da disciplina Antropologia do meu Curso de Ciências Sociais. Na minha profana ignorância, os cultos fálicos eram apenas algo abstrato, remoto ou talvez até já não existentes entre as culturas do mundo Terra.

Quanta ignorância! Na Índia o culto ao aspecto fálico do Deus Shiva é vivo e presente entre os hinduístas. O lingam é o símbolo fálico de Shiva. Ele representa o pênis, o instrumento da criação e da força vital, a energia masculina que está presente na origem do universo. Está associado ao poder criador de Shiva. Na Índia, reverenciar o lingam é o mesmo que reverenciar a Shiva. A base do lingam é uma representação escultórica da yoni, a genitália feminina, mostrando que a criação se dá com a união do masculino e feminino.

Comumente, o shivalingam é uma reprodução estilizada das genitálias masculina e feminina, com altura de 70 cm e diâmetro irregular de meio metro, ou menos. Quando estávamos no sul da Índia, em visita a um templo dedicado a inúmeros deuses, fui atraído por uma pequena aglomeração que venerava uma escultura de shivalingam, entoando orações védicas e o cobrindo com guirlandas de flores. Soube que o lingam em questão era recém-achado, resultado de escavações para construção de um prédio na pequena vila, e estimava-se em centenas de anos a idade de tal representação escultórica.

O lingam pode ser feito de qualquer material, embora o preferido seja o de pedra negra. Na falta de uma escultura, se constrói um lingam com a areia da praia ou do leito do rio; ou simplesmente se coloca em pé uma pedra ovalada. A pedra ovalada é uma outra representação do lingam de Shiva — além do falo sobre a vagina, descritos acima.

Bem, retornemos então ao pequeno e modesto templo dedicado a Shivalingam (o falo sagrado). Este curioso e humilde templo em Rishikeshi tem como única escultura religiosa, bem no seu centro, um shivalingam gigante, de quase 4 metros de altura. Chama a atenção na escultura peniana o hiperrealismo, pois o pênis é representado ereto, com todas as suas veias e artérias proeminentes, prepúcio e glande. No topo da glande está esculpida uma cobra naja. Inevitável associar à energia kundalini, pois a naja, Cobra Sagrada, é símbolo da kundalini.

Ao entrar para a visitação, percutamos o lugar de poucos cômodos, sendo o espaço interno um quarto com uma grande cama, onde descansava sentado o guru do lugar, um senhor de barbas brancas, que não pronunciou palavra sequer durante toda a nossa estadia no recinto.

Fomos imediatamente conduzidos ao mezanino por um dos poucos monges do templo e, após explicação rápida, convidados a participar de insólito (para alguns) ritual de culto ao falo.

O mezanino lateral ficava a altura da glande exposta do membro intumescido, separados por uma mureta metálica. Ao pé desta mureta, ficávamos no mesmo nível do topo da escultórica genitália masculina.

Primeiramente, os participantes do rito cobriram a glande do gigantesco pênis ereto com guirlandas de flores. Alguns o envolveram no seu próprio japamala (rosário indiano). Baldes de água foram trazidos e éramos instados a banhar o majestoso membro viril. Um cone metálico ajudava na tarefa de direcionar a água sobre a enorme e exposta glande.

Após este primeiro ato, sacos plásticos contendo meio litro de leite in natura eram abertos e derramados sobre o rijo totem fálico. Rios de leite escorriam para a escultura vaginal da base, e os seus dutos eram os canais de escoamento do leite derramado.

Os raros casais do grupo de excursionistas brasileiros tiveram o privilégio de iniciarem o curioso ritual, que era repetido por todos os presentes. Ao banhar o gigante intumescido, recitávamos uma oração védica ensinada pelo monge do lugar, e assim, sucessivamente.

O penúltimo ato daquele estranho rito foi o banho dado coletivamente ao monumento totêmico. Devido ao grande número de participantes — 22 brasileiros mais os guias turísticos e o monge coordenador da função — os que não participavam diretamente pousavam suas mãos sobre o ombro da pessoa a sua frente, criando assim um elo cerimonial.

A cerimônia foi encerrada com uma oração coletiva, puxada pelo pequenino monge e repetida por todos. Lá pela metade da oração, o tal monge tropeçou nas palavras, ou as esqueceu, e o guia turístico chefe, impaciente, tomou o seu lugar, a recitando num tom mais alto.

Ao término da função, o monge amnésico fez uma curta preleção sobre o significado daquela liturgia, e logo descemos ao andar térreo, extremamente besuntado pela chuva leitosa que acabara de cair do andar posterior. Membros da casa se apressavam em escovar e lavar o lambuzado e engordurado recinto.

A simpática Radha, nossa guia turística, convidou-nos a voltar ao quarto do guru daquele templo incomum, e colaborarmos com algo para a casa. Entre dez a 50 rupias, não mais. Estimei em avara a contribuição pedida, pois não pagava sequer o leite derramado. Fui pródigo na hora de abrir o bolso. Ao lado da cama do guru do templo, havia uma mesinha onde depositávamos o dinheiro solicitado. O guru continuava a posar de guru, em estrito silêncio.

Alguns brasileiros reverentemente tocavam os seus “pés de lótus” e recebiam em troca uma cálida benção, com a unção das mãos do quiçá iluminado sobre a testa. Chamou-nos a atenção uma oração em português colada na parede do seu quarto, a qual Lindaura Maria, participante do grupo de excursionistas brasileiros, leu emocionada. Alguns consideravam muito profundo o olhar do talvez iluminado guru.

O monge que nos acompanhava falou do porque daquela oração brasileira: o pequenino templo tinha ramificações no Brasil, representado por proeminente guru neoayahuasqueiro brasileiro (da autodenominada linha oriental), iniciado naquela casa de culto fálico.

Como houve ligeira demora em deixarmos o recinto, displicentemente transitei de novo pela porta do quarto do provecto guru. Qual não foi a minha surpresa ao surpreender-lhe em posição nada meditativa, concentrado que estava em contar a féria do dia…

Depois do ilustrativo ritual, fomos levados ao apimentado almoço indiano. A tarde ensolarada convidava a um purificador banho de imersão nas águas geladas do sagrado Rio Ganges.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]