Debate: Uma análise sob os aspectos filosóficos da entrevista concedida pelo pesquisador feirense Jolival Soares sobre bioética

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Jolival Soares fala sobre bioética. Entrevista é analisada pelo jornalista Carlos Augusto.
Jolival Soares fala sobre bioética. Entrevista é analisada pelo jornalista Carlos Augusto.
Jolival Soares fala sobre bioética. Entrevista é analisada pelo jornalista Carlos Augusto.
Jolival Soares fala sobre bioética. Entrevista é analisada pelo jornalista Carlos Augusto.

Tipos de conhecimento, contraposição entre o saber científico e religioso, o conceito de objetividade científica, a perspectiva histórica e social dos conceitos de ética e moral, e o conceito de bioética. Estes temas foram abordados pelo pesquisador feirense Jolival Soares durante entrevista concedida a rádio Jovem Pan de Feira de Santana, e depois reproduzido pelo Jornal Noite Dia, na publicação especial de 19 de julho de 2013, com o título “O que é bioética?”.

Durante breve encontro com o pesquisador, ocorreu o convite para uma detida leitura e análise da entrevista. Que efetivamente, merece observações pelo caráter instigador da busca por respostas a questões que permeiam a humanidade desde o momento que o homem deu conta de si mesmo. Levando a se questionar: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?

Na busca por estas respostas, foram produzidos conhecimentos (senso comum, religioso, filosófico e científico). Um dos méritos das afirmações de Soares é a promoção do debate das ações do homem, e da noção de ciência e religião, a partir da perspectiva histórica e atual dos conhecimentos que o homem produziu sobre si próprio e sobre a natureza. Além de questionar a forma em que estes conhecimentos foram produzidos e aplicados. Trazendo para revisão os conceitos de ética e moral que as sociedades impõem sobre elas próprias e sobre outras sociedades, na constituição e aplicação dos saberes.

Para exemplificar de que maneira os conflitos éticos e morais estão presentes na produção do saber científico, Soares cita que mesmo após os horrores da segunda guerra mundial, ocorreram experimentos em humanos com características do nazifascimo. E que isto ocorreu em uma das democracias mais vibrantes do mundo, os Estados Unidos.

“No final da década de 60 e de 70 em diante, surgiram alguns escândalos nos Estados Unidos que deram origem ao nascimento da bioética, que é por tanto, uma ciência que nasce em um país de primeiro mundo, no caso os Estados Unidos. Na cidade de Tuskee, que fica ao Sul da Geórgia, um dos estados americanos cuja capital é Atlanta. Um grupo de negros foi separado para deixar morrer, para se estudar a fisiopatologia da sífilis. Ali, eles eram tratados por médicos do governo e enfermeiros que lhe aplicavam placebo, ou seja, na verdade não era medicação, era um engodo para ver como é que a sífilis mata.”

Neste ponto, Soares faz mea-culpa e diz que são os próprios cientistas que transcendem, negativamente, os limites éticos e morais ao tratar a vida (Gaia), em especial, a vida humana.  Como resposta as incorreções dos cientistas surge uma ciência transdisciplinar, que atua entre ciências biológicas, Saúde, filosofia (Ética) e direito (Biodireito). Com objetivo de abordar as condições necessárias para uma administração responsável da vida humana, animal e sobre o meio ambiente. Levando em consideração questões morais das sociedades, bem como a responsabilidade ética e moral dos cientistas, durante as pesquisas e a aplicação dos resultados. Jolival Soares explica o conceito de bioética da seguinte forma:

“A bioética é uma ciência nova, que eu tive a grande alegria de estar acompanhando desde o nascimento. Ela nasce de uma maneira diferente de todas as outras ciências que nasceram, ou dentro de um instituto de pesquisa, dentro de um mosteiro, ou dentro de uma universidade. Ela nasce como a resposta da sociedade organizada aos desmandos da ciência. Então, ‘bio’ é vida e ‘ética’, é o estudo da conduta humana do ponto de vista do bem e do mal.”

À transposição negativa dos valores éticos e morais, Soares traz como resposta uma perspectiva divina, uma perspectiva platônica do Demiurgo (Deus criador), na condução da ação do homem.  Ele nos instiga a perceber a necessidade de uma volta ao conceito de ética aristotélica, descrita na obra ‘Ética a Nicômaco’, considerada obra central na produção de Aristóteles. Nela, o filósofo grego expõe que a concepção teleológica (teleologia refere-se ao estudo das finalidades do universo e, por isso, a teleologia é inseparável da teologia (a afirmação de que um ser superior, Deus, realiza seus propósitos no universo) e eudaimonista (teoria filosófica da moral fundada na ideia da felicidade concebida como bem supremo) de racionalidade prática, além da concepção da virtude como mediania e suas considerações acerca do papel do hábito e da prudência.

Ao afirmar que a fé vai ao auxílio da razão porque liberta, Soares tenta conciliar dois ramos distintos da produção do conhecimento, a fé e a razão. Além de dois segmentos distintos do conhecimento, religião e ciência. Proferida por Jolival Soares, a passagem a seguir traz uma síntese do pensamento do pesquisador, sobre os temas:

“A fé é algo que quem tem não consegue explicar, é abstrato. Mas, quem tem sente. Ela tem uma função, ela me liberta, ela corta literalmente o meu cordão umbilical, que me prende a imanência da matéria. No momento em que a minha fé faz isso, ela vem ao auxílio da minha razão, que não consegue dar respostas para questões profundas da minha existência. A própria ciência hoje, a qual é uma dos ramos do conhecimento humano que mais se autocorrige, ela é de uma importância inquestionável para o progresso humano, porém a ciência é cega. A pessoa que for no mínimo honesta, que quiser explicar ou ensinar a ciência, tem que saber que está ensinando incertezas, aquilo que eu te falo hoje eu não posso garantir que será a mesma coisa daqui a dez anos. E o ser humano precisa acreditar em algo absoluto, ele precisa ter um porto seguro onde ele se ancora nessas horas de graves ameaças a sua própria existência. Porque qual é a dor maior que eu e você sentimos e qualquer ser humano sente? A dor de existir, porque a minha dor você não pode sentir por mim e sua dor eu não posso sentir por você. Agora eu posso estar ao seu lado, na atitude de fé, na atitude de misericórdia, na atitude de compaixão, numa atitude que não me remete exclusivamente para o lado religioso. Para o lado ético, para o lado moral da vida, isso a gente aprende com os filósofos da velha Grécia e atravessamos aí a idade média com santo Agostinho Abelardo, nós emendamos com a filosofia alemã do século XVIII, com Edmundo Hosni, com Immanuel Kant, o próprio Friedrich Nietzsche , que contestou isso, mas era uma forma que ele tinha de expressar a descrença dele, que chegou ao ponto de anunciar a morte de Deus. Mas, observe, só quem foi para o funeral foi ele, por que Deus continua vivo até hoje. Eu e você somos homens. Deus sem você e sem mim continua Deus. Mas eu e você sem Deus somos quase nada.”

Os caminhos e o debate

As afirmações de Soares, ao longo da entrevista, pontuam caminhos para o instigante debate travado permanente dentro das academias sobre a busca do saber científico, os limites, e os dilemas éticos e morais que novas descobertas cientificas trazem para a humanidade. E de que maneira o homem encara a própria finitude da matéria e a transcendentalidade.

O mérito da entrevista concedida por Jolival Soares é instigar mais perguntas do que respostas. Por outro lado, o pesquisador deixa evidente a crença em Deus, mas tem o cuidado de não tentar vincular a crença que professa a uma determinada religião. Permitindo que cada um descubra ‘O Caminho’, como expressado por Mahatma Gandhi no seguinte axioma:

“As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objetivo?”

Sobre o conceito de deontologia

Para análise do artigo foi utilizada a perspectiva deontológica. A deontologia é uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos, quais são moralmente necessárias e servem para nortear o que realmente deve ser feito.Na perspectiva de análise deontológica, foi expressa uma fundamentação nos conceitos platônicos e aristotélicos.

Immanuel Kant dividiu a deontologia em dois conceitos: razão prática e liberdade. Para Kant, agir por dever é a maneira de dar à ação o seu valor moral; e por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma livre vontade.

Saiba +

Baixe a íntegra da entrevista de Jolival Soares sobre Bioética

Leia +

Para compreender melhor os conceitos sugerimos a leitura dos livros ‘A Estrutura das Revoluções Científicas’ de Thomas Kuhn e ‘Deus em Questão – C.S. Lewis e Freud Debatem Deus, Amor, Sexo e o Sentido da Vida’ de Armand Nicholi.

Veja +

Outra opção é o vídeo documentário de ‘Deus em Questão: Sigmund Freud x CSLewis’.

*Carlos Augusto é jornalista e mestrado em Ciências Sociais pela UFRB.

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