A Casa de Jorge Amado e Zélia Gattai: abandonada e esquecida

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

A casa onde morou Jorge Amado e Zelia Gattai, e onde repousam as cinzas dos escritores está abandonada e esquecida. Até quando, gestores públicos e privados da cultura baiana?

Este Blog reproduz aqui um apelo realizado desde 2008.

Prezados leitores, antes de falar da importância e necessidade para a cultura baiana e brasileira da criação do Memorial Casa de Jorge Amado, na Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho (Salvador – Bahia), hoje um imóvel lamentavelmente semiarruinado, me permitam escrever sobre um exemplo a ser seguido, que vem lá do Chile: a transformação das três residências do poeta Pablo Neruda em importantes museus: a casa de Santiago, La Chascona; a de Valparaiso, La Sebastiana; e a casa de Isla Negra, onde estão enterrados, lado a lado, o corpo do poeta e da sua terceira esposa, Matilde Urrutia.

A La Chascona localiza-se na base do Cerro San Cristóbal, na zona central de Santiago, e foi assim batizada por Pablo Neruda numa alusão clara a sua cônjuge – chasca é uma palavra da língua quechua muito popular no Chile, que significa algo como A desgrenhada, A descabelada, homenagem do poeta aos cabelos ruivos e em eterno desalinho da sua amada Matilde.

Após o sangrento golpe de estado de Pinochet, em 11 de Setembro de 1973, a ditadura mandou destruir La Chascona, um ato criminoso contra a memória nacional, típico dos regimes de viés totalitário.

A segunda casa, La Sebastiana, se situa na encantadora cidade portuária de Valparaíso, Patrimônio Cultural da Humanidade, e leva esse nome em homenagem a Sebastián Collado, um arquiteto espanhol que iniciou a construção da mesma, mas não chegou a concluí-la. O amor do poeta pelas mulheres fez-lhe acrescentar a letra A (La) ao nome do amigo, daí ficou La Sebastiana, importante local de visitação na cidade às margens do Pacífico. Cabe assinalar que La Sebastiana também foi pilhada e vandalizada pela ditadura militar chilena.

A terceira casa, a de Isla Negra, é a mais famosa das casas de Pablo Neruda. Isla Negra, traída pelo nome, não é uma ilha, e sim um balneário situado a cerca de 120 km de Santiago do Chile, debruçada sobre o Oceano Pacífico.

Encanta a beleza do lugar, o enquadramento paisagístico, a casa, a decoração interior, o porque de certos pormenores que a vivenda possui — que o visitante, obrigatoriamente guiado, toma conhecimento. Destaque do primoroso artesanato decorativo e digno de registro são as garrafas com arte em areia presenteadas pelo amigo Jorge Amado, juntamente com as imagens do Cristo Crucificado, também dentro de garrafas, trazidas de Fortaleza, Ceará.

Fazemos aqui uma pausa e voamos de volta à calorosa Salvador, a um dos endereços mais celebres da cidade: a Rua Alagoinhas, 33, no Rio Vermelho — a casa em que desde 1963 morou o escritor Jorge Amado (1912-2001) e a sua esposa Zélia Gattai (1916-2008), casa comprada após Jorge vender aos estúdios MGM os direitos de Gabriela, Cravo e Canela e mudar-se definitivamente para a Bahia.

Lamentavelmente tomamos conhecimento que o endereço em Salvador onde o escritor Jorge Amado morou durante seus últimos 38 anos, onde suas cinzas foram jogadas e que virou ponto turístico da cidade está abandonado, servindo de abrigo para traças e cupins. Os reflexos do abandono estão por toda a casa, de quatro quartos, seis banheiros, sala, cozinha, copa, escritórios, varanda, biblioteca, quiosque, piscina e garagens.”

Logo na entrada do imóvel, há rachaduras nas paredes, infiltrações, tijolos quebrados e fiações elétricas soltas. Na sala, usada por Amado para receber convidados, como o ex-presidente francês François Mitterrand e o escritor Jean-Paul Sartre, o cenário é o mesmo: bocais oxidados e sem lâmpadas, armários quebrados, rachaduras nas paredes, ar-condicionado sem funcionar. A casa está desabitada desde 2003. A viúva de Jorge, a escritora Zélia Gattai, ainda morou no lugar por dois anos depois da morte do marido. Hoje, o quarto do casal está com espelho enferrujado, infiltrações e madeira sobre a cama, afirma reportagem feita sobre o local.

A casa de Jorge e Zélia se notabilizou pelas inúmeras obras de arte e artesanato que o escritor baiano colecionou em sua vida, trazidas do mundo todo. Os principais objetos foram transferidos para a Fundação Casa de Jorge Amado ou estão sob a guarda dos filhos, mas restaram quadros, móveis e até eletrodomésticos no local.

Mesmo quase sem móveis, há trabalhos na casa que revelam preferências do escritor. Por todas as partes há azulejos coloridos e gradis com trabalhos do artista plástico Carybé, imagens cultuadas no candomblé e lembranças deixadas por amigos. Na varanda, permanecem dois azulejos pintados e assinados pelo espanhol Pablo Picasso. As paredes da dependência de hóspedes ainda guardam as matrizes das gravuras feitas pelo artista plástico Calasans Neto para o livro Teresa Batista Cansada de Guerra.

A família gostaria transformar a casa, que é particular, em museu. Segundo Maria João Amado, neta do escritor, o Ministério da Cultura aprovou um projeto que prevê captação de R$ 3,5 milhões para obras na casa. “Agora temos que encontrar financiadores”. Ela diz que a família gasta R$ 10 mil por mês na manutenção do local. “Quatro seguranças se revezam 24 horas por dia e ainda temos de pagar contas e fazer pequenos reparos”.

O Conselho Estadual de Cultura, órgão colegiado da Secretaria de Cultura, deu parecer favorável ao tombamento da Casa do Rio Vermelho. A decisão atende a um pedido da própria Zélia, feito ainda em 2005. Todavia, a lentidão do processo gera pessimismo quanto ao futuro deste patrimônio cultural.

No documento que expressa a decisão, a Câmara de Patrimônio do Conselho se posiciona no sentido de tombar a Casa dos Escritores Jorge Amado e Zélia Gattai, com sua arquitetura de interiores, mobiliário e objetos de decoração, bem como seu jardim. Os passos são os eguintes: após a formalização do parecer do Conselho, o processo deve encaminhado para a Secretaria de Cultura, que elabora o Decreto de Tombamento a ser enviado ao governador, responsável por oficializar a decisão através de publicação do decreto em Diário Oficial.

Com o tombamento, a casa passará a contar com a salvaguarda do Estado para sua preservação e qualquer modificação arquitetônica em sua estrutura deverá ser aprovada pelo Instituto do Patrimônio Artístico Cultural da Bahia (IPAC), autarquia da Secretaria de Cultura responsável pela preservação dos bens culturais do Estado.

O parecer afirma que o tombamento da casa não está vinculado à criação do Memorial Casa de Jorge Amado, que poderá ser executado sob orientação do IPAC. De acordo com a Câmara de Patrimônio do Conselho, entretanto, deverão ser mantidos os elementos essenciais que caracterizam o ambiente de vida dos dois escritores, preservando, particularmente e integralmente, o espaço de sua biblioteca. O parecer sugere também que o projeto do Memorial separe fisicamente o uso cultural do uso comercial, de forma que a sustentabilidade do espaço seja compatível com a preservação da casa e seu jardim.

O parecer do Conselho de Cultura vem reparar um erro, pois em 2005 esse Conselho, por excesso de zelo, foi desfavorável ao tombamento por considerar que a proposta apresentada para o Memorial Casa de Jorge Amado alteraria as características do imóvel.

No início de 2008, o IPAC reencaminhou o pedido ao Conselho de Cultura, solicitando revisão do parecer, por considerar que o mérito para o tombamento do imóvel não seria suas características arquitetônicas, mas sua importância histórica e cultural. É justamente por seu valor histórico que o parecer do Conselho de Cultura justifica a necessidade de preservação do imóvel. O documento argumenta que, embora a casa não seja um exemplar arquitetônico excepcional”, ali viveram por 40 anos dois dos mais importantes escritores da língua portuguesa, tendo sido, desde os anos 50, um local de saraus musicais, tertúlias literárias e encontros de artistas, a exemplo de pintores e escultores como Mário Cravo Jr., Carybé e Jenner Augusto, que deixaram suas digitais em grades, azulejos, portas e vitrais.

Na carta de 2005, em que solicita o tombamento do imóvel, a escritora Zélia Gattai argumentava que preservar a casa onde viveu Jorge Amado com seu mobiliário e seus objetos preferidos é preservar os bastidores da composição da imagem do Brasil popular imortalizado pelo escritor. Dessa maneira, as transformações introduzidas por Jorge e Zélia nos últimos 47 anos não descaracterizam, senão reforçam a sua autenticidade, pois refletem o modo de vida de seus moradores — assim consideraram os doutos conselheiros.

Sabe-se que o melhor turismo é o turismo cultural, onde o lugar de visitação atrai pelos seus bens materiais e imateriais. Esse é o forte de Salvador, juntamente com o turismo de sol e praia, obviamente. Porém, praias paradisíacas o nordeste brasileiro tem de montão, não é exclusivo da capital da Bahia. O que é sim exclusivo da Amada Soterópolis do Amado cronista é a sua gente, o seu povo, seus hábitos e formas de vida espalhada pelos mistérios das ruas e ladeiras da velha Cidade da Bahia – e a casa da Rua Alagonhias, 33, é um pedacinho desta magia chamada Salvador.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]