Jornalismo que incomoda é o jornalismo que vale | Por Lúcio Flávio Pinto

Quando entrei pela primeira vez na redação de A Província do Pará, já como repórter do jornal, em 6 de maio de 1966, levei comigo um caderno de anotações. Meus novos colegas me olharam como se eu fosse um estranho colegial, deslocado no cenário. O que se usava para fazer as anotações diárias eram folhas soltas de papel, as laudas. Inicialmente elas se originavam das aparas das bobinas de papel de impressão, cortadas ao léu (a marcação impressa só viria anos depois). Uma vez extraído o seu conteúdo, o papel ia para o lixo.

Considerei desde o primeiro momento esse ato como um desperdício de anotações que podiam ser usadas depois. Não só guardei meus cadernos (embora tenha perdido vários nas idas e vindas da vida) como passei a recolher todo papel que me pareceu interessante. Não conquistei adeptos. O que ganhei foi um apelido que devia me desanimar (mas não desanimou): sovaco ilustrado. Eu era um menino de colégio ainda não adaptado ao modo de ser azougue dos jornalistas de então.

Para me gozar, os colegas juntavam impressos de toda natureza e me passavam. Como eu agradecia e carregava esse material comigo, me deixaram de lado. Não valia mais a brincadeira. Eu continuei a raspar tudo que encontrava à vista (e ao alcance das mãos), sobretudo os documentos oficiais. Com o tempo, passei a incluir como alvo qualquer anotação, cópias de telegramas, rabiscos, agendas e quetais. Formei um arquivo caoticamente monumental, com milhares e milhares de peças.

Os meus primeiros planos eram de que ia tratar desse acervo quando chegasse aos 50 anos. Se eu tivesse continuado a pagar a previdência, naquele momento já estaria aposentado. Podia deixar de lado a prisão do cotidiano e me permitir processar o material acumulado no curso do que seriam então 34 anos de jornalismo profissional.

Como isso não aconteceu e é provável que jamais venha a acontecer, resolvo agora ir dividindo com meus leitores as partes desse conjunto já monstruoso de peças do que, no momento em que foram geradas, não passavam de quadros incompletos e inconclusos da história.

Começo hoje essa transmissão. Gostaria que os destinatários, se convencidos da utilidade da iniciativa, estabelecessem um diálogo com o autor. Certamente esses cacos factuais poderão assim adquirir algum valor.

Cobrando informações 

A primeira peça desse inventário é uma mensagem de telex, o meio de transmissão de texto mais vanguardista da época. O recado foi enviado, em 26 de março de 1975, pelo chefe de reportagem da sucursal de Brasília de O Estado de S. Paulo, Fernando César Mesquita, ao chefe do Departamento de Sucursais e Correspondentes, Raul Martins Bastos. Fernando, que viria a ser chefe da comunicação social do presidente José Sarney, mandava dizer, com ironia:

“O ministro Ueki já goza a gente quando vamos a ele falar das alterações do projeto do alumínio. Ele vai logo perguntando quais são as últimas do ‘Liberal’? Isso não invalida as indagações do Lúcio, que serão devidamente postas a quem puder respondê-las”.

As indagações nunca foram respondidas. Diziam respeito às constantes e múltiplas alterações na concepção do projeto da Albrás, iniciativa dos japoneses de dois anos antes, incorporada pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce como sendo coisa nacional. Os repórteres de Brasília não gostavam muito de fazer perguntas que incomodavam os principais personagens do poder federal. E as potestades do Planalto se irritavam com a insistência de extrair-lhes o que não pretendiam ceder: informações exclusivas.

Quando trabalhei com Raul no DepSuc de São Paulo, fazia pautas cheias de perguntas incômodas para essas autoridades. Se as informações não vinham, eu cobrava – quantas vezes fossem necessárias. Às vezes ia às sucursais reiterar a cobrança ou buscar diretamente o que me interessava. Assim fiz bons amigos e cultivei colegas. Mas também criei arestas ou mesmo adversidades (e adversários).

O nissei Shigeaki Ueki era o todo-poderoso ministro de Minas e Energia. Além disso, era um dos “filhos” do presidente, o general Geisel (que perdera o único filho natural e só tinha sua Amália Lucy). Tinha acesso privilegiado ao chefe, assim como outros “filhos”: Heitor de Aquino Ferreira e Humberto Esmeraldo Barreto. Ueki era gentil e esperto, além de muito inteligente. Embora encrespado pela minha perseguição, recorria ao humor para me dar um chega-pra-lá.

Ao se referir a O Liberal, o que ele procurava ironizar era a minha coluna diária no jornal de Romulo Maiorana, pai. Era lá que sistematicamente eu dava conta do que acontecia com o projeto da Albrás e cobrava informações. Mesmo que elas não fossem cedidas espontaneamente, não desistia enquanto não chegasse a elas. Era assim que um jornal de Belém incomodava o ministro, obrigando-o a pelo menos dar uma desculpa para a sua falta de boa vontade e descumprimento do dever funcional.

Rico e calado 

Eu viveria dois episódios com Ueki. Um, foi quando ele se comprometeu a me levar ao projeto Jari, do milionário Daniel Ludwig, e não cumpriu a palavra. Na frente do ministro, o tycoon vetou minha entrada no seu latifúndio. Com todo seu poder, Ueki não foi capaz de impor-se e eu fiquei. Por sorte, logo depois fui convocado a depor numa CPI da Câmara Federal e denunciei o fato em Brasília: o ministro não tinha autoridade dentro da propriedade de Ludwig, território estrangeiro no Brasil.

Outra vez foi quando o ministro foi ao Amapá pegar a primeira amostra de óleo que subiu num dos poços perfurados na plataforma continental pela Petrobrás, 200 quilômetros mar adentro. Surpreendi-o na cidadezinha do Amapá, que fora base militar dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Acabei forçando-o a me levar com ele ao lhe cobrar resposta ao desperdício de energia na residência oficial do ministro, no Lago Sul, em plena fase de contenção de gastos, por causa do choque do petróleo.

O Estadão denunciara a piscina térmica da mansão do ministro encarregado da política de conservação de energia. Para sair da saia justa, Ueki acabou me colocando em seu avião. Ainda assim, nossa conversa foi agradável e instrutiva. Não à toa ele se tornou um homem rico depois de deixar o governo. Rico, calado e (quase) esquecido.

Mas aí já é outra história.

*Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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