A banalização do mal

Juarez Duarte Bomfim
Juarez Duarte Bomfim

Os espanhóis usam um bonito termo para expressar o amor que cultivamos pela nossa pátria afetiva, aquele rincão especial que adoramos viver ou ter vivido, mesmo que dele estejamos temporariamente distante. Distante… como? Se a carregamos no coração?

Cada um de nós tem a sua “patria chica”, independente de ser ou não nativo daquele lugar. Não importa: é a terra que escolhemos como nosso paraíso terrenal.

A cidade pesqueira de Cojímar, na Baía de Havana, Cuba, é a “patria chica“ de Ernest Hemingway: fonte de inspiração para a sua obra-prima “O velho e o mar”, que lhe deu o Prêmio Nobel da Literatura.

Pablo Neruda certa vez versejou sobre a sua Isla Negra natal: “Mis alegrías y mis dolores vienen de aquí e aquí se quedarán” (minha alegria e minhas dores vêm daqui e aqui permanecerão). Seu desejo foi satisfeito, pois lá repousam os seus restos mortais.

E qual é a minha “patria chica”? Bem, não sou o Florentino Ariza (personagem de Gabriel García Márquez em “O amor nos tempos de cólera”) que acredita ter o coração mais quartos que uma pensão suspeita… Mas para eleger a minha “patria chica” me dividiria entre a Salvador antes do Pólo, Trancoso nos anos 1980, a Itaparica do tempo em que todos queriam ter terreno na Ilha… e o Vale do Capão, claro. E sempre.

Porém, a “patria chica” que eu e minha família adotamos e escolhemos é a longínqua, feia e calorenta cidade de Rio Branco, capital do Acre. Feia não… isso é coisa do passado, quando dela me enamorei. Seguidas administrações petistas dignificaram o Acre e embelezaram a sua capital.

Juntamos nossas modestas economias e lá adquirimos uma humilde casa de seringueiro, e isso nos deu um sentimento de pertinência ao lugar, mesmo nela permanecendo apenas nas exíguas férias docentes.

Um pedacinho de mim permaneceu no Rio Branco neste ano da graça de 2008 quando a nossa filha lá fincou domicílio, estudando e trabalhando. Amante dos animais, deles se cercou como boa companhia, e entre a bicharada se destacava a cadela Donna que, para meu desespero de pai, era da agressiva raça pit bull.

Apesar de ser de raça violenta, a Donna demonstrou desde logo docilidade e caráter amistoso. Mesmo assim me cerquei de cuidados orientando a filha para manter estrita vigilância e, reunindo novas economias construímos um resistente canil para a cachorrada.

Todavia, fomos surpreendidos recentemente pelo arrombamento do canil (a casa também foi forçada) e o roubo da cadela Donna.

Ainda não acostumada a perdas, na sua pouca idade, a filha se desesperou e lamenta a perda da cadela querida como se fosse a perda de um filho.

Tudo fizemos à distância para consolá-la, inclusive apelando para empenho pessoal de policiais amigos. Foi quando se revelou a assombrosa suspeita: roubo de cães mansos da raça pit bull são realizados no intuito de malévolos adestradores os prepararem como animais de combate em rinhas.

Confesso que até então este era um assunto estranho a minha existência, não digo totalmente porque dele tinha algum conhecimento na condição de ávido leitor e expectador de noticiários da imprensa “falada, escrita e televisada”.

Outro momento que tal assunto se apresentou no meu imaginário foi quando, por indicação de amiga cinéfila, assisti a uma brutalista película mexicana com o título de Amores Brutos (“Amores perros”), que tratava do tema das rinhas de cães.

Uma rinha de cães é o local onde “seres humanos” fazem com que cães ferozes e treinados lutem entre si, até a morte de um dos contendores. Ou até quando um dos cães foge mutilado e dilacerado. A platéia é formada por “seres humanos” em busca de dinheiro de apostas e diversão e entretenimento. Os cães pit bull são considerados “imbatíveis”, daí a preferência por esta raça.

Uma dúvida filosófica é se, no estado natural, o ser humano é mal. Maqueavelicamente o pensador florentino diz que sim; hobbesianamente o absolutista filósofo inglês confirma: “homo homini lupus” – o homem é o lobo do próprio homem – e dos animais, completaríamos.

Rosseaunamente atribui-se ingenuidade ao filósofo suíço ao acreditar ser a vida social que corrompe o homem, que seria bonzinho por natureza. No pensamento cristão o ser humano, ou certos humanos, são designados como “raça de víboras” ou maus.

A cientista política alemã Hannah Arendt refletiu sobre a “banalização do mal”, ao escrever a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém, onde se revela que o principal executor do extermínio em massa dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, Adolf Eichmann, no lugar de ser um monstro desapiedado e poço de maldade como todos esperavam, se apresentou aos olhos estupefatos do mundo como sendo alguém “normal”: um funcionário mediano, mero burocrata cumpridor de ordens, incapaz de separar o bem do mal ou de refletir sobre seus atos.

Numa sociedade de histórico escravista e campeã de desigualdade social, no Brasil lamentavelmente solidifica-se a “cultura da violência” que, mesmo não sendo privilégio nosso no concerto das nações, deveria ser algo que nos envergonha e constrange.

A institucionalização da tortura como método de interrogatório e castigo; a violência urbana, associada a furtos, drogadicção e alcoolismo; a violência rural dos conflitos por terra; a sobrevivência do trabalho escravo no campo; a exploração sexual de menores; a violência doméstica contra mulheres e crianças são crimes praticados contra o “bicho homem”. Os maus-tratos a animais se constituem na derivação dessa cultura de violência.

O Estado de Direito e a lei existem para “frear a ação dos lobos”, isto é, estabelecer normas jurídicas para a regulação da vida social. O que é permitido e o que não é permitido fazer. O pacto social necessário para a coexistência e sobrevivência pacífica dos homens. Isso também se estende aos animais.

A Lei Ambiental de 1998, número 9.605, no seu artigo 32 trata dos crimes ambientais e define como crime ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos e prevê pena de três meses a um ano de prisão aos infratores. Dependendo da quantidade de pessoas envolvidas, também poderão ser incriminadas por formação de quadrilha.

Cabe não só ao Estado, mas também a sociedade civil combater toda forma de violência que atente contra a dignidade humana, o meio ambiente e a vida animal. É um dever de todos. Só assim poderemos viver numa coletividade mais justa e digna

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]