Pastor tortura a imprensa | Por Ernesto Marques

Ernesto Marques, jornalista, Vice-presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI Bahia).
Ernesto Marques: como jornalista profissional, radialista e cidadão baiano, não aceito a mordaça que se tenta nos impor.
Ernesto Marques, jornalista, Vice-presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI Bahia).
Ernesto Marques: como jornalista profissional, radialista e cidadão baiano, não aceito a mordaça que se tenta nos impor.

Não me interessa, neste espaço, discutir se o ex-PM e hoje advogado e pastor, Átila Brandão, de fato, torturou o professor Renato Affonso de Carvalho. Não me interessa discutir se o jornalista Emiliano José poderia usar o depoimento de Renato Affonso, firmado em cartório, inclusive, com a indicação de quem o teria torturado, sem ouvir o acusado do bárbaro crime de tortura. Quero discutir a reação do Pastor Átila Brandão em mais uma investida virulenta contra um jornalista no exercício legítimo do mandato de trabalhador da notícia. Emiliano não é o primeiro alvo, e nem foi o último. Rápido no gatilho desde os tempos em que andava com uma Colt 45 na maleta 007, o ex-tenente da PM alvejou o também jornalista Oldack Miranda. Nessas ações pede indenização de R$ 2 milhões para cada um. Emiliano, porque escreveu, e Oldack, porque publicou o texto, junto com a notícia da queixa-crime de Átila.

Emiliano não foi o primeiro porque anos atrás, quando Átila foi candidato a governador da Bahia, o mesmo expediente foi usado contra o jornalista Samuel Celestino, então presidente da ABI. Em sua coluna no jornal A TARDE, o mais prestigiado articulista político da imprensa local se referiu às ligações do aparelho repressivo na Bahia dos anos de chumbo com o então jovem tenente. O ex-servo do “Outro”, depois convertido em cristão fervoroso e pregador de rara eloquência, sacou a mesma arma contra Samuel. Ouvi dizer que é bom advogado, com boa carteira de clientes e grande influência na máquina kafkiana do Judiciário. Nas palavras dele, o Fórum Rui Barbosa é (ou era?) um magazine, onde se compra e se vende tudo. Soube até que ganhou causas grandes, com ajuda do “Outro”, informação privilegiada quentinha, vinda lá das profundezas.

A reconhecida desenvoltura na arena jurídica talvez explique ter renunciado ao debate público, usando um direito de resposta imediato que não lhe seria negado por A Tarde nem pela Carta Capital. Partiu logo para ações judiciais que ameaçam os jornalistas com indenizações impagáveis. Mais do que isso: os pedidos de Átila atendidos parcialmente pela juíza Marielza Brandão criam um obstáculo descabido para que essa querela envolvendo duas figuras públicas, seja do pleno conhecimento da sociedade. Ele terminou por criar um fato de repercussão por envolver duas destacadas figuras públicas, e isso É NOTÍCIA!

Ao trocar a Colt 45 pelo seu número de OAB como recurso para resolver diferenças, não substituiu a violência pelo Direito. Optou pela operação violenta do Direito. Mirou num jornalista, mas acertou em cheio toda a imprensa, a quem tortura como corporação profissional, com a ameaça tácita de desferir sua fúria num processo judicialmente violento contra um jornalista que ouse publicar o caso. Não contestou o testemunho de Renato Affonso, simplesmente tenta impedir que a revelações chegassem ao conhecimento público pela imprensa.

Às vésperas do cinquentenário daquela infeliz quartelada que nos impôs 21 anos de arbítrio, com Comissão da Verdade funcionando, qual deve ser a conduta de um jornalista que receba informação como um depoimento firmado em cartório, de uma pessoa respeitável como o professor Renato Affonso? Deve omitir a informação e omitir-se como profissional de imprensa, com medo de uma queixa-crime? Admitir isso é aceitar a autocensura e abrir mão do Jornalismo, da liberdade da imprensa. É admitir a violação do direito à informação – sagrado em qualquer democracia.

A defesa individual de Emiliano está bem cuidada com a solidariedade individual de jornalistas, intelectuais, lideranças políticas e entidades como o Sinjorba e a Associação Bahiana de Imprensa, que cuidam para que o caso tenha a dimensão compatível com tamanho agravo à liberdade de imprensa. Mas entendo que cabe a nós, trabalhadores da notícia, uma ofensiva enfática em defesa das nossas prerrogativas profissionais. Átila fez escola, e há outros jornalistas baianos alvejados da mesma forma por grandes empresários dos setores de construção civil, do entretenimento e da cartolagem do futebol baiano. Isso já passou dos limites.

Como jornalista profissional, radialista e cidadão baiano, não aceito a mordaça que se tenta nos impor. Recoloco o assunto que ganhou dimensão nacional (numa pesquisa rápida, “pastor torturador premonições Yaiá, abre links para mais de 6,5 mil publicações). A acrescento abaixo, o artigo de Emiliano que gerou a queixa-crime para que cada pessoa que ler este texto, possa compreender o assunto e criar seu juízo próprio. Estaria a cometer algum crime?

Quanto às referências à pistola Colt 45, pacto com o “Outro” em troca de poder e fortuna, comércio no Fórum e a ajuda do além para vencer uma causa graúda em Brasília, fico obviamente obrigado a citar a fonte dessas informações algo chocantes: o testemunho do próprio Átila, sobre sua incrível trajetória, até converter-se no advogado poderoso, pastor, reitor da Universidade Batista Brasileira, e cônsul da República do Chipre, paraíso fiscal europeu destino de recursos depositados pelos muitos magazines do mundo.

É Átila por ele mesmo

*Ernesto Marques, jornalista, Vice-presidente da Associação Baiana de Imprensa (ABI Bahia).

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