O casamento de Rinaldo Leite com a bela mulata conterrânea

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

A UEFS Editora, bem conduzida pelo amante dos livros e das letras Valdomiro Santana — o Jorge Luiz Borges campo-formosense — lança, para nosso deleite, a fundamental obra da historiografia baiana “A Rainha destronada: discursos das elites sobre as grandezas e os infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas”, de Rinaldo Leite.

Salvador da Bahia, primeira capital do Brasil-Colônia, principal porto das Américas por mais de três séculos, perde a condição de primazia com a transferência da capital para o Rio de Janeiro, em 1763. Mesmo assim, rivaliza com o novo centro político por muitas décadas e será a segunda maior cidade brasileira até a Proclamação da República.

O declínio político e econômico cairá sobre a “mulata velha” durante a República Velha (1889-1930) e também no período 1920-1940, segundo os imprecisos indicadores socioeconômicos e demográficos da época.

Devido a sua grandeza, Salvador se confunde então com o Estado da Bahia. Cidade do Salvador e Cidade da Bahia correspondem a uma mesa designação. O que ocorre na capital do Estado — antiga província — tem impactos em todo o vasto território federativo. O centro da atividade política se dá no meio urbano.

Todavia, a implantação da República no Brasil engendrou duros embates políticos e simbólicos entre as diversas unidades da Federação pelo domínio do poder no novo regime. As elites baianas, que gozaram de posição privilegiada no império, sofreram um grande choque com os rearranjos então operados, quando novos grupos regionais ascenderam no plano nacional. A Bahia passa então a ser secundarizada.

O declínio, a decadência, o ostracismo… seja lá que nome lhe der, torna a Cidade da Bahia a “rainha destronada” do historiador baiano Rinaldo Leite e dos discursos das elites sobre as “grandezas e os infortúnios” da Bahia nas primeiras décadas republicanas — tema de sua pesquisa.

Porém, “a rainha destronada era uma mulher que mantinha ares imponentes, majestosos, distintos e garbosos”. Podia não dispor de trono nem de cetro, arrebatados pela “horda de aventureiros”. Mas ainda assim era uma rainha em posse completa da sua majestade. Isto é, a Bahia resistia a perder a sua realeza.

Com a crise surge a expressão da Bahia que “já teve”. A Bahia já teve isso… a Bahia já teve aquilo… e não tem mais.

Uma outra frase que se dissemina para compreender o período é o famoso dito do “enigma baiano”. Nas palavras do líder político Octavio Mangabeira:

“Intrigava-me, desde muito, porque razão a Bahia, cujas qualidades e riquezas eram, em geral, tão celebradas, se mantinha, todavia, em condições de progresso indiscutivelmente inferior ao que resultaria, em boa lógica, de semelhante conceito, assim tivesse ele a procedência que se lhe atribuía?”

O historiador Rinaldo Leite, em frente à Esfinge, busca desvendar este mistério.

O fim da estagnação e crise da economia baiana só ocorrerá na segunda metade do Século XX, com eventos como a descoberta de petróleo no Recôncavo, criação da primeira refinaria, implantação da Sudene e, depois, o Centro Industrial de Aratu, Polo Petroquímico de Camaçari e o Complexo Ford.

Infelizmente, crescimento econômico não significa desenvolvimento social nas plagas de cá. A Região Metropolitana de Salvador continua a ser cronicamente campeã de desemprego entre as demais regiões metropolitanas brasileiras, seus pobres persistem a se multiplicar e a qualidade de vida urbana se deteriora — muito por conta de péssimas administrações municipais e estadual.

Curioso é que as marcas do binômio “passado de glória-pobreza baiana” se estendem pelas décadas seguintes, apesar de todo o progresso ocorrido, e o estereotipo do “baiano preguiçoso”, do “baiano devagar” perdura por muito tempo.

A xenofobia dos sulistas contra os “baianos” ressignifica esta palavra: de adjetivo e substantivo masculino que significa a origem de determinado individuo, se torna uma expressão depreciativa, pejorativa, e vai perseguir os nordestinos que constroem megalópoles como São Paulo.

O passado de glória das elites baianas cunha a expressão “filhos da Bahia” para intitular velhos e novos baianos na pauliceia. Porém, o ódio xenófobo prossegue: o intratável cronista Paulo Francis, em polêmica com o bardo santamarense Caetano Veloso, usou o baixo argumento de que a Bahia tem “dois ff: fome e filhos”. Este mesmo que vos escreve, contraiu matrimônio com mulher paulista e estudou na Pós-Graduação da Fundação Getúlio Vargas, à época uma das 10 melhores faculdades de Administração do mundo. Apesar da minha condição de professor universitário e mestrando, e da quase nórdica tez clara, sofri algumas situações discriminatórias naquela urbe. Inclusive no trânsito, pois levei um velho Fiat para o deslocamento citadino.

Voltando ao excelente livro: dois curiosos episódios da história da Bahia são aqui lembrados: primeiro, o bombardeio de Salvador, em janeiro de 1912, que destruiu importantes exemplares do rico patrimônio cultural baiano. Bombardeio esse perpetrado para garantir eleição e posse do governador J.J. Seabra. Este foi um prenúncio do que viria a seguir: o urbanismo demolidor deste iconoclasta empreendedor público, que derrubou parte considerável do rico conjunto arquitetônico barroco-colonial da Triste Bahia.

O segundo episódio é o da “Revolução sertaneja” ou “revolta sertaneja”. Inusitada situação onde do alto da Chapada Diamantina o Coronel Horácio de Matos reúne algumas centenas de jagunços e resolve tomar o poder na capital. Em livro épico, Valfrido Moraes (Jagunços e heróis) narrou este surpreendente evento, demonstração de tal fraqueza do governo da Bahia no período (1920) que, acredita-se, se houvesse guerra seria vencida pelo belicista caudilho.

Tem mais… leiam.

Rinaldo Leite se depara com o enigma baiano e sofre a ameaça da Esfinge do tempo: decifra-me ou te devoro. Não fomos convidados para este antropofágico banquete. Fomos sim brindados com o casamento do historiador feirense com a bela mulata conterrânea. Rainha destronada, mas ainda rainha.

QUE: livro “A Rainha destronada: discursos das elites sobre as grandezas e os infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas”. Rinaldo Cezar Nascimento Leite. UEFS Editora, 2012.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]