Aurora da Vida | Por Juarez Duarte Bomfim

Juarez Duarte Bomfim
Juarez Duarte Bomfim

AURORA DA VIDA. Diversão do Mestre Raimundo Irineu Serra. Comentada por Juarez Duarte Bomfim

DIVERSÕES DO MESTRE IRINEU

As “Diversões” do Mestre Raimundo Irineu Serra constituem um pequeno conjunto de canções infantis (“Pra pilar”, “Cachiado”); amorosas (“Cantar me apareceu”) e de instrução moral (“Devo acochar o nó”, “Aurora da vida”, “Bom Trabalhador”) cantadas no intervalo dos hinários oficiais ou em outras datas festivas dos centros livres daimistas. São canções entoadas para um divertimento, uma brincadeira. Devem ser acompanhadas por instrumentos musicais e palmas — nunca por maracás.

Discípulos do Mestre Irineu incorporaram outras alegres “diversões” às cinco originais, que hoje são cantadas no mundo inteiro: A Casa é esta (Francisco Ribeiro); Cheguei no Salão (Francisco Grangeiro Filho); São João e Saudamos o grande dia (Tufi Rachid Amim) e o Zigue – Zague (Luiz Mendes do Nascimento).

AURORA DA VIDA

Se eu soubesse eu não tinha nascido
Para hoje eu andar sofrendo
A Piedade me disse
Que que tu andas fazendo?

Sinos que tangem com mágoas doridas
Recordando o sonho da aurora da vida
Mil aventura e suave alegria
Em minh´alma o som da Ave Maria.

Me sentei recostei sobre as mãos
Logo me pus a pensar
Abandonei meus direitos
Joguei nas ondas do mar.

Sinos que tangem com mágoas doridas
Recordando o sonho d´aurora da vida
Mil aventura e suave alegria
Em minh´alma o som da Ave Maria

Banhando-me em águas brancas
Por não ouvir o que disseram
Não foi falta de conselho
Que meus amigos me deram

Sinos que tangem com mágoas doridas
Recordando o sonho da aurora da vida
Mil aventura e suave alegria
Em minh´alma o som da Ave Maria

Meu Deus me perdoai-me
O que que eu vou fazer?
Vivo cumprindo esta sina
Só deixo quando eu morrer

Sinos que tangem com mágoas doridas
Recordando o sonho da aurora da vida
Mil aventura e suave alegria
Em minh´alma o som da Ave Maria

O conselheiro José Francisco das Neves Júnior, o seo José das Neves, nascido em 1908, acreano do município de Xapuri e padeiro de profissão, foi amigo e discípulo de primeira hora do Mestre Raimundo Irineu Serra. Para se ter ideia da importância do seu Zé das Neves para a doutrina do Santo Daime basta lembrar que é o seu jazigo que, ao lado do sepulcro do seu Leôncio Gomes, têm o privilégio de ladear o túmulo e mausoléu do Mestre, no solo sagrado do Alto Santo (Vila Irineu Serra, Rio Branco-Acre).

José das Neves começou a acompanhar Mestre Irineu em sua missão no dia 26 de maio de 1930 e, segundo suas próprias palavras, “trabalhamos juntos até o seu falecimento, 41 anos e 41 dias, exatamente”. Próspero comerciante, não se furtava a sempre ajudar a irmandade reunida por Irineu Serra lá nas terras do antigo Alto da Santa Cruz.

Do casamento de José das Neves com Cecília Gomes, a simpática Dona Preta, nasceu Paulo Serra, assim batizado em homenagem ao tio de Mestre Irineu, aquele que o criou como um verdadeiro pai, lá em São Vicente Férrer, no Maranhão. Quando a terceira esposa de Irineu Serra, a dona Raimunda Feitosa, muda para São Paulo com a mãe, abandonando o seu marido, é dona Percília Matos quem passa a cuidar da criação dos filhos adotivos do Mestre, Paulo e Marta, esta adotada civilmente.

José das Neves teve três esposas, dona Francisca, dona Preta e, por último, dona Ester, com a qual viveu mais de 40 anos, até a sua passagem para o mundo espiritual.

Se eu soubesse eu não tinha nascido
Para hoje eu andar sofrendo
A Piedade me disse
Que que tu andas fazendo?

A história dessa pungente valsa está relacionada a primeira esposa do seu José das Neves, de nome Francisca. Esta senhora abandonou o seu marido e, contam, logo após isso, começou a levar uma grande “peia” da vida, passando toda sorte de atribulações e sofrimentos.

Já desencarnada, ela aparece em espírito ao Mestre Raimundo Irineu Serra e — chorosa e lamentosa — canta este hino para ele. Este é um comovente lamento. A triste mensagem transmitida é de arrependimento por ter nascido e estar sofrendo por ter cometido um grande erro. A própria Mãe Divina, a Mãe de Piedade a tinha alertado para tal impetuoso ato: “A Piedade me disse, que que tu andas fazendo?”

Dona Francisca percebe que não reconhecia ou valorizava o estado de felicidade em que vivia: “banhando-me em águas brancas” e, “por não ouvir o que disseram” jogou fora os seus direitos de mulher honesta e casada; reconhece que fez isso porque quis, pois não faltaram conselhos dos amigos para demovê-la da ideia de jogar fora a sua vida estável, ao lado do seu marido: “joguei nas ondas do mar”. Agora a lei do carma — Lei de Causa e Efeito — a atinge. Ela pede perdão a Deus, mas diz que vai cumprir a sua sina até o final da vida, nesta ou em outra encarnação.

O Mestre Irineu, surpreendentemente, coloca essa triste e comovente valsa entre as suas “diversões”. Entre elas a valsa Aurora da Vida se destaca pela sua encantadora beleza.

Sinos que tangem com mágoas doridas
Recordando o sonho da aurora da vida
Mil aventura e suave alegria
Em minh´alma o som da Ave Maria.

Uma outra surpresa neste hino é que ele contém citação a uma música popular brasileira composta por Erothides de Campos, chamada “Ave Maria”. Do gênero valsa-serenata, é considerada a primeira “Ave Maria” a fazer sucesso na era do rádio que surgia.

Paulista de Cabreúva, Erothides de Campos passou a maior parte da vida em Piracicaba, compondo e tocando vários instrumentos e tinha como profissão ser professor de física e química na Escola Normal Sud Mennucci. “De sobrenome Neves pelo lado materno, ele usava o pseudônimo Jonas Neves quando fazia letras, como é o caso desta canção, que muitos pensam ser de duas pessoas”.

“Composta em 1924 e lançada em disco em 1926, por Pedro Celestino, “Ave Maria” somente ganhou sua gravação ideal em 1939, quando Augusto Calheiros soube valorizar o clima de nostalgia e misticismo romântico que marca a composição. Uma prova do sucesso nacional de “Ave Maria” é a valsa “Cheia de Graça”, escrita em Recife, no final dos anos vinte, por Nelson Ferreira e Eustórgio Wanderley, em homenagem a Erotides de Campos. O curioso em “Cheia de Graça” é que a canção repete as notas iniciais da “Ave Maria”, só que em escala descendente, ao contrário do original”.

Assim, ficamos sabendo que a canção do Erothides de Campos tem pelo menos duas importantes citações, uma delas vinda do plano Astral.

O bardo santamarense Caetano Veloso, caçadr de pérolas da Música Popular Brasileira, a gravou em 1999, no álbum Ommagio a Federico e Giulietta.

A seguir o link da versão de Caetano Veloso, com letra e cifra da valsa-serenata:

Ave Maria

———-Bm ——Gb7—– Bm——- Em—- B7—— Em
Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor
———-G7——– Em—– Bm——- A7—— G7—— Gb7
Despertando no meu coração a saudade do primeiro amor!
———-Bm——– Gb7——- Bm B7 ———Em —-B7—– Em
Um gemido se esvai lá no espaço, —-nesta hora de lenta agonia
————–G7 ——Em—— Bm ——A7——- Gb7 —-Bm
Quando o sino saudoso murmura badaladas da “Ave-Maria”!

————-A7——————- D—————— A7 ——————-D
Sino que tange com mágoa dorida, recordando sonhos da aurora da vida
——————-B7 ————–G7 —–Em– Bm— Gb7 –Bm Gb7
Dai-me ao coração paz e harmonia, na prece da “Ave Maria”!

Cai a tarde tristonha . . .. (repetir a 1a. Estrofe)

——–B— Gb7—– B———– G7—– Gb7—— Bm
No alto do campanário uma cruz simboliza o passado
————-B7———— Em ——————Bm—– Gb7— Bm
De um amor que já morreu, deixando um coração amargurado
——-B—- Gb7—– B ———–G7—– Gb7— Bm
Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia
———–B7————— Em ——G7— Em– Bm —Gb7– Bm (Bm)
A mensagem do meu passado quando o sino tange “Ave Maria”

Erothides de Campos (1924)
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O amigo e/ou irmão que quiser conhecer outros estudos do
Hinário O Cruzeiro Universal
do Mestre Raimundo Irineu Serra
podem acessar o site
http://www.mestreirineu.org/liberdade.htm

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]