O batismo de Maria Clara | Por Juarez Duarte Bomfim

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Certo dia Jesus saiu de Nazaré da Galileia para o Jordão, ao encontro de João a fim de ser batizado por ele. Mas João se recusava dizendo:

— Eu sou quem devo ser batizado por vós, e vós vinde a mim?

— Deixa por agora, respondeu Jesus, porque assim nos convém cumprir toda a justiça.

Diante disso, João consentiu.

Logo que Jesus saiu da água, os céus se abriram, e o Espírito Santo como pomba desceu sobre Ele. E ouviu-se uma voz dos céus, que dizia:

— Tu és o meu Filho amado em quem me comprazo.

Assim é narrada a história do batismo do Nosso Senhor Jesus Cristo.

Zona rural de Boca do Acre, Amazonas, noite de 09 de fevereiro de 2013. Na Colônia de São Francisco das Chagas vai começar a celebração litúrgica de Obras de Caridade, abertura do Retiro Espiritual deste ano.

É cantado o salmo Culto Santo e os demais hinos de abertura, abre-se as cortinas do templo, são feitas as rogativas de pedido de guarnição para os irmãos iniciarem a viagem no Barquinho Santa Cruz, navegando na Santa Luz do Daime, rumo aos Santos Pés de Jesus, tendo por companheira a Rainha Santa Fé.

O Culto Santo é simples, todo estruturado na forma de orações e cânticos, com um puxador dos salmos e o coral de irmãos presentes no salão respondendo uníssono, cantando o refrão.

Quando cânticos de louvor se elevam das vozes dos homens aos céus, Deus, Ele mesmo, desce para conceder a sua graça. Quando cânticos de louvor descem do Céu a Terra, Deus, Ele mesmo, nos abençoa com a sua Santa Presença.

Esta é uma celebração especial, só realizada uma vez ao ano. No meio da floresta, da mesma maneira como Mestre Daniel Pereira de Mattos iniciou a sua Missão Espiritual.

Pela sagrada noite de hoje serão realizados batismos de crianças e atendimento nas obras de caridade aos irmãos necessitados de uma cura física, emocional e espiritual, pelos seres curadores que dão a sua parcela de ajuda na Missão de Frei Daniel.

Os irmãos amigos Gessé Martins e Rubya Mara trazem a sua filhinha Maria Clara para receber o sacramento do batismo.

O significado do batismo é de ingressar os nossos filhos nas hostes cristãs, para aceitarem a Deus Jesus como o seu Salvador e Redentor.

Histórico do batismo de crianças no C.E.C.O “CJ-FL”

No início dos anos 1970 os membros desta irmandade daimista encontravam dificuldades para batizar os seus filhos como cristãos, devido a negativa de muitos padres de assim proceder — denotando preconceito e discriminação com os participantes da comunidade que fazia o uso religioso do Daime.
O Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus — Fonte de Luz” instituiu o sacramento do batismo de crianças da irmandade na década de 1960. Este sacramento acabou sendo estendido aos habitantes de toda a cidade de Rio Branco, que buscavam usufruir desse benefício — mas tal prática não foi reconhecida pela Igreja Católica, que manteve uma postura de difamação e descaso.

Depoimento do Presidente Manuel Hipólito de Araújo (1977-2000), à época:

— Iniciei a fazer os batismos e agora, todo domingo, eu atendo as crianças que em outras comunidades não podem, não tem tempo de fazer o curso do batizado que eles exigem. Então, muitas vezes, as crianças fazem o curso do batizado junto com os pais, junto com os padrinhos, porque falham um dia, dois ou três não é atendido na consagração do batismo das crianças. Então, eles não têm oportunidade de fazer e de batizar suas crianças, então, eles correm pra cá, porque eu acabei nesta casa com esse negócio de curso de batizado, no dia da consagração do batismo, eu procuro a conscientizar os pais, os padrinhos, da responsabilidade que vão assumir em ser padrinho.

A reação católica foi expressa publicamente em um Boletim da Prelazia do Acre e Purus, de agosto de 1984, assinado por Dom Moacyr Grechi, bispo da Igreja do Acre e Purus (atual Diocese de Rio Branco) desqualificando o batizado daimista.

As relações entre esta Casa de Jesus e a Igreja Católica só foram pacificadas após uma reunião no Palácio do Bispo, da qual participaram Dom Moacyr, o presidente do Centro Espiríta Manuel Hipólito de Araújo, seu filho Francisco Hipólito de Araújo Neto e um advogado da Missão.

— Meu querido irmão Manuel, me disseram aqui que o meu irmão está fazendo batizado com a minha ordem, lá na sua comunidade.

— Reverendíssimo Dom Moacir, não é verdade isso, eu não estou fazendo batizado com a sua ordem, quem lhe disse faltou com a verdade.

— Com a ordem de quem, em nome de quem o senhor está fazendo?

— Em nome de Deus Pai, Deus Filho e de Deus Espírito Santo, e me acho com direito, e também dá o que tenho aos meus queridos irmãos necessitados.

Assim foi legitimado o batismo no Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus — Fonte de Luz”, Igreja Espírita Apostólica Cristã, designação dada pelo Velho Pastor Frei Manuel.

O batismo nesta casa espírita se realiza com cinza e água. A cinza recolhida da fogueira de São João – o verdadeiro batizador – representa o fogo sagrado; e a água representa o Rio Jordão, onde João batizou Jesus e Jesus batizou João, segundo a original cosmologia daimista.

Papai Gessé e mamãe Rubya estão felizes, com o sentimento de missão cumprida, ao iniciaram o seu rebento na vida cristã. Assim também estão os demais pais e padrinhos das crianças batizadas.

Chove há de chover
Lindas chuvas de luz
Sobre as crianças
Que se batizam nesta Casa
Com o sagrado nome
De Deus Jesus

Após o batismo das crianças, inicia-se o atendimento no salão de obras de caridade. Salmos de cura são maviosamente entoados, trazendo as invocações e o conforto aos irmãos necessitados.

Baixou agora nesta mesa
O santo poder curador
Seis Querubins, seis Serafins
Primeiro Jesus Salvador.

Finalizando o trabalho na Igreja, cantam-se os salmos de encerramento e fecham-se as cortinas do templo, abertas para sempre. Logo após dá-se início o segundo ato, o bailado no Parque, onde as hostes invisíveis descem para se confraternizar com os mortais, na dança circular sagrada, em comunhão na festa do Senhor.

Os hinos-pontos cantados nos festejos do Parque saúdam as entidades dos mistérios do Céu, da Terra e do Mar que trabalham nesta casa espírita, e descem ao círculo sagrado para confraternizar com os irmãos encarnados que bailam na festa do Senhor — irradiando todos os presentes com as suas divinas presenças.

São orixás, caboclos, pretos velhos e erês; reis, rainhas, príncipes e princesas das moradas eternas do Pai. E também os Encantos do Céu, da Terra e do Mar que se manifestam como botos, fadas, sereias, cobras, peixes etc., e se apresentam como oficiais da Casa para dançar junto com os presentes no sacro terreiro do templo.

Troco-troco vem chegando
Troco-troco já chegou
Reforço em Cavalarias
Que Jesus Cristo mandou.

A alegre noite se encerra e todos vão ao merecido descanso, com a Bandeira da Paz e a Santa Cruz Bendita lhes acobertando e protegendo.

A Paz de Deus acompanhe a todos.

Para sempre, Amém.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]