Folclore político feirense. Parte 2

Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

A redemocratização brasileira terá um marco nas eleições parlamentares de 1978, ano em que a “abertura lenta, gradual e segura” resulta em eleições relativamente livres para a Câmara Federal e assembleias legislativas. Já para o Senado esta eleição estará irremediavelmente maculada com o estabelecimento da “eleição biônica”.

Um terço dos senadores não foram sufragados pelo voto direto e sim referendados após uma indicação do presidente da República (ditador militar), os chamados senadores biônicos. Esse artifício antidemocrático assegurou maioria ao partido do Governo, a Arena, na Câmara Alta.

Porém, a relativa liberdade da qual falamos resultou em ruidosos e festivos comícios de rua, naquela primavera de 1978, com destaque para a participação e militância estudantil, cujo movimento assumiu posição de vanguarda na luta contra a Ditadura Militar.

Parte considerável do Movimento Estudantil baiano assumiu a candidatura do político feirense Francisco Pinto, então uma lenda entre os mais jovens, pela sua bravura no combate à Ditadura Militar.

Eleito prefeito do município em 1962, Chico Pinto teve o mandato cassado e assim fez opção pela oposição após a queda de João Goulart em 31 de março de 1964, e nessa condição fundou a seção baiana do MDB em 1966.

Eleito deputado federal em 1970, logo divergiu da orientação moderada existente no partido e foi um dos fundadores do “grupo autêntico” do MDB cuja postura sinalizava uma ação mais contundente em relação ao poder militar.

O ano de 1974 foi marcado por um acontecimento ímpar em sua biografia, pois na véspera da posse de Ernesto Geisel em 15 de março, Chico Pinto concedeu uma entrevista à Rádio Cultura de Feira de Santana na qual denunciou a ditadura chilena de Augusto Pinochet numa manifestação considerada ofensiva pelas autoridades brasileiras.

De imediato o Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel) determinou o fechamento da emissora (que só seria reaberta em 26 de julho de 1985) e o governo abriu um processo que resultou em seis meses de reclusão para Chico Pinto, em julgamento realizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 10 de outubro de 1974. Após cumprir a pena no 1º BPM de Brasília foi submetido a oito processos e também a Inquéritos Policiais Militares.

A campanha eleitoral vitoriosa (1978) que o reconduziu à Câmara dos Deputados tem episódios picarescos, alguns deles reais, outros inventados… e assim se constrói o folclore político. Tal como o mito, o folclore político não necessita de comprovada veracidade.

Os comícios de rua eram enfeitados por bandeiras de “torcidas organizadas” pintistas, vindas de Feira de Santana a Salvador. Bandeiras vermelhas com um pinto desenhado ao centro. Sim, pinto mesmo, filhote de galinha.

O uso de indefectível gorro compunha a imagem do candidato, junto à sua também indefectível barba. O atraso na chegada aos comícios era outra marca. Um desses atrasos foi imputado ao fato de, já na entrada de Salvador, Chico Pinto dá-se conta de que esquecera em casa (FSA) o seu indefect…, digo infalível gorro.

Enquanto era efusivamente anunciado no palco, sob delirante ovação prévia da plateia, Chico Pinto se aquecia. Sim, fazia aquecimento físico com simulação de corrida, um pouco atrás da primeira fileira do palanque.

Ah a história: havia um outro candidato emedebista (MDB), de grande parecença física com Chico Pinto. Porém, sem tanto prestígio de campanha. Diz-se que este candidato — do qual declinarei o nome — em alguns redutos eleitorais do interior do Estado da Bahia, ao ser confundido com Chico Pinto, não “perdia a viagem” e, nos seus comícios entusiasticamente recomendava:

— Não vote em mim, Chico Pinto, que já estou eleito. Votem no meu amigo e correligionário Moura Neves (nome fictício)!…

Houve alguns dissabores, pois o candidato Moura Neves foi obrigado a sair fugido de algumas cidadezinhas, ao ser desmascarada a sua farsa.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]