Carnaval 2013 | Por João Baptista Herkenhoff

João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado e escritor.
João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado e escritor.

Estamos, de norte a sul do Brasil, em clima de Carnaval e meu artigo de hoje embarca neste clima. Não quero me aventurar em outros temas. Correria o risco de receber cartas de protesto de leitores que vissem, num eventual silêncio, oposição a esta festa popular. Este foi aliás o erro em que incorreu o engenheiro agrônomo Manoel Inácio de Basto. Segundo o registro histórico, ele realizou em 1932 testes e experimentos em Lobato (Bahia) e chegou à conclusão de que havia abundância de petróleo naquele chão. Seguiu viagem para a Capital Federal a fim de comunicar o fato ao Presidente da República e aos jornais. Chegou porém ao Rio em pleno Carnaval. A opinião pública estava galvanizada em torno do desfile das escolas de samba, desfile esse que seria o primeiro no Carnaval carioca. Ninguém queria saber de descoberta de petróleo naquele momento. Manoel Inácio guardou a viola no saco e voltou para Salvador.

O Carnaval é expressão de cidadania e uma das formas de “ser pessoa”. Na presença entusiasmada da gente mais simples do povo em blocos de Carnaval, o que subjaz é a busca de identidade, tão forte na alma humana. Quem pertence a uma escola de samba tem endereço, raiz, deixa de ser alguém sem lenço e sem documento.  Vibremos com as escolas, gostando ou não gostando de Carnaval. Tenhamos sensibilidade para ler o rosto feliz dos sambistas.

A sede humana de identidade e reconhecimento me relembra andanças pelo interior do Espírito Santo como juiz. Surpreendi centenas de casos de pessoas sem nome civil. Efetivado o registro cartorário e tendo em mãos a certidão de nascimento, as pessoas que passavam a existir juridicamente abriam um largo sorriso.

Também se constata a busca de “ser pessoa” nas praias apinhadas de gente. “Ser pessoa”, neste caso, é sentir-se participante da sinfonia de vida, ao balanço das ondas, no burburinho das vozes, no murmúrio do mar. Todos os entraves que obstaculem a vivência dessa dimensão do “ser pessoa”, como privatizar praias, merecem repúdio.

Bela saga do povo brasileiro nesta luta para “ser pessoa”: o sambista que se torna pessoa sambando; a pessoa física que se torna juridicamente pessoa através do registro civil; o banhista que se torna  pessoa sorvendo o horizonte infinito que não tem dono. A todos pertence.

*João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado, professor itinerante e escritor.

João Baptista Herkenhoff
Sobre João Baptista Herkenhoff 444 Artigos
João Baptista Herkenhoff possui graduação em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (1958) , mestrado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1975) , pós-doutorado pela University of Wisconsin - Madison (1984) e pós-doutorado pela Universidade de Rouen (1992) . Atualmente é PROFESSOR ADJUNTO IV APOSENTADO da Universidade Federal do Espírito Santo. Contato: Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Departamento de Direito. Avenida Fernando Ferrari, 514 | Goibeiras 29075-910 - Vitoria, ES - Brasil | Home-page: www.jbherkenhoff.com.br |E:mail: [email protected] | Telefone: (27)3335-2604