Reencarnacionismo

O Jornal Grande Bahia (JGB) é um site de notícias com publicações que abrangem as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador, dirigido e editado pelo jornalista e cientista social Carlos Augusto.
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Em inúmeras civilizações e religiões da Antiguidade já era presente a doutrina de reencarnação, como no Egito Antigo, no hinduismo, no budismo e na crença dos judeus (a Kabbalah). A igreja cristã primitiva aceitava a doutrina da reencarnação, a qual foi divulgada pelos gnósticos e por vários doutores da igreja, como Clemente de Alexandria, Orígenes e São Jerônimo (Século V).

Na Era Moderna, foi Alan Kardec (1804-1869), o codificador do espiritismo, quem, n’O Livro dos Espíritos define a doutrina da reencarnação como “a que consiste em admitir para o Espírito muitas existências sucessivas”; a “roda de sansara” para os budistas, os ciclos de nascimento e morte aos quais estamos condicionados, antes da libertação final.

Subjacente a doutrina reencarnacionista está o frequente contato entre o mundo dos vivos e dos mortos, isto é, as comunicações entre o mundo material, dos encarnados, com o mundo espiritual, dos desencarnados. Tanto no Velho como no Novo Testamento existem muitas passagens que atestam essas comunicações, como a consulta que o rei Saul fez ao espírito do profeta Samuel, através da médium de En-Dor.[1]

Comentando sobre essa passagem bíblica, Santo Agostinho admite: “Eis uma questão que ultrapassa as possibilidades da minha inteligência: como os mártires, que sem dúvida alguma vêm em ajuda de seus devotos, aparecem”.[2]

Santo Tomás de Aquino, por sua vez, conta “que os mortos apareçam aos vivos desta ou daquela maneira, isso pode acontecer por uma disposição especial de Deus, que quer que as almas dos mortos intervenham nos negócios dos vivos”.[3]

Para aqueles que abraçam a doutrina reencarnacionista, é mais que evidente que, quando Jesus se refere a João Batista, Ele testemunha que “é este o Elias que havia de vir”,[4] porém “não o conheceram, mas fizeram-lhe tudo que quiseram”,[5] isto é, o assassinaram, como também o fariam ao Salvador. Os discípulos entenderam que Jesus lhes falara que o profeta Elias reencarnara como João, o Batista.[6]

O cristianismo primitivo era reencarnacionista e mantinha um estreito contato entre o mundo terreno e o mundo espiritual, como atestam os romances históricos do Espírito Emmanuel, trazidos à luz pela psicografia de Francisco Cândido Xavier.[7]

Entretanto, foi no Concílio de Constantinopla, em 553 D.C, que a Igreja se posicionou contra a existência da reencarnação, por considerar a noção de reencarnação herética e contrária à crença na ressurreição dos corpos no dia do Juízo Final.

A condenação da doutrina da reencarnação se deve a uma ferrenha oposição pessoal do finado imperador Justiniano. Segundo o historiador Procópio de Cesárea, Teodora, a ambiciosa esposa de Justiniano, ex-cortesã, iniciou uma rápida ascensão no Império. Para se libertar do passado que a envergonhava, ordenou a morte de quinhentas colegas de ofício e, acreditando que assim não sofreria as consequências dessa ordem cruel em uma outra vida, empenhou-se em suprimir a doutrina da reencarnação.[8]

Porém, sabemos que as mudanças na história das ideias não ocorrem por vontade individual, e a supressão da doutrina da reencarnação dos cânones católicos aconteceu por que numerosos cristãos na época consideraram que a doutrina da reencarnação garantia ao homem tempo demasiado vasto, que podia desestimulá-lo a lutar por sua salvação imediata.[9]

No cristianismo moderno, a crença na reencarnação dos mortos sobrevive nas correntes doutrinárias denominadas espíritas: kardecista, afro-brasileiras sincretistas, dentre outras.

Na tradição ayahuasqueira, está presente nas doutrinas reveladas pelos mestres Raimundo Irineu Serra, Daniel Pereira de Mattos e José Gabriel da Costa, surgidas na Amazônia Ocidental brasileira.

A mediunidade é um fenômeno espírita, de comunicação com o mundo invisível. O fato mediúnico se manifesta como psicográfico e psicofônico, quando o “aparelho” entra em contato com o mundo invisível, onde encontra entidades desencarnadas e seres de outros planos astrais, característica espírita.

A reencarnação, isto é, licença divina para uma outra oportunidade na Terra, é a prova inconteste do amor e misericórdia de Deus por seus filhos. É a oportunidade de reparação, de regeneração, do cumprimento de missão e iluminação espiritual.

Pela doutrina espírita, quando encarnados não nos é permitido lembrar de outras existências, a não ser para algum fim edificador. Por isso, só nos resta torcer para que, se estivéssemos aos pés do Crucificado quando da sua morte — anterior à ressurreição — que tenhamos tomado parte ao lado dos que choraram a morte do Salvador…

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[1] I SAMUEL 28:7-25.

[2] SANTO AGOSTINHO, O cuidado devido aos mortos. cap. 16, 20

[3] SANTO TOMÁS DE AQUINO, Suma de Teologia. Q. 89, artigo 8

[4] S. MATEUS, 11:14.

[5] S. MATEUS, 17:12.

[6] S. MATEUS, 17:13.

[7] Há dois mil anos; 50 anos depois; Ave, Cristo; Paulo e Estevão. Todos publicados pela Federação Espírita Brasileira.

[8]

[9] PARAMAHANSA YOGANANDA. Máximas de. Impresso na Coréia: Self-Realization Fellowship, 2001.

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]