Mulheres: dalits da Índia

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

Imaginem a intrigante cena: dois respeitáveis senhores, de mãos dadas, vestindo saias, passeando tranquilamente pela rua de uma populosa cidade… Poderiam estar também abraçadinhos…

Se esta cena ocorresse na cidade de São Paulo, capital do orgulho gay brasileiro, certamente seria uma cena gay da urbanidade paulistana, ou de qualquer metrópole mundial.

Todavia, o mesmo não ocorre na Índia. Dois homens de mãos dadas ou abraçados não significa necessariamente comportamento homossexual.

Sim, existe movimento gay na Índia, e os jornais de Nova Delhi estampam frequentemente notícias do lobby do movimento homossexual por direitos civis junto ao Parlamento indiano. Por exemplo, a reivindicação de legalização da união entre pessoas do mesmo sexo (casamento gay).

Mas não é este o caso ao qual me refiro. Numa sociedade onde existe uma rígida separação entre os sexos, os meninos, (futuramente adultos) são privados do convívio com meninas, sejam elas irmãs, colegas ou amiguinhas. Sendo assim, manifestações públicas de afeto entre rapazes e homens são comuns e freqüentes, sem qualquer conotação homoerótica.

Este preâmbulo foi feito para ilustrar o preocupante lugar da mulher indiana naquela sociedade. Pois esta rígida separação entre sexos, apesar de cultural, vem em detrimento das mulheres. Um verdadeiro apartheid social do qual elas são vítimas.

É dito que a primeira luta das indianas é pelo direito de nascer. As modernas tecnologias possibilitam conhecer o sexo biológico do bebê antes do seu nascimento, nos primeiros meses de gestação. Para muitas famílias pobres, é um “peso” ter uma filha mulher por causa do dote a ser pago para o noivo no momento do casamento. Por esse motivo, as mulheres não são bem vindas, sendo muito comum a prática do aborto quando se descobre que o bebê é do sexo feminino. Também não são raros os casos de infanticídio feminino.

Devido a isso os testes clínicos para revelar o sexo do bebê são proibidos na Índia. O que não significa que não sejam feito clandestinamente.

Surpreendente também são os dados demográficos da Índia, pois diferente de muitos outros países do mundo, naquele país a população masculina é superior à população feminina. Por que será?

Existem lutas coletivas e estratégias individuais contra a opressão feminina na Índia. Mulheres que trabalham fora são mais expostas à agressão machista. Por exemplo, mulheres desacompanhadas são hostilizadas nos vagões de trens e metrôs repletos de homens, que se acham no direito de molestar as mulheres que se aventuram a bordo.

Em Mumbai, por pressão do movimento feminista, foram instituídos vagões só para as mulheres nos trens. A guia turística da excursão de brasileiros, a simpática Lakshmi, nos relatou que leva sempre um alfinete entre os dedos para, ao notar a aproximação de algum homem mal intencionado dentro do metrô de Nova Delhi, querendo lhe “passar a mão”, o desestimular de nefasto ato, alfinetando o molestador.

Ah… e a senhorita Lakshmi, cujo sonho é casar e na lua de mel vestir biquíni nas praias de Goa, se recusa a aceitar a venda da única propriedade da mãe viúva, com o objetivo de dar em dote a algum pretendente à sua mão.

Na sociedade onde ainda existem os dalits (casta inferior, considerados párias, excluídos, intocáveis, impuros), mulheres e homens excluídos sociais sobrevivem recolhendo dejetos humanos, limpando os toaletes e coletando o lixo das ruas.

Com a Independência da Índia algo já se fez, e nas regiões de influência dos mestres espirituais da Índia a mulher é dignificada. Mas ainda há muito para se fazer.

Os movimentos sociais de protesto contra a violência sexual sobre as mulheres se constituem em significativos atos de não aceitação desta perversa realidade e a reafirmação da maior doutrina política que a Índia legou ao mundo: ahimsa – não-violência.

Sobre Juarez Duarte Bomfim 741 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]