A Opinião de Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi | Por Juarez Duarte Bomfim

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.
Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi

Amigos

tive a felicidade e o privilégio de ser presenteado com um primoroso livro-álbum denominado “Opinião. Maria Stella de Azevedo Santos, Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá”, com o subtítulo “Um presente de A TARDE para a História”.

É uma coletânea, graficamente muito bem cuidada, dos artigos que esta célebre sacerdotisa brinda a nós baianos, quinzenalmente, em coluna daquele respeitável jornal.

Em tom coloquial, como se estivesse conversando com a gente na varanda de sua casa, Mãe Stella compartilha um pouco da sua imensa sabedoria, aprendida diretamente dos deuses, vindos lá dos reinos encantados de Olorum.

Sobre a sua proclamada sabedoria — apregoada por seus leitores e admiradores, é bom registrar — ela afirma: “… falam sobre minha ‘sabedoria’. Se é que existe alguma, ela está no fato de que eu nunca me canso de buscar o conhecimento em todas as áreas da vida, mas principalmente sobre a religião que pratico, pois temos obrigação de conhecermos, o mais profundamente possível, as bases que sustentam a crença que praticamos”.

Como cidadã consciente e bem informada, Mãe Stella escreve sobre todos os assuntos que interessam a um individuo comum: comportamento, cotidiano, filosofia, arte… Porém, o melhor dos seus ensinos é quando ela escreve sobre o seu misterioso culto — Candomblé.

Didaticamente, como boa professora, ela transmite a nós, leigos da rica religiosidade ioruba, coisas sobre o surgimento do cosmo (cosmogonia), como realizam sua liturgia (rituais públicos), seus dogmas (verdades inquestionáveis de um grupo) e praticam seus rituais (cerimônias realizadas em momentos específicos).

Mãe Stella assim se revela para diminuir preconceitos e discriminações que o povo de santo ainda venha a sofrer. Religião de oprimidos, durante séculos foi duramente perseguida, e ainda hoje sofre discriminações.

Entretanto, muitas conquistas sociais, institucionais e jurídicas foram alcançadas pelos cultos afro-brasileiros, como o respeito e a salvaguarda pelo Estado brasileiro. Respeito e salvaguarda que almejam alcançar um dia os cultos ayahuasqueiros, ao qual o candomblé cedeu o lugar de religião mais perseguida e discriminada no território nacional.

Pois os cultos ayahuasqueiros, que fazem uso de uma milenar bebida sacramental de origem indígena, estão a todo instante ameaçados pelo aparato institucional do Estado, que promovem duas políticas: salvaguardas de um lado e, do outro, incertezas.

Voltando ao povo de santo e o público em geral: aqueles que não tiverem a felicidade e o privilégio de terem em mãos um exemplar de tão primoroso livro-álbum, poderá aprender com a sábia sacerdotisa Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, lendo os mesmos artigos, disponíveis no site http://mundoafro.atarde.uol.com.br/?p=5065 .

Transcrevo a seguir um destes ensinamentos. Boa leitura!

 Ritual e sacrifício

Maria Stella de Azevedo Santos

“Este é o último artigo que comenta sobre o “corpo religioso” do candomblé, da maneira como ele é professado no terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, onde fui iniciada e me tornei iyalorixá. Já foram feitas observações sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais alcançam todo seu potencial.

A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?

A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.

Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.

Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 742 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]