Que um prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia

Dique do Tororó, Salvador.
Dique do Tororó, Salvador.
Dique do Tororó, Salvador.
Dique do Tororó, Salvador.

As capitais brasileiras readquirem o direito a eleger os seus governantes. O bardo santamarense Caetano Veloso brada: “a mim me bastava que o prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia”…

O seu amigo e parceiro musical Gilberto Gil anseia entrar na vida pública e lança sua pré-candidatura. A classe política baiana rejeita este estranho no ninho, mas o aceita como cabo eleitoral e alavanca da candidatura de Mário Kertész.

A eleição de Gilberto Gil a vereador atrai a midia nacional a Salvador. A pedante e intelectualizada Folha de São Paulo talvez acreditasse que era chegada a hora da intelligentsia no poder, que daria um jeito na Cidade da Bahia.

O curto mandato da administração Mário Kertész (1986-1988) não deu um jeito na “Cidade da Bahia”. E seu governo encerrou com um grande endividamento municipal e denúncias de malversação de recursos públicos. Porém, na democracia recém-inaugurada instituiu-se um forte marketing político que será a marca das gestões públicas brasileiras e das campanhas eleitorais seguintes, induzindo inclusive o voto do eleitor.

Duas outras trágicas administrações municipais sucederam a esta de Mário Kertész, que nunca mais se elegeu para nada, mas se tornou um pesado e influente radialista baiano.

Na era dos comunicadores sociais de grande alcance popular, um radialista de nome Fernando José se elege alcaide da Soterópolis para a gestão 1989-1992, e a outrora bela e encantadora Cidade da Bahia cai na maior degradação urbana que se pode imaginar.

Era um momento histórico em que pouco se esperava das municipalidades, devido à centralização administrativa e financeira nas esferas do Estado e da União. O prefeito que conseguisse pelo menos tapar os buracos das ruas, trocar as lâmpadas queimadas dos postes e coletar o lixo das casas satisfaria a maior parte dos cidadãos.

Porém, Salvador é totalmente abandonada e nas montanhas de lixo que se acumulavam se multiplica uma mosca gigante que a população logo batiza de prefeito Fernando José. Mas não se aproveitou a oportunidade para se abater tal mosca, e a violentada população sofre as agruras desta péssima administração. O que viria depois? A besta do apocalipse?

A população elege como próxima prefeita uma então jovem política de oposição, Lídice da Mata, que encarnava o espírito de oposição carlista, isto é, oposição ao caudilho baiano Antonio Carlos Magalhães.

Esta será uma tão desastrada administração como a do fatídico radialista Fernando José. E a urbe se degrada ainda mais.

Curiosamente, a trágica passagem de Lídice da Mata pela administração municipal de Salvador não arranhou a sua imagem política e, paradoxalmente, esta tem sido uma personagem política de sucesso. Inclusive, na atualidade, ela é senadora da República pelo Estado da Bahia.

A sanha de se perpetuar no poder político nacional leva a presidência da República na era FHC (1995-2002) a submeter o Congresso e aprovar a possibilidade de um segundo mandato para os governantes.

Desde então a Cidade do Salvador passou por mais duas longas administrações: a de Antonio Imbassay (1997-2004) e a de João Henrique Carneiro (2005-2012), que ora se finda.

Diferente do passado, hoje as responsabilidades e atribuições das municipalidades são vastas. Açambarca, por exemplo, a saúde pública, o ensino fundamental, a segurança, infraestrutura urbana etc.

Salvador sofreu uma paralisia de investimentos em todos os setores sociais e urbanos. Tornou-se uma péssima cidade para se viver.

Começamos este modesto artigo citando dois dos “Doces Bárbaros”, então, vamos citar mais um. A cantora baiana Gal Costa, que vendeu a sua confortável vivenda no bairro do Rio Vermelho e deu adeus à Bahia, disparou recentemente: “não tenho nenhuma saudade da Bahia. Vejo a Bahia muito malcuidada. Os governantes não estão cuidando da Bahia como deveriam”.

Os problemas mais visíveis e que afetam o cotidiano da população são os de mobilidade urbana e de segurança. Não temos mais o direito à cidade.

Há luz no fim do túnel?

Parecem cínicas as pretensas soluções aventadas pelos governantes de plantão, como, por exemplo, a realização de mega-obras tipo a ponte Salvador-Itaparica. Pergunta: pelo rítmo das obras públicas na Bahia, quando tal ponte ficaria pronta?

(Esta é uma indagação do cidadão, não do ávido empreiteiro em se locupletar com obras intermináveis e suspeitas de superfaturamento).

28 de outubro vamos mais uma vez as urnas, tentar eleger um prefeito que dê um jeito na Cidade da Bahia.

Como diria o cantor Raul Seixas: Era de Aquarius ou mera ilusão?

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]