Hobsbawm e sociedades boas | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal. (Foto: Carlos Augusto | Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal. (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal. (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)

Os países devem abandonar a ortodoxia do crescimento econômico a todo custo e dar mais atenção à igualdade social. A tese foi defendida por Eric Hobsbawm há coisa de três anos, em Bosco Marengo, na Alexandria, em conferência realizada por ele no primeiro dia do World Political Forum, tentando responder à pergunta sobre qual o futuro depois do comunismo, e por depois do comunismo entenda-se o fim da experiência soviética e dos demais países do Leste socialista. O século breve, como ele denominou o século XX, foi marcado, como disse na conferência, por um conflito religioso entre ideologias laicas.

Aquele século foi dominado pela contraposição de dois modelos econômicos – o “socialismo”, e as aspas são dele, identificado com economias de planejamento central tipo soviético, e o “capitalismo”, também devidamente aspeado por ele, que englobava todo o resto. Essa contraposição nunca foi realista, na opinião dele. Todas as economias modernas devem combinar público e privado de vários modos e em vários graus, e de fato fazem isso. Faz tremer os que copiam fórmulas, à direita e à esquerda. O exclusivismo de um e de outro faliu. As economias de modelo soviético lá pelos anos 80 do século passado. As do fundamentalismo de mercado anglo-americano com a crise que eclodiu em 2008.
O fim do socialismo foi catastrófico. As repercussões seguem até hoje, ao menos nos países vinculados de alguma forma à ex-URSS. A China preferiu outro caminho capitalista, diferente do neoliberalismo, e abriu caminho, então, para seu impressionante salto econômico para frente, com muita pouca preocupação e consideração pelas implicações sociais e humanas. Mesmo que não se domine todas as conseqüências da crise atual, deflagrada em 2008, não havia dúvida, para ele, de que estava em curso uma alternância de grandes proporções das velhas economias do Atlântico Norte para o Sul do planeta e principalmente para a Ásia Oriental.

Não estava preocupado em delinear a economia do amanhã, para ele o aspecto menos relevante. A diferença essencial entre os sistemas econômicos, dirá, não reside na sua estrutura, mas nas suas prioridades sociais e morais. E toca em dois pontos para sustentar o que diz. Primeiro, acredita que o fim do socialismo, com a derrocada dos países socialistas do Leste e da ex-URSS, implicou o desaparecimento repentino de valores, hábitos e práticas sociais que marcaram a vida de gerações inteiras. Muitas décadas se passarão até que as sociedades pós-socialistas encontrem alguma estabilidade no seu modo de viver.

O segundo ponto é que tanto a política ocidental do neoliberalismo quanto as políticas pós-socialistas que inspirou subordinaram o bem-estar e a justiça social à tirania do PIB. O objetivo da economia não é o ganho. É o bem-estar de toda a população. O crescimento econômico não é um fim. É um meio para dar vida a sociedades boas, humanas e justas. Por isso, ao pensar assim, em outro momento, considerando o processo de distribuição de renda no Brasil, disse que “Lula foi o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil”. Porque vinculou sempre crescimento econômico com melhoria efetiva das condições de vida do povo.

“Não importa como chamamos regimes que buscam essa finalidade – bem estar de toda a população. Importa unicamente como e com quais prioridades saberemos combinar as potencialidades do setor público e do setor privado nas nossas economias mistas. Essa é a prioridade política mais importante do século XXI”.

Hobsbawm atravessou quase todo o século XX. Nasceu no ano da Revolução Bolchevique. Reproduzi essa reflexão para lembrar o quanto o seu pensamento continua atual, o quanto era capaz de refletir sobre os desafios do nosso tempo. O quanto tinha de não-dogmático. Quanta capacidade tinha de seguir adiante, sem perder suas referências centrais, herdadas de sua militância comunista. De alguma forma, sem mistificação, podemos dizer que um homem assim não morre. Perdura pelos séculos, pelo extraordinário legado de pensamento que nos deixa. O legado de historiador que conseguiu sempre ligar passado, presente e futuro. Exemplo de vida.

*Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal.

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