Baianas recebem homenagem histórica

O governador Jaques Wagner garantiu que as baianas de acarajé terão acesso a nova Arena Fonte Nova durante a Copa do Mundo.
O governador Jaques Wagner garantiu que as baianas de acarajé terão acesso a nova Arena Fonte Nova durante a Copa do Mundo.
Assinatura do decreto de registro no "Livro do Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer o Ofício das Baianas de Acarajé como Patrimônio Imaterial da Bahia" e inauguração do Salão de Atos da Governadoria.
Assinatura do decreto de registro no “Livro do Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer o Ofício das Baianas de Acarajé como Patrimônio Imaterial da Bahia” e inauguração do Salão de Atos da Governadoria.

Em clima de grande emoção as baianas de acarajé, representadas pela Associação das Baianas de Acarajé e Mingau (Abam) e por dezenas de baianas em trajes típicos, receberam duas homenagens históricas na manhã de sexta-feira (26/10/2012), no prédio da Governadoria, no Centro Administrativo da Bahia (CAB).

A primeira, já esperada, foi a assinatura do governador Jaques Wagner decretando o Ofício das Baianas de Acarajé como Patrimônio Imaterial da Bahia. A segunda, não prevista anteriormente no protocolo, foi anunciada pelo governador, provocando comoção na platéia ao inaugurar o novo Salão de Atos da Governadoria batizando-o como o nome ‘Baianas de Acarajé’, sendo aplaudido de pé por todos os presentes.

No mesmo evento, Wagner garantiu que as baianas de acarajé terão acesso a nova Arena Fonte Nova durante a Copa do Mundo, em resposta às perguntas dos presentes e as matérias que circularam na mídia nas últimas semanas. “As baianas estarão na Fonte Nova; trata-se de um bem cultural imaterial que traduz parte significativa da cultura e tradição de um povo”, disse o governador.

Para o secretário de Cultura (Secult), Albino Rubim, que também discursou na cerimônia, esse é mais um registro de manifestação cultural que integra a política pública do governo do Estado para resgatar as tradições populares baianas. “É uma figura absolutamente marcante para a identidade e a cultura da Bahia”, disse Rubim.

O parecer técnico que possibilitou o registro do Ofício das Baianas foi feito pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), autarquia vinculada à Secult. “Desde 2007, através dos trabalhos do IPAC, já conseguimos registrar a Festa de Santa Bárbara, o Carnaval de Maragojipe, o Desfile dos Afoxés, a Festa da Boa Morte, a Festa do Bembé do Mercado e o Ofício de Vaqueiro”, relata o secretário estadual de Cultura.

ATO HISTÓRICO

“O ofício das baianas de acarajé já é registrado como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Ministério da Cultura/Iphan desde 2005 (categoria ‘Saberes’ processo nº 01450.008675/2004-01) e, surpreendentemente, até hoje o Estado Bahia não havia feito o mesmo; por isso, este decreto do governador passa a ser um ato histórico”, explica o diretor geral do IPAC, Frederico Mendonça.

Segundo o dirigente estadual, a política pública da Secult vem permitindo resgates como os registros de bens imateriais e tombamentos de edificações que nunca haviam recebido proteção estadual, como a arquitetura modernista baiana e art déco. Ao ser registrado – termo utilizado para bens intangíveis –, ou tombado – para bens materiais – a manifestação cultural ou o imóvel passa a ter prioridade nas linhas de financiamento municipais, estaduais, federais e até internacionais.

A solicitação para o registro do Ofício das Baianas foi requerida pela Abam no primeiro semestre deste ano. Desde então, a equipe do IPAC formada por historiadores, sociólogos, antropólogos, fotógrafos e outros profissionais se dedicam ao tema. Em 4 de setembro deste ano (2012) o Conselho Estadual de Cultura da Bahia (CEC) aprovou o parecer técnico, encaminhando-o à Secult que o levou ao governador.

SALVAGUARDA

“Outra etapa extremamente importante é o Plano de Salvaguarda que já está pronto e disponibilizado junto com o parecer”, alerta a diretora de Preservação do Patrimônio do IPAC, Elisabete Gándara. Segundo ela, o plano possibilita ações que garantem a permanência e essência dessa prática, como políticas de proteção. Ainda estão previstas ações como a difusão dos saberes e tradições relacionadas à temática, a geração de benefícios sociais, o estímulo a edição de leis em municípios, a divulgação desse saber, o incentivo a pesquisas na área da economia da cultura, além da geração e manutenção de emprego e renda. “A salvaguarda inclui também apoio oficial às entidades das baianas para que elas tenham condições de manter e promover a transmissão dos saberes e o fomento das condições de produção, reprodução e circulação desse bem cultural”, finaliza Gándara.

HISTÓRIA

A comercialização do acarajé tem início ainda no período da escravidão, nos séculos XVIII e XIX, com as chamadas escravas de ganho, que trabalhavam nas ruas para as suas senhoras, desempenhando diversas atividades, dentre elas, a venda de quitutes nos seus tabuleiros. O comércio de rua, na cidade de Salvador, permitiu que as escravas fossem além da prestação de serviços aos seus senhores: elas garantiam, muitas vezes, o sustento de suas próprias famílias, tornando-se importantes para a constituição de laços comunitários entre os escravos urbanos e, também, para a criação das irmandades religiosas e do candomblé: muitas filhas-de-santo começaram a vender acarajé para poder cumprir com suas obrigações religiosas, que precisavam ser renovadas periodicamente. A partir da segunda metade do século XX as ‘Baianas de Acarajé’ passaram a ser mais reconhecidas e valorizadas nacionalmente, transformaram-se em ícones da cultura imaterial soteropolitana e complementam e vivificam a atmosfera colonial ainda possível de ser evocada em Salvador.

O registro do Ofício das Baianas de Acarajé no Livro Especial de Saberes e Modos de Fazer do IPAC, como patrimônio Cultural Imaterial da Bahia aponta para a relevância de tradições afro-brasileiras que integram a nossa cultura como importante identidade étnica e religiosa da Bahia. Profundamente enraizada no cotidiano da população baiana, o Ofício das Baianas de Acarajé é um saber gravado na memória, nos costumes do cotidiano contemporâneo, sendo reconhecido pelo seu significado para a manutenção da diversidade cultural brasileira, preservando-o contra a iminência de descaracterização que hoje o ameaça. O registro engloba os rituais envolvidos na produção, nos modos de fazer, na preparação do local de venda, na arrumação no tabuleiro do acarajé e dos demais quitutes disponíveis.

O acarajé é um bolinho feito de massa do feijão-fradinho, temperado com cebola e sal. Após frito no azeite de dendê, o bolinho é cortado ao meio e recheado com um molho feito com camarão seco, pimenta e cebola, tudo bem triturado e frito no azeite-de-dendê. A técnica de feitura do acarajé representa um modo de fazer enraizado no cotidiano dos seus produtores, seja para uso religioso, alimento sagrado oferecido às divindades nos rituais do candomblé, seja para uso profano, comercializado nas ruas pelas baianas. No inicio todas as pessoas que produziam e comercializavam o acarajé eram iniciadas no candomblé, restritas às mulheres filhas de Xangô e Oiá (Iansã). Ainda no período colonial a comercialização do acarajé se mantém com as negras libertas ou negras de ganho, que trabalhavam nas ruas para as suas senhoras, desempenhando diversas atividades, dentre elas, a venda de quitutes nos seus tabuleiros. O acarajé não pode ser separado de sua origem sagrada, bem como daqueles elementos relacionados à venda, como a preparação do tabuleiro e dos locais onde se instalam e a complexa indumentária da baiana, que caracteriza e identifica o ofício, os significados atribuídos pelas baianas ao seu oficio e os sentidos atribuídos pela sociedade local e nacional a esse elemento simbólico.

O governador Jaques Wagner garantiu que as baianas de acarajé terão acesso a nova Arena Fonte Nova durante a Copa do Mundo.
O governador Jaques Wagner garantiu que as baianas de acarajé terão acesso a nova Arena Fonte Nova durante a Copa do Mundo.

A partir da segunda metade do século XX as ‘Baianas de Acarajé’ passaram a ser mais reconhecidas e valorizadas nacionalmente, transformaram-se em ícones da cultura imaterial soteropolitana e complementam e vivificam a atmosfera colonial ainda possível de ser evocada em Salvador. (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
A partir da segunda metade do século XX as ‘Baianas de Acarajé’ passaram a ser mais reconhecidas e valorizadas nacionalmente, transformaram-se em ícones da cultura imaterial soteropolitana e complementam e vivificam a atmosfera colonial ainda possível de ser evocada em Salvador. (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) – Jornal Grande Bahia)
A comercialização do acarajé tem início ainda no período da escravidão, nos séculos XVIII e XIX, com as chamadas escravas de ganho, que trabalhavam nas ruas para as suas senhoras, desempenhando diversas atividades, dentre elas, a venda de quitutes nos seus tabuleiros.
A comercialização do acarajé tem início ainda no período da escravidão, nos séculos XVIII e XIX, com as chamadas escravas de ganho, que trabalhavam nas ruas para as suas senhoras, desempenhando diversas atividades, dentre elas, a venda de quitutes nos seus tabuleiros.
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