Plano do BCE pode salvar o euro, mas não deve eliminar crise

Novo esquema anunciado pelo Banco Central Europeu animou os mercados financeiros.
Novo esquema anunciado pelo Banco Central Europeu animou os mercados financeiros.
Novo esquema anunciado pelo Banco Central Europeu animou os mercados financeiros.
Novo esquema anunciado pelo Banco Central Europeu animou os mercados financeiros.

O ex-secretário de Estado dos Estados Unidos Henry Kissinger afirmou uma vez: “Se eu quiser falar com a Europa, para que número eu ligo?”. Nos últimos três anos, os mercados financeiros globais vêm fazendo uma pergunta parecida: “Se eu quiser destruir o euro, quem vai me impedir?”.

Analisando a carnificina nos mercados financeiros europeus, os investidores queriam saber quem, ou o quê, estaria em última instância protegendo a moeda comum europeia. Quando a pressão aumentasse, quem estaria lá, com recursos amplos, para manter a coisa de pé.

Os governos tentaram e falharam em assumir esse papel, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) vinha tentando de todas as maneiras evitar isso. Mas na quinta-feira, de forma importante, a instituição mudou de posição.

O anúncio do BCE de que comprará títulos dos países da região com dificuldades em rolar suas dívidas foi bem recebido pelos mercados e provocou fortes altas nos mercados de ações em todo o mundo.

Anos terríveis

Claro que o apoio descrito pelo presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, virá com condições. Claro que veio tarde. E claro que o presidente do Banco Central da Alemanha tem um bom argumento ao sugerir que o BCE está colocando sua independência em risco com sua promessa “ilimitada” e criando potencialmente problemas para o futuro resgate de governos.

Mas seja o que as pessoas pensem do plano do BCE, e independentemente do quanto lamentem que a instituição não tenha sugerido um nome melhor ao esquema (chamado de “transações monetárias diretas”), ele dá a melhor resposta à pergunta citada no início do texto. Efetivamente, o BCE diz que se os governos fizerem as coisas certas, o Banco Central fará sua parte para salvar o euro.

Mas em parte por conta de ter vindo tão tarde, a ação do BCE não evitará que países como a Espanha ainda enfrentem alguns anos terríveis pela frente.

Em um blog, a revista The Economist afirmou que o BCE agiu em tempo para salvar o euro, mas “ainda precisaremos ver se agiu em tempo de salvar a economia europeia”.

Com seus usuais receios internos sobre o esquema, o BCE precisa também ter cuidado em sua implementação para conseguir realmente salvar a moeda comum.

Mas pela primeira vez desde o início da crise, a zona do euro – ao menos no papel – tem o que os americanos chamariam de apólice de seguro contra catástrofe.

Proteção

O BCE não impedirá que Espanha, Portugal ou Itália sejam discriminados pelos mercados – obrigados a pagar taxas de juros para empréstimos maiores do que a Alemanha, por exemplo. Mas se a Espanha e os outros forem capazes de manter suas populações ao seu lado para adotar as medidas necessárias para que permaneçam no euro, o BCE diz que não permitirá que eles sejam forçados a sair.

Isso é o que Draghi quis dizer quando falou sobre o novo esquema como uma proteção contra os riscos que ainda pairam sobre o sistema do euro, como os cenários extremos, nos quais a moeda entraria em colapso.

O novo esquema do BCE tem uma chance de assumir esse papel, porque ao contrário dos mecanismos de resgate como o Mecanismo de Estabilidade Europeu, as compras não são limitadas de antemão.

E porque, ao contrário do programa anterior de compra de títulos pelo BCE, os títulos que o Banco Central comprar agora não terão um tratamento especial no caso de renegociação das dívidas, como o que aconteceu na Grécia (quando os investidores tiveram que aceitar um grande desconto no valor dos títulos).

Se o BCE tivesse feito isso há um ano, provavelmente não estaríamos onde estamos hoje. O atraso tornou mais difícil o sucesso de qualquer plano. E certamente elevou os custos da crise para a economia real.

Governos soberanos ainda podem complicar as coisas. Eles já fizeram isso no passado. Mas se alguém quiser destruir o euro, ao menos o segundo Banco Central mais importante do mundo diz agora que estará lá para impedir que isso aconteça.

Carlos Augusto
Sobre Carlos Augusto 9315 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).