“O Brasil tem um débito de solidariedade com a África”, diz o ex-presidente Lula em entrevista ao Financial Times

Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República.
Lula: “Eu acredito que a cooperação Sul-Sul nos obriga, em primeiro lugar, a melhorar o funcionamento das instituições multilaterais e, num segundo momento, a construir novas instituições que permitiriam uma maior igualdade entre todos os participantes”.
Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República.
Lula: “Eu acredito que a cooperação Sul-Sul nos obriga, em primeiro lugar, a melhorar o funcionamento das instituições multilaterais e, num segundo momento, a construir novas instituições que permitiriam uma maior igualdade entre todos os participantes”.

O Brasil está rapidamente se tornando um símbolo da nova economia global. Com um PIB de 2,500 bilhões de dólares, já é a 6a maior economia do mundo e, segundo certas estimativas, irá ultrapassar a França no final de 2012. A ascensão do país foi rápida. Entre 2003 e 2010, o tamanho da economia aumentou mais de quatro vezes. O progresso social foi impressionante, pobreza diminuiu 27,5% entre 2003 e 2007. Na ultima década, 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza, e o número oficial de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza em 2011 era de somente 8,5%.

O crescimento, que atingiu 7,53% em 2010, desacelerou recentemente. As últimas análises preveem uma pequena expansão de 1,5% em 2012, levantando dúvidas em relação à sustentabilidade do modelo de crescimento do país. Tal percepção, porém, é imperceptível para quem dirige por São Paulo, o coração comercial do Brasil – e cada vez mais da América Latina. Enormes outdoors anunciando a última linha de televisores da LG ou da Samsung Smart alinham-se à beira de novas rodovias que levam os visitantes do aeroporto ao centro desta crescente metrópole de 19 milhões de pessoas. Desde seus arranha-céus imponentes, que lembram Nova York, a seus shoppings e restaurantes finos, é um lugar que transborda confiança.

Se questionados, a maioria dos brasileiros indicariam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – que governou o pais de 2003 a 2011- como a pessoa a quem agradecer pela recém-descoberta fortuna brasileira. Nascido em um meio humilde, em uma das regiões menos desenvolvidas do Brasil, o popular ex-líder sindical, universalmente conhecido como Lula, goza de um status de ícone no Brasil. Seu percentual de aprovação de 80% ao deixar o governo atingiu um nível com o qual a maioria dos políticos nem ousaria sonhar.

O Partido dos Trabalhadores, agora no poder, que Lula ajudou a fundar em 1980, está atualmente envolvido em um dos maiores julgamentos de corrupção da história do país – e envolve membros do alto escalão do governo. O Sr. Da Silva não enfrenta nenhuma acusação e, para grande parte dos brasileiros, continua sendo um herói político e social.

Sua passagem pelo governo também inaugurou um realinhamento estratégico da política externa do Brasil. Sincero advogado da cooperação Sul-Sul, ele construiu laços mais próximos com os países latino-americanos vizinhos do Brasil e outras regiões em desenvolvimento – especialmente a África. Durante seus oito anos de governo, o comércio bilateral [com a África] aumentou para 25 bilhões de dólares, o Brasil abriu mais de 12 novas embaixadas no continente e o Presidente Lula visitou aproximadamente 25 países, efetuando 12 viagens de Estado oficiais. Quando ele proferiu seu primeiro grande discurso público após ser diagnosticado com câncer de garganta em outubro 2011, durante uma conferência no Banco de Desenvolvimento do Brasil, em maio, o tópico foi as relações Brasil-África.

Ao ser entrevistado pelo “This is Africa” no Instituto Lula, a fundação que ele dirige hoje em São Paulo, sua paixão pela África é visível. O Sr. Da Silva, casualmente vestido – e que não tem tempo a perder com o protocolo que normalmente caracteriza ex-chefes de Estado – está alegre após receber a notícia de seus médicos no começo da semana que seu câncer estava em remissão. Ele veste uma camisa da África Ocidental – do Benin – e uma de suas paredes está adornada com uma pintura de uma mulher africana andando pela savana, com o sol se pondo ao fundo.

“Gostaria de contar uma pequena história”, diz ele no seu inconfundível tom de voz efervescente, enquanto explica porque a África se tornou um ponto focal da política estrangeira de seu governo. Sua barba icônica se foi, e há dúvidas se ela voltará a crescer, mas a batalha contra o câncer não diminuiu a força de seu discurso, que carrega a mesma intensidade de sempre.

“Quando ganhei as eleições presidenciais e tomei posse em 2003, no dia 25 de janeiro participei do Fórum Social Mundial em Porto Alegre antes de ir para Davos no mesmo dia. Eu vi o que estava acontecendo no Fórum Social Mundial e acompanhei o que estava acontecendo em Davos”. O contraste entre as duas experiências, uma dedicada a um modelo econômico e social alternativo e outra profundamente enraizada na defesa da globalização, deixou claro ao Sr. Da Silva que a política externa do século XXI deveria ser mais multifacetada do que até então tinha sido o padrão. “Eu disse a meu ministro das relações exteriores quer era necessário mudar a geografia política, econômica e comercial que tinha até então existido no Brasil. Tudo passava pelas grandes potências e era necessário trabalhar a fim de inserir os países emergentes nos processos decisórios sobre comércio, economia e políticas sociais”.

“O Brasil não podia ver o Atlântico como um obstáculo para chegar à África”, diz ele, apontando para o oceano que divide o planeta no mapa em uma mesa a seu lado. “Ao contrário, deveria ser visto como algo favorável, que apontasse para a integração e nós poderíamos até considerar que a África compartilha uma fronteira com Brasil”. Tal pensamento estava à frente de seu tempo. Em 2003, países como a China e o Brasil, de rápido crescimento, ainda eram atores marginais nos negócios globais. As economias ocidentais pareciam incapazes de errar. O triunfo neoliberal era total, com um crescimento que parecia infinito. Regiões como a África eram raramente citadas, a não ser na ocasião de golpes de estado ou crises alimentares.

Menos de uma década depois, o cenário é completamente diferente. Na crise financeira de 2008-2009, economias emergentes conduziam o crescimento global, com mercados como o africano gerando crescente interesse entre governos e a comunidade de negócios internacional. “Havia uma certa animosidade da parte do empresariado e dos dirigentes brasileiros em relação até mesmo à tentativa de entender que o Brasil poderia ter uma boa relação com a África e que aquele não era só um lugar cheio de pessoas miseráveis”, lembra o Sr Da Silva.

“Havia países e pessoas ali que queriam progredir e se desenvolver, lugares que estavam reforçando o processo democrático”.

Com o tempo, e certo lobby, a ideia pegou, e desde então ganhou certo apreço nos meios políticos e de negócios brasileiro. Agências governamentais como o Banco de Desenvolvimento do Brasil e a Embrapa, o organismo brasileiro de pesquisa agrícola, reforçaram seus compromisso com o continente. Ao mesmo tempo, grandes atores comerciais como a gigante produtora de minério de ferro Vale ou a fabricante de aviões Embraer, tornaram-se defensores ativos da história de crescimento da África.

O interesse pela África, entretanto, não decorre somente da busca de novos mercados aos quais empresas públicas e privadas brasileiras poderiam vender seus produtos, tampouco se trata essencialmente dos interesses estratégicos do Brasil, insiste o Sr da Silva.

Tendo em conta os laços culturais entre o Brasil e a África (estima-se que a metade da população de 196 milhões de brasileiros seja descendente de africanos) a noção de solidariedade social e política desempenha um papel central na abordagem Sul-Sul do Sr. da Silva. Ele fala da dívida que o Brasil tem para com a África devido ao comércio transatlântico de escravos e seu legado, uma dívida “que não é tangível; não se pode pagá-la em dinheiro. Como pagá-la de volta? Você a paga através da solidariedade”.

Uma de suas prioridades como presidente, explica o Sr. da Silva, era elaborar uma estratégia que fortaleceria os laços “sem agir do jeito que o colonizador agiria, como tradicionalmente acontecia ali”.

“Não queremos ter esse tipo de relação com a África”. Não, nós temos que construir uma relação em que parceria signifique parceria completa. O Brasil deve ganhar alguma coisa, mas os africanos também têm de ganhar alguma coisa.

“As pessoas têm que saber que o Brasil quer ser diferente de verdade”, diz ele, argumentando que o país tem uma responsabilidade no sentido de compartilhar com a África seu sucesso econômico e social recente em termos iguais. “Nós temos muitas experiências que queremos que os governos africanos conheçam… O desafio é como a gente aproveita essas experiências bem sucedidas, mas respeitando a cultura e as particularidades de cada país da África.”

Embora o interesse empresarial tenha aumentado nos anos recentes, essa abordagem continua a ser praticada principalmente pelas congêneres da Embrapa. A agência tem desempenhado um papel importante na transformação do Brasil em um produtor agrícola global de grande porte, especializada unicamente na agricultura tropical.

É em áreas como a da agricultura, que se tornou uma prioridade de políticas públicas para vários governos africanos nos últimos anos, que da Silva acredita que o Brasil pode ter o mais forte impacto para o desenvolvimento.

Outras agências governamentais, incluindo a Agência Brasileira de Cooperação, também promovem a abordagem brasileira da parceria igualitária. O BNDES está ampliando seu compromisso. Em maio, o banco assinou um acordo comercial-financeiro com o Bradesco, um dos maiores bancos privados do país, para estimular o crescimento das exportações brasileiras à África. O banco estatal também explora o potencial para parcerias com o Banco Africano de Desenvolvimento.

Ainda que essa abordagem tenha benefícios potenciais evidentes para o desenvolvimento africano, da Silva sabe do impacto limitado que um único ator, tal como o Brasil, pode ter, e também da necessidade de reforma das instituições globais de desenvolvimento.

“Eu acredito que a cooperação Sul-Sul nos obriga, em primeiro ligar, a melhorar o funcionamento das instituições multilaterais, e depois a construir novas instituições que permitam que exista mais equidade entre todos os participantes”, disse, reverberando a crescente pressão pela reforma de organismos globais, como a ONU e as instituições financeiras internacionais.

Logo após a saída inesperada de Dominique Strauss-Kahn do posto de diretor-gerente do FMI, o Brasil e seus parceiros no BRICS estavam entre os que se opunham à continuidade do controle europeu sobre o cargo principal na instituição. Uma pressão similar foi exercida durante o processo de escolha do novo presidente do Banco Mundial no início deste ano.

“A África não está representada no Conselho de Segurança, a América Latina não está representada, e um país do tamanho da Índia não participa. Qual é o problema em se ter cinco ou seis países a mais no Conselho de Segurança? Por que a Europa tem tantas vozes em todas as instituições?”

Ao se inclinar para dar ênfase, as raízes sindicais de da Silva vêm à tona no tópico do domínio ocidental sobre as instituições internacionais. Ele é direto em sua crítica sobre o que considera ser uma clara ambivalência de parâmetros nas relações dos países ricos com os países em desenvolvimento.

“Com a quebra do Lehman, a gente assistiu ao colapso da teoria de que os mercados podiam dar conta de tudo”, diz ele, em referência à ortodoxia neoliberal que havia dominado a economia e as finanças internacionais a partir do começo dos anos 1980.

Segundo da Silva, depois de um breve período de autocrítica no seio de organismos como o G20, durante o emergir da crise financeira, os países ricos agora retornam às práticas de sempre.

“O setor financeiro não foi punido. Descobrimos que o FMI só falava grosso para impor seu receituário com os países pobres. Na crise dos países ricos, nada foi dito.” Não sendo um proponente da economia de livre-mercado, o entendimento de da Silva é dotado de um amplo pragmatismo. “Nós não queremos tirar nada de ninguém, mas queremos estabelecer regras… regras que garantam nossa independência e que nos libertem da necessidade de confiar em terceiros para tocar nossos negócios. Acredito que as instituições multilaterais precisam mudar mas, enquanto elas não mudam, a gente precisa desenvolver outras instituições.”

Tais declarações refletem a confiança crescente das economias emergentes no sentido de não só se submeter a regimes internacionais, como também de remodelá-los e, no que for preciso, construir suas próprias instituições de desenvolvimento.

Ao lado de chamados renovados pela mudança nas instituições internacionais no 4º Encontro Anual dos BRICS, realizado em Delhi em Março, os quatro Estados-membros também mantiveram conversas sobre a criação de um novo banco de desenvolvimento para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento nos BRICS e em outros países emergentes. Conforme o Brasil assume um papel mais central nas relações econômicas e políticas globais, dúvidas surgem a respeito de sua habilidade em manter e consolidar seu nível atual de comprometimento com a África, particularmente sem um apaixonado defensor como da Silva na Presidência. Confrontado com isso, ele admite que há mais trabalho a fazer.

“Tenho isso claro na minha cabeça, mas certamente isso não está claro para muita gente no Brasil. Muitos empresários e empresárias não pensam desse jeito. Ainda tem muito trabalho pesado pela frente para consolidar esse ponto de vista e essa visão sobre a África, mesmo para uma parte da burocracia estatal do Brasil”, diz.

De acordo com seus assessores, muito de suas atividades depois da Presidência enfocarão a África, e se fala que da Silva já planeja seu retorno à ativa na política. Mesmo concordando que é preciso consolidar mais, ele não tem dúvidas de que o engajamento político do Brasil com a África veio para ficar.

“Esse trabalho com o desenvolvimento da África é uma coisa que pessoalmente me entusiasma, e que hoje está empolgando muita gente no Brasil também. Eu conheço a presidenta Dilma muito bem e estou certo de que as convicções dela em relação à África são as mesmas que eu tenho.”

Sobre Carlos Augusto 9457 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).