Em entrevista ao sítio Terra, FHC declara: “Porque você é jovem não assegura que seja melhor, precisa ter valores nos quais você crê”

Fernando Henrique Cardoso e Luíz Inácio Lula da Silva. FHC nutre certa animosidade em relação ao ex-presidente Lula.
Fernando Henrique Cardoso e Luíz Inácio Lula da Silva. FHC nutre certa animosidade em relação ao ex-presidente Lula.
Fernando Henrique Cardoso: "Eu não fico pensando na morte, eu penso na vida. Agora, também acho o seguinte: imagina se você fosse eterno, que chatice, né? Que coisa terrível. E como você também fisicamente vai mudando com o tempo, vai aceitando essas transformações. A coisa mais patética do mundo é alguém que não aceita o transcorrer do tempo, que quer ser criança, menino, jovem. Não, velho é velho. E pode viver bem como velho, viver ativamente como velho, ter uma presença normal."
Fernando Henrique Cardoso: “Eu não fico pensando na morte, eu penso na vida. Agora, também acho o seguinte: imagina se você fosse eterno, que chatice, né? Que coisa terrível. E como você também fisicamente vai mudando com o tempo, vai aceitando essas transformações. A coisa mais patética do mundo é alguém que não aceita o transcorrer do tempo, que quer ser criança, menino, jovem. Não, velho é velho. E pode viver bem como velho, viver ativamente como velho, ter uma presença normal.”

Em entrevista exclusiva ao jornalista Luis Eduardo Gomes, do sítio de notícias Terra, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) discorre sobre diversos temas: vida privada, política, percepção histórica, e atuação no grupo denominado de ‘The Elders”. A entrevista mostra um homem que conhece o significado das palavras, e a profundidade que elas atingem.

É sintomática quando fala sobre corrupção no próprio governo, em comparação ao que ocorreu no governo do ex-presidente Lula.  Neste aspecto, o silêncio lhe faria melhor. O ressentimento que FHC nutre com relação ao sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, é mais do que evidente.

Em outro momento da entrevista, FHC avalia a situação global, e diz que o mundo será aquilo que os jovens de hoje, possam realizar, mas, que no momento atual, o mundo vive uma crise. Comentando sobre a velhice, de forma enfática, afirma que é preciso encarar a própria finitude:

“Não é só a morte da Ruth. Na minha idade, muitos já morreram e é rara a semana em que não morre alguém que eu conheça. Tem que se acostumar com a ideia da morte, com a finitude. Não adianta, você sofre, a perda é irreversível. O que eu tenho procurado dizer é que a pessoa morre, mas você fica com ela dentro de você. Você guarda a memória, de alguma maneira quase que conversa com aqueles que são mais próximos, mais queridos. Isso não serve de consolo, mas quando você sabe que de qualquer maneira vai morrer, faz parte do ciclo existencial.”

A entrevista não é longa, mas profunda. Vale a pena sorver da experiência e do conhecimento deste ex-presidente, mantendo sempre um olhar crítico.

Confira a entrevista:

Terra – Quais são as características necessárias para se tornar um Elder?

Fernando Henrique Cardoso – Tem que ser pessoas que já realizaram algo, que sejam reconhecidos, que sejam independentes, que tenham coragem de dizer as coisas e que não tenham medo, não tenham rabo preso, possam dizer as coisas tal como acham que são, sem se preocupar com as consequências econômicas, se agrada o governo, se agrada o partido. (Um elder) Se sente mais livre, mais independente e fala sempre do lado do mais fraco. Pode ser um grande escritor, que chegue a um momento em que diga: ‘bom, agora eu vou me dedicar a questões sociais, a defesa da paz’.

Terra – Algum brasileiro tem esse perfil?

FHC – O escritor mais conhecido é o Paulo Coelho, mas ele ainda está muito interessado na própria obra. Eu não sei se haverá outros líderes que se disponham e que tenham um reconhecimento mais amplo. Se o Lula não fosse se dedicar à campanha, ele poderia. Mas enquanto ele estiver nessa volúpia de poder, não.

Terra – Qual é a importância de um grupo de ex-líderes mundiais no contexto atual?

FHC – É grande, porque o mundo de hoje é cada vez mais globalizado. Requer que pessoas que tenham voz se façam presentes, e que não se deixe tudo por conta dos governos e de outras organizações formais. Pode ajudar – como tem ajudado – a chamar a atenção para certas questões. Por exemplo, quem se preocupa com o que está acontecendo no Sudão? Ou em Sri Lanka? Ou, antes, na Birmânia (atual Mianmar)? Pouco a pouco, a gente vai martelando, martelando, e vai se formando uma preocupação na opinião pública que pode mover para uma ação positiva.

Terra – Quais resultados práticos decorrem da atuação do The Elders?

FHC – Por exemplo, no caso da Birmânia, a líder Suu Kyi (líder da oposição à Junta Militar birmanesa, Ang San Suu Kyi se elegeu parlamentar após passar duas décadas em prisão domiciliar), nós a consideramos membro do grupo quando ela estava presa, isso ajuda a dar uma certa força. Em outros casos, por exemplo, no Sudão, sobretudo o envolvimento direto do ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, do Kofi Annan (ex-secretário-geral das Nações Unidas) e da Graça Mandela (ex-ministra da Educação de Moçambique e mulher de Nelson Mandela), ajudou muito as negociações. Nós não conseguimos na questão do Mugabe (Robert, presidente), no Zimbábue, que ele sequer nos autorizasse a entrar lá. Mas já foi um bom caso, porque cria um certo barulho. Pela primeira vez foi possível para um grupo – formado por Carter, Gro Brundtland (ex-premiê da Noruega) e a Mary Robinson (ex-presidente da Irlanda) – ir à Coreia do Norte.

Em outro plano, quando se trata de ações sociais, há um movimento grande que estamos apoiando para evitar discriminação de gênero. Para especificar mais diretamente, nos concentramos no casamento de crianças negociado pelas famílias.

Terra – O senhor escreveu em um artigo para o site do The Elders afirmando que sete em cada dez meninas se casam antes dos 15 anos em certos países em desenvolvimento, e que isso afetaria negativamente seis das oito metas do milênio (metas estabelecidas pela ONU em 2000 para serem atingidas até 2015). Em que medida o casamento infantil é um entrave para o desenvolvimento?

FHC – Em vastas áreas da África, da Ásia, da América Central, e até mesmo do Brasil, onde não há essa negociação de casamentos, o casamento precoce tira a criança da possibilidade de estudar, porque está casada. Por outro lado, precipita doenças, porque são pré-adolescentes e já estão casadas. É difícil lidar com essa questão, porque, por um lado, existem questões econômicas. A negociação do casamento se dá em termos de preservação da capacidade de sobrevivência de certas crianças, de certas famílias. Por outro lado, há questões religiosas, então é muito complicado. A gente não pode simplesmente decretar que está proibido o casamento de menores de 18 anos e vai se resolver a questão. É preciso um trabalho contínuo de mostrar os malefícios que isso causa.

Terra – O que vem primeiro, desenvolver o país economicamente ou a transformação cultural?

FHC – Vem junto, é muito difícil você obter progresso em uma situação de desespero econômico. Por outro lado, muitas vezes você tem o progresso econômico, mas se você não muda a cabeça das pessoas, não há uma sociedade decente. No nosso caso, estamos muito mais preocupados com a criação de formas de vida condignas, do que com o desenvolvimento econômico.

Terra – Qual a importância de uma figura como Nelson Mandela?

FHC – Eu diria que o Mandela é único pela exemplaridade dele. Uma pessoa que levou 28 anos na cadeia, ao sair, em vez de transbordar de ódio contra os seus opressores, ele propôs a democracia, convivência pacífica, com o reconhecimento das culpas. Isso é uma coisa extraordinária. Não é fácil encontrar outro Nelson Mandela. Ele é um símbolo. Quando Nelson Mandela começa a falar, tudo se transforma, porque ele tem uma aura de grandeza tão grande, que é quase um profeta. E isso não se faz por decreto.

Em relação a Peter Gabriel e Richard Branson, que ajudaram a fundar o grupo, qual o papel deles?

O papel deles é duplo. Um, eles financiaram e dão recursos, juntamente com outros filantropos. Mas eles também são conselheiros. Cada vez que o grupo se reúne, eles estão presentes.

Terra – À medida que os governos parecem cada vez mais engessados, qual o papel desses filantropos na promoção de muitas dessas causas?

FHC – É grande. Sobretudo depende de que tipo de dinheiro. Esses ganharam dinheiro nas artes. São pessoas que têm certa sensibilidade. Outros ganharam no mercado financeiro, onde houve muita riqueza nova que se fez rapidamente, e de gente jovem. Esses também têm uma sensibilidade mais aguda. Eles se sentem responsáveis por terem ganhado tanto em pouco tempo, querem dar algo em troca.

Terra – Quais são os procedimentos do Elders? Como ele se organiza, escolhe causas?

FHC – Em geral são reuniões fechadas para tomar decisões, que se fazem com muita participação de todos. É um grupo muito diversificado. Por exemplo, há uma senhora chamada Ela Bhatt. É uma líder da Índia que tem um banco para apoiar mulheres. Existem cerca de 3 milhões de pessoas associadas a ela – que foi muito importante na questão do casamento infantil. Ela disse: ‘cuidado, prestem atenção: às vezes a questão do casamento infantil está enraizada porque é uma maneira de sobrevivência. Então vocês não podem vir só com o moralismo, tem que vir com uma visão de compreensão da cultural local’.

Lakhdar Brahimi, que agora vai substituir o Kofi Annan nas negociações na Síria, é uma pessoa que negociou muito a paz no Afeganistão, sabe das dificuldades que isso implica e conhece muito o mundo islâmico. Ele foi ministro na Argélia, mora em Argel, então é muito ativo para compreender esse mundo islâmico. Outros têm uma visão de mundo mais nórdica. Por exemplo, o finlandês Martti Athtisaari (ex-presidente da Finlândia), que é Prêmio Nobel (da Paz). Junto com ele tem a Gro Brundtland, da Noruega. Esse pessoal tem uma visão de um mundo em que os ricos têm comprometimento com os países pobres e defendem muito a paz.

Nós discutimos muito cada passo. Por exemplo, o que fazer na questão Israel/Palestina. Eu fui chefiando a delegação do The Elders (FHC liderou uma comitiva do The Elders que visitou Israel e a Cisjordânia em 2009). Como atuar nisso aí? Como você entra numa questão tão delicada como essa? Só tem um jeito, é falar como todos. Almoçamos com Shimon Peres, (presidente de Israel). Como também falamos por telefone com o primeiro-ministro de Gaza, do Hamas. Depois estivemos em Ramallah. A nossa presença é sempre para mostrar que o caminho é de negociação, que não se pode levantar muros assim a torto e a direito. Visitamos aldeias dos dois lados. Vimos a cooperação entre árabes e israelenses para mostrar que isso é possível.

Terra – Na questão de Israel, em 2009 o senhor escreveu que aquele era o momento de se negociar a paz. Não aconteceu. Em 2011, o senhor escreveu um artigo que está no site do The Elders falando que a reconciliação entre Hamas e Fatah era um passo importante e que era o momento de negociar a paz. Passou mais um ano e não aconteceu. O senhor acha que esses momentos de otimismo estão passando? Há como evitar o ceticismo em relação à paz?

FHC – Tem que manter a ideia da possibilidade da paz. É muito difícil. Como a gente sabe, tem razões históricas que levam a essas tensões. O nosso papel é de dizer ‘por aí não vai dar certo’. Mesmo se eles forem para o outro lado. Por exemplo, abrindo canais. O presidente Carter esteve conversando com o pessoal do Hamas lá na Síria. São missões delicadas, imagine o ex-presidente americano ir à Coreia do Norte para abrir canais em um momento em que o governo dos EUA é contra. Precisa ter muita independência para isso. E eu acho que isso é um exemplo de que nós não podemos nos submeter cegamente aos interesses políticos estabelecidos. Porque há um valor maior que é a humanidade, e a paz é uma precondição essencial para que as pessoas possam viver em conjunto.

Terra – É possível conciliar o crescimento econômico com o desenvolvimento sustentável?

FHC – É necessário. Você não pode parar o desenvolvimento econômico, os países pobres precisam de desenvolvimento, mas pode moderar o dos mais ricos, pelo menos no estilo de consumismo deles. Você pode perguntar, ‘e o que aconteceu na Rio+20? Foi uma decepção?’ De certo ponto de vista, sim, de outro, não. Qual não? Foi um happening. Muita gente foi lá e passou a tomar consciência. O que não avançou? A negociação dos governos, porque eles têm mais dificuldade de avançar, cada um tem seu egoísmo nacional. Mas é sempre assim.

Terra – O senhor acha que, em momentos de crise, líderes com visão global são substituídos por líderes com visão mais local?
FHC – É possível, porque o interesse imediato leva a que você tome decisões sem pensar nos grandes temas. Mas isso não faz desaparecer os líderes globais. Globais não no sentido de mercado, mas da respeitabilidade de todos os lados, que são importantes.

Terra – Como o senhor se vê com 81 anos? O que mudou na sua vida?

Fernando Henrique Cardoso – Pode parecer pretensioso, mas mudou muito pouco. Procuro nem pensar quantos anos tenho e fazer o que eu tenho que fazer. Faço as coisas com prazer. Quando fui presidente, também fiz. Agora não sou. Vou fazer outras coisas, também faço com dedicação, com prazer. No The Elders, o Carter (Jimmy, 87 anos, ex-presidente dos EUA) é mais velho. Se você visse a energia que tem o Carter, fisicamente. Nós fomos a uma reunião nos montes Atlas, no Marrocos, e em certo momento você tinha que subir uma montanha. Você podia ir de automóvel, a cavalo ou a pé. E ele foi a pé, tranquilamente. Acho que isso depende muito de você estar interessado na vida.

Terra – O que mudou na sua vida depois da morte da sua mulher Ruth Cardoso?

FHC – Bom, isso é mais complicado. Não é só a morte da Ruth. Na minha idade, muitos já morreram e é rara a semana em que não morre alguém que eu conheça. Tem que se acostumar com a ideia da morte, com a finitude. Não adianta, você sofre, a perda é irreversível. O que eu tenho procurado dizer é que a pessoa morre, mas você fica com ela dentro de você. Você guarda a memória, de alguma maneira quase que conversa com aqueles que são mais próximos, mais queridos. Isso não serve de consolo, mas quando você sabe que de qualquer maneira vai morrer, faz parte do ciclo existencial.

Terra – O senhor pensa nisso? Pensa na morte?

FHC – Não, não. Vem, vem, um dia virá. Eu não fico pensando na morte, eu penso na vida. Agora, também acho o seguinte: imagina se você fosse eterno, que chatice, né? Que coisa terrível. E como você também fisicamente vai mudando com o tempo, vai aceitando essas transformações. A coisa mais patética do mundo é alguém que não aceita o transcorrer do tempo, que quer ser criança, menino, jovem. Não, velho é velho. E pode viver bem como velho, viver ativamente como velho, ter uma presença normal.

Terra – O senhor pensa no seu legado?

FHC – Claro que eu penso. Mas pensar não adianta muito. O que eu fiz, já fiz. O que vai ser feito com que eu fiz? Deus sabe. Como eu tenho noção de história, li muito, sei que os julgamentos vão variando muito. Se você ficar na história, o que não é fácil, você vai ser sempre julgado. Uns vão ser a favor, outros vão ser contra. Por outro lado, isso depende de como as pessoas vão mudando suas próprias percepções. Por exemplo, Getúlio. Quando morreu, se suicidou. Estava sem espaço de reconhecimento, teve que se matar. Hoje todo mundo fala bem.

Terra – Como o senhor acha que ocorre essa transmissão de conhecimento dos mais velhos para os jovens na sociedade instantânea atual?

FHC – Eu acho isso não tira dos jovens a dimensão de generosidade e preocupação com os outros. O que pode haver nessa informação instantânea é que os quadros mentais se desorganizam se você não tiver quem seja capaz de estruturá-los. Uma das funções dos mais velhos é mostrar o conjunto, explicar porque uma coisa pode se ligar a outra. Quando a informação é muito fragmentada, e se for muita informação, você pode se perder, mas isso não tira dos jovens o interesse por entender as coisas.

Terra – Em relação a movimentos como Primavera Árabe e o Occupy, revoluções e protestos que nasceram da insatisfação dos jovens. Eles representam que este é o momento dos jovens assumirem um papel mais importante na política?

FHC – Tomara fosse. Tomara seja. Acontece o seguinte: quando você tem insatisfação, ao mesmo tempo você tem falta de emprego e repressão, tem aí a possibilidade de um rastilho pegar fogo. Foi o que aconteceu na Tunísia. Em uma sociedade mais aberta, é mais difícil isso. Você tem mais liberdade, não tem tanta repressão. Depende de cada situação. Sem dúvida, chega um momento em que as novas gerações assumem o seu lugar. Às vezes, é para melhor; às vezes, para pior. Porque você é jovem não assegura que seja melhor, precisa ter valores nos quais você crê.

Terra – O escritor uruguaio Eduardo Galeano afirma que esses movimentos representam que o ‘mundo está grávido de outro mundo’. O senhor concorda com isso? O que senhor espera do término dessa gestação?

FHC – O Galeano tem a visão de uma espécie de filosofia da história como um destino, que vai ser melhor. O mundo está grávido de outro melhor? Tomara. Mas isso não é automaticamente assim, às vezes piora. Antes do Hitler, o mundo era melhor na Alemanha do que depois, e a juventude aderiu ao Hitler. Quem conhece a história não faz essas afirmações tão bombásticas.

Terra – Qual é a projeção que o senhor faz paras as próximas décadas no Brasil e no Mundo?

FHC – O mundo entrou numa crise grande. O sistema capitalista entrou numa crise grande. Ela não se resolve de um dia para o outro. Você junta essa crise, com a crise ecológica, aquecimento global, com as insatisfações com falta de liberdade, isso pode delinear uma vontade de um mundo melhor. Como você vai fazer isso? Sabe Deus, não existe fórmula. Essa gravidez pode dar uma criança aleijada. Tomara que não dê, depende que a gente lute e tenha valores.

Certamente o mundo hoje não será mais como foi até pouco tempo, controlado por uma grande potência. Acabou isso. Está muito fragmentando. É um mundo que vai requerer capacidade de negociação e abertura, para que mais países, mais civilizações, participem. O grande problema (para a visão ocidental) é o mundo islâmico, um bilhão de pessoas que têm que participar. Parece que é o demônio que está lá. Antes era o comunismo, a China. O mundo vai precisar entender e conviver nessa diversidade. Essa é a grande questão, a organização de mecanismos globais que sejam capazes de aceitar a diversidade e permitam uma governança global. Não tem isso.

Mesmo na crise econômica, não se conseguiu até agora nem definir uma forma de regulação do sistema financeiro. Melhorou, mas coisas técnicas. Ainda vai levar muito tempo, e eu não digo isso com pessimismo porque a história muda devagar. Esse é o nosso desafio desse século. Você vai dizer isso para quem está com fome? Não resolve, ele quer já. Se você olhar dentro de uma perspectiva histórica, nós estamos criando outro mundo. Neste sentido, o Galeano tem razão. Tomara que ele seja melhor. Para isso precisa de The Elders, para isso precisa de gente que pense o mundo com generosidade, pense a humanidade, não só a classe, não só o seu país.

Terra – Em relação ao ex-presidente Lula, ambos estiveram juntos em muitos momentos e depois se criou uma rivalidade. O senhor acha que essa rivalidade foi importante para ambos?

Fernando Henrique Cardoso – Eu acho que em certos momentos foi desnecessária. Eu não tenho atitudes agressivas, o Lula às vezes tem. Mas quando estamos juntos, até hoje, conversamos normalmente. Acho que poderíamos ter tido um pensamento mais no futuro do Brasil. Em certos momentos poderíamos ter tido, e até hoje, um diálogo mais franco, menos orientado pelas rivalidades partidárias. Mas você vê pelas atitudes do Lula hoje, é quase impossível, porque ele está lá na luta do dia-a-dia, como se fosse um militante, sem pensar na perspectiva mais ampla, mais histórica.

Terra – Em temos partidários, essa questão de ter ponto e contraponto, foi importante para os dois se elegerem?

FHC – Certamente, certamente acho que sim. Mas para você se eleger em um país grande como o Brasil, você precisa não só dos seus partidários, você precisa de uma visão maior. Nós dois tivemos a chance de nos elegermos. A rivalidade não é uma boa expressão. Há diferença de opiniões políticas e essas diferenças devem ser expressas. Democracia existe quando há diversidade de opinião e liberdade de expressá-las. Eu não concordo com uma porção de coisas que o Lula diz ou faz, e provavelmente a recíproca é verdadeira. Então é normal que a gente expresse, mas isso não deve ser feito de modo que a ofender pessoalmente nem a cortar a relação de civilidade. Eu procuro essa relação de civilidade.

Terra – Com relação ao seu partido. O senhor ainda tem participação direta nas escolhas do partido ou é mais um elder dentro do PSDB?

FHC – Eu sou mais elder dentro do PSDB do que estou ativo no dia-a-dia. Certamente tenho partido, opino pelo partido. Mas eu tenho certa noção de que já fui presidente, isso traz uma certa responsabilidade para além do limite do partido.

Terra – Em relação ao mensalão, o senhor acha que o efeito moral, simbólico do julgamento vai ser mais importante que o efeito prático?

FHC – Acho, acho que sim. Pode ter efeito prático. Pelo que eu estou vendo dos juízes, alguns serão condenados, já foram até. E isso também tem a sua importância. Agora, porque todo mundo está olhando para o que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal? Deveria ser uma coisa banal. Se você é acusado de ter feito uma prática delituosa, é julgado. Só isso. Isso em uma democracia normal não é nada, é o dia-a-dia. É que é tão inusitado julgar, mais ainda condenar, pessoas de projeção política que o mensalão passou a ser um marco. Isso é um bom sinal e um mau sinal. Mau sinal porque parece que até hoje no Brasil não houve nada.

O absurdo maior no mensalão é considerar como caixa 2, como se caixa 2 não fosse crime. Como se fosse normal. ‘Ah não, foi só caixa 2’. O que é isso? Caixa 2 é o uso do poder econômico por baixo dos panos para afetar o resultado de eleição. É grave. Sim, a decisão do tribunal, qualquer que ela seja – sei lá quem vai ser condenado…-, vai ter um efeito importante. Já teve.

Terra – Por que em outros julgamentos de casos de corrupção não houve esse evento que se tornou o mensalão?

FHC – Porque o mensalão é muito grave. Pegou gente que está no governo tratando de organizar mecanismos de passagem de dinheiro para que outras pessoas apoiem o governo. Não é só o que já é muito grave, que é o caixa 2, teve mais que o caixa 2. E isso é muito grave. Claro que é uma coisa que precisaria ser submetida ao tribunal. Não é um fato inusitado. A corrupção sempre existiu, é verdade. Mas quando a corrupção aparece sob alguma proteção do Estado ou do governo, é mais grave. E quando ela se generaliza, é gravíssima.

E como o senhor lidava com as denúncias de corrupção em seu governo?

FHC – De modo muito simples, se tem denúncia de corrupção, vai para a Justiça. Mas que denúncia de corrupção no meu governo subsistiu? Falaram muito das teles (privatizadas durante o governo FHC), o que aconteceu? Não tem uma ação no tribunal. Todas as que foram ao tribunal, não foram aceitas, porque não eram verdadeiras. O leilão das teles. O que aconteceu? Foi para tribunal, nada. Todo mundo absolvido. Nem absolvido, muitas vezes o tribunal nem levou em consideração porque a denúncia era montada. Houve alguma ou outra corrupção? Deve ter havido. O procurador acusa, vai lá e vê o que aconteceu. Mas nunca houve um caso em que você dissesse que eu estivesse metido ou que o governo estivesse protegendo. Nada disso. O que houve era tudo montagem. Aqui não. O que está acontecendo agora é que os juízes estão dizendo que houve. É diferente.

Terra – E como o senhor acha que esse julgamento pode respingar no governo Dilma?

FHC – A Dilma tem guardado a distância prudente e conveniente. Culpa não pode haver por contágio. Se outro pratica, você não é responsável por isso. As pessoas não podem ser imputadas porque alguém do seu partido fez alguma coisa errada ou alguém do seu governo fez alguma coisa errada. Você não é responsável, a menos que você saiba e não tenha tomado medidas. Essa ideia de responsabilidade por contágio é totalitária, não é democrática. Então eu acho que a presidente Dilma em si não tem nada com assunto. O PT pode pagar um preço, porque tinha muita gente do PT envolvida, porque o PT sempre disse que ele era puro, que os outros é que eram impuros.

Terra – Como o senhor avalia o governo Dilma até o momento?

FHC – É cedo para avaliar. Eu acho que esse negócio de governo você tem que deixar o tempo passar para saber o que ele fez mesmo. Eu poderia dar vários exemplos de coisas boas e coisas más, como em todo o governo, mas a avaliação do governo depende basicamente de que a perspectiva permita você avaliar qual é o legado. Ela está em pleno exercício, é cedo para dizer.

Fernando Henrique Cardoso e Luíz Inácio Lula da Silva. FHC nutre certa animosidade em relação ao ex-presidente Lula.
Fernando Henrique Cardoso e Luíz Inácio Lula da Silva. FHC nutre certa animosidade em relação ao ex-presidente Lula.
Redação do Jornal Grande Bahia
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