Desaparecido político na Bahia | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA) - (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). - (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)

O sítio onde morava foi cercado. João Leonardo reagiu. Foi morto. Não faz muito tempo, João Leonardo era considerado um desaparecido político. Melhor, ainda permanece nessa condição, mas há pistas consistentes que indicam que seus restos mortais estão num velho cemitério de Palmas de Monte Alto, sudoeste baiano, município onde se localiza o povoado denominado Fazenda Caraíbas, onde tudo aconteceu.

Essas pistas foram recolhidas pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do governo da Bahia, por ordem do secretário Almiro Sena. Nota técnica da Secretaria, de 15 de agosto deste ano, aponta que ele teria sido enterrado em 8 de novembro de 1975 com o nome de José Eduardo da Costa Lourenço. Teria sido morto no dia 6 de novembro. Resta agora que se confirme o local exato onde foi sepultado e que se façam os exames necessários para confirmar as pistas levantadas pelo governo estadual. Só assim, ele deixará de ser um dos desaparecidos mortos pela ditadura.

João Leonardo da Silva Rocha nasceu em 4 de agosto de 1939 em Salvador. Fez o primário em Amargosa e o primeiro ano do curso secundário em Salvador, no Colégio dos Irmãos Maristas. Em fevereiro de 1952 ingressou no Seminário Católico de Aracaju, onde permaneceu até 1957. Em 1959, torna-se funcionário do Banco do Brasil em Alagoinhas, onde também ensina Português e Latim no Colégio Santíssimo Sacramento e Escola Normal. Em 1962, permanecendo funcionário do Banco do Brasil, transfere-se para São Paulo, onde começa a cursar a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP).

Torna-se militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização de resistência à ditadura comandada por Carlos Marighella. É preso em janeiro de 1969. Os órgãos repressivos o acusavam de participar do Grupo Tático Armado da ALN, grupo responsável pelas ações armadas. Em setembro do mesmo ano, com o seqüestro de Charles Burke Elbrick, dos EUA, é um dos 15 prisioneiros políticos trocados pelo embaixador e enviados ao México. Estava, a partir daí, oficialmente banido do País. Segue para Cuba, onde se alinha com um grupo dissidente da ALN, que resultou no Movimento de Libertação Popular (Molipo). Em Cuba, faz curso de guerrilha sob o codinome Mário.

Retorna ao Brasil em 1971 e passa a morar numa pequena localidade rural de Pernambuco, São Vicente, distrito de Itapetim, sertão do Pajeú, quase divisa com a Paraíba. Raspa totalmente a cabeça e fica conhecido como Zé Careca. Utilizava a identidade falsa de José Eduardo da Costa Lourenço. Adquire um pequeno sítio e torna-se lavrador. Era exímio atirador, e gostava muito de caçar. Pressentiu quando a repressão estava em seu encalço e seguiu para a Bahia. Primeiro, para Guanambi, depois para a Fazenda Caraíbas.

Excelente cozinheiro, dedicava-se à buchada de bode, sua especialidade. Em São Vicente, um dos poucos letrados da região, ajudava muito a população na medicação dos doentes. Foi se integrando, participando das reivindicações da população, discutiu com o padre sobre o grande número de crianças desamparadas na cidade, reclamou do descaso das autoridades diante de um surto de uma diarréia que atingiu dezenas de pessoas. Isso tudo é que deve ter permitido sua identificação pela repressão e forçado sua fuga.

No dia de sua morte, quando a repressão chegou, estava almoçando. Deram-lhe voz de prisão e logo começaram a atirar, Acertaram-no na veia femoral. Ele se abaixou atrás da janela, e reagiu. Matou o tenente Oscar Pereira da Silva, e feriu um matador de aluguel contratado para a empreitada. No cartório municipal há registro do sepultamento como José Eduardo da Costa Lourenço, mas não há indicação do local em que foi enterrado.

Agora, como já disse, falta pouco. Trata-se de localizar os restos mortais dele, comunicar aos seus familiares, os que estiverem vivos, para que o enterrem onde acharem mais apropriado. Será mais um passo na tortuosa caminhada para a localização dos mortos e desaparecidos, para que se revele toda a verdade, para que se conheça todo o terror da ditadura. Este, penso, é o trabalho da Comissão da Verdade. Ditadura, nunca mais!

*Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA).

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