Lula e a crise | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) – Jornal Grande Bahia)

Gostei de vê-lo sorridente, sereno, alegre. Espinha ereta, coração tranquilo. O que impressiona em Lula é o fato de sempre estar pensando à frente, sempre voltado para enfrentar não só os problemas do Brasil, mas os do mundo. E com autoridade para enfrentá-los, convidado sempre a fazê-lo. Encontrei-me com ele junto com o padre Renzo Rossi e a equipe de Jorge Felippi. Estamos, Jorge e eu, realizando um filme sobre o sacerdote, um italiano que viveu décadas no Brasil e que se dedicou apaixonadamente aos prisioneiros políticos durante a ditadura. E sobre quem escrevi um livro – As asas invisíveis do padre Renzo.

Foi possível encontrá-lo, no Ipiranga, na capital paulista, graças aos esforços do companheiro Paulo Vannuchi, ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, ex-prisioneiro político, amigo de Renzo, como eu. Lula ficou muito alegre de rever Renzo. Este, ao vê-lo, disse, de pronto, que o preferia com barba. Lula disse que não demoraria para deixá-la crescer. O encontro, rápido, foi na sexta-feira, 3 de agosto, à tarde. Lula perguntou pela casa de Jorge Felippi em Arembepe, onde já estivera. Perguntou também por Waldir Pires, de quem é amigo, e disse a Paulo Vannuchi que gostaria de conversar com ele.

Renzo perguntou-lhe qual a maior herança dos oito anos de governo. “O grande legado foi a relação de intimidade profunda que estabelecemos com a sociedade brasileira. Fizemos sempre questão de debater com a base, com o nosso povo. Realizamos 73 conferências nacionais. Isso é que permitiu uma relação de confiança com a nossa gente”. As políticas do governo, lembrou, tiraram milhões de pessoas da miséria absoluta e asseguraram a ascensão de outros tantas às camadas médias, coisa de 40 milhões. “Sempre quis provar que um operário podia governar bem o Brasil, e especialmente que era possível distribuir renda e crescer”. Provou.

Lá pelo meio da conversa, começou a falar de seus próximos passos. Não discutiu as movimentações nacionais, eleições municipais, nem nós perguntamos porque a audiência seria necessariamente rápida. Esperavam-no o ex-presidente Lugo e a direção da Central Única dos Trabalhadores. No dia anterior, nos revelou, recebera os dirigentes do movimento dos catadores de lixo de rua. Nos falou com entusiasmo de sua próxima ida à Europa para discutir os rumos da crise econômica mundial. Afinal, o Brasil soube suportar os efeitos da irresponsabilidade do capital financeiro dos países capitalistas centrais. E o fez de modo diferente dos EUA e das nações europeias. Mantendo o emprego, crescendo, baixando os juros, e não permitindo o crescimento da inflação.

Não há nenhuma arrogância em sua fala. Há responsabilidade com o Brasil e com o mundo. Com os pobres do mundo, de modo especial. O Brasil, pela voz de Lula, com a experiência dele, não quer ensinar ninguém. Quer apenas compartilhar o que aprendemos nessa caminhada de enfrentamento da crise. Talvez, para alguns países, não seja agradável ouvir que não se pode colocar a raposa para tomar conta do galinheiro. Não se pode, sempre, socializar os prejuízos dos banqueiros, e apertar duramente o cinto dos pobres, como está efetivamente acontecendo em boa parte da Europa. Francois Hollande parece ser um sopro de renovação num cenário que antes parecia predominar apenas o receituário neoliberal.

Parece que será a partir de contatos com Hollande que Lula fará as discussões em torno da crise. Sabemos todos que ela não é passageira, que seus impactos chegam a todo o mundo. E, por isso mesmo, reclama-se uma discussão que vá além dos limites europeus e norte-americanos. É fundamental que o Norte desenvolvido ouça o Sul, ouça os BRICs, ouça os países de desenvolvimento intermediário e os menos desenvolvidos. Há várias saídas, não apenas uma. Cada vez mais o mundo apresenta uma economia globalizada, é verdade. Mas, nesse cenário, há opções políticas diversas, e são estas opções, especialmente as da América do Sul, que poderão servir de balizamento para um enfrentamento diferente dessa crise mundial, que leve em conta, sobretudo, os milhões de pobres.  Este tem sido e será o recado de Lula.

* Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT/BA).

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