Amado Jorge dos baianos; 100 anos | Por Juarez Duarte Bomfim

Jorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001).Jorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001).


Realizou-se de 8 a 10 de agosto de 2012 o VIII ENECULT -Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, no Campus de Ondina da UFBA. Este que vos escreve participou de Mesa Coordenada e apresentou o trabalho a seguir.

A imagem de Salvador na literatura de Jorge Amado: Suor

Por Juarez Duarte Bomfim, professor-adjunto da UEFS

Resumo: As fontes literárias constituem um elemento destacado para a difusão de uma determinada imagem da cidade e da paisagem urbana. O espaço é estrutural na obra de arte literária, isto porque a arte literária é o próprio espaço. O escritor baiano Jorge Amado publicou no ano de 1934 o romance Suor, ambientado nas ruas, becos e ladeiras do Centro Histórico de Salvador. Já no ano de 1959 o também baiano geógrafo Milton Santos publicou o célebre livro O Centro da Cidade de Salvador. Um Estudo de Geografia Urbana. É pretensão deste trabalho traçar um paralelo entre esses dois livros buscando compreender como o espaço geográfico pode ser transposto para o espaço da construção romanesca, na verve inspirada de seus artistas

Palavras-chave: imagem da cidade, paisagem urbana, literatura.

A meu ver, o maior erro que a Geografia cometeu
foi o de querer ser ciência, em vez de ciência e arte (Milton Santos).

Introdução

As fontes literárias, junto a outras muitas, podem ser úteis para conhecer uma cidade concreta em um momento dado. Segundo Carreras (1994), o primeiro problema teórico que apresenta a utilização das fontes literárias para um estudo geográfico é o que se deriva da subjetividade que ditas fontes necessariamente trazem. Porém, o uso de fontes literárias supõe uma clara vantagem frente a qualquer outro tipo de fonte, pelo menos no sentido de que seu enfoque subjetivo fica implícito. Em nenhum momento a literatura pretendeu ou pretende ser objetiva, nem tampouco globalizante no tratamento de qualquer problema.

A confrontação da fonte literária com outras fontes — estatísticas, cartográficas ou documentais — mesmo que pouco valide a impressão que se extrai da descrição literária, permite revalidar a sua utilidade.

Em algumas obras literárias, destacados autores de profunda formação ou fina sensibilidade alcançam descrever com vigor e claridade as características da vida urbana e de seus problemas, o que constitui, sem dúvidas, um testemunho fundamental para qualquer análise urbana.

As fontes literárias constituem um elemento destacado para a difusão de uma determinada imagem da cidade. Por isso, resulta altamente interessante a análise e contraste das descrições literárias com outros dados da realidade urbana para investigar que interesses, que setores urbanos são refletidos e ressaltados ou marginalizados e criticados. O romancista, assim como a maior parte dos intelectuais, se acha imerso dentro da realidade social e de forma voluntária ou involuntária serve a interesses que se concretizam em práticas e políticas urbanas que constituem o objeto primordial de estudos de geografia urbana. As imagens que se criam, a análise de sua difusão ou não, resulta então como fundamental.

Imagens literárias, planejamento e política urbana, a realidade concreta da cidade e dos cidadãos constituem instâncias sociais distintas que há que conhecer separadamente e em suas mútuas inter-relações, para poder acercar-se de alguma forma ao conhecimento da cidade (Carreras, 1994).

O cenário urbano

O geógrafo baiano Milton Santos publicou no ano de 1959 o célebre livro O Centro da Cidade de Salvador. Um Estudo de Geografia Urbana. Partindo dessa base, é pretensão desta comunicação traçar um paralelo entre esse estudo acadêmico do Centro da Cidade do Salvador e de sua população residente com o romance Suor, representante da rica ficção jorgeamadiana.

Este breve estudo comparativo entre ciência e literatura, geografia urbana e romance literário, parte do assertiva de que o espaço é estrutural na obra de arte literária, isto porque a arte literária é o próprio espaço. O espaço, por sua vez, pode encontrar-se mais ou menos tematizado, e no romance Suor ele é o próprio tema (GROSSMANN, 1993, p.15).

Suor tem como cenário a capital da Bahia, “construída de dentro para fora”. É a transposição do espaço da Cidade do Salvador para o espaço da construção romanesca. Este centro nervoso da narrativa está apoiado numa rigorosa espacialidade, que lhe confere suas características e seu sabor de concretude. Trata-se de uma prática do espaço de ordem histórica e geográfica, “assimilada no encontro da história com a estória” (GROSSMANN, 1993, p.13-14).

Para Grossmann, o espaço se estrutura em Suor dentro de um ponto de convergência que é a Cidade do Salvador. E existe um outro centro, o sobrado, situado na Ladeira do Pelourinho, 68. E dentro do sobrado existem os quartos. “Quartos inscritos no sobrado, sobrado inscrito na ladeira, ladeira inscrita na cidade, cidade inscrita no estado, estado inscrito no país, país inscrito no mundo” (GROSSMANN, 1993, p.15-16).

Apesar de considerar Suor um livro menor no conjunto da obra de Jorge Amado, a sua escolha é motivada devido a narrativa estar ambientada num casarão arruinado do bairro do Pelourinho, isto é, no coração do Centro Histórico de Salvador, que é o objeto de pesquisa que nos interessa desenvolver nesta oportunidade.

Outros estudos similares foram realizados sobre o tema. Destacamos os artigos de Judith Grossmann, Adriano Bittencout Andrade, Lilian Andrade, Déa Maria A. M. de Souza, Jânio R. D. dos Santos, Selma Paula Batista, Jânio L. J. Santos, Marlene Pires d’Aragão Carneiro e Jussara Guedes — cujas referências estão ao término do trabalho.

Jorge Amado e Suor

Suor, publicado em 1934, é uma obra da primeira fase do escritor Jorge Amado e, poderíamos dizer, do jovem Jorge Amado, que começou a escrevê-la aos 16 anos de idade. Encontramos a preocupação social e o discurso de militância comunista em suas páginas, mas não podemos classificar esse romance como pertencente ao movimento artístico originário da União Soviética, conhecido como realismo socialista (ou realismo comunista, ou realismo proletário, ou o que seja). Entretanto, já na segunda metade da década de 1930, Amado vai escrever novelas e romances com as características de realismo socialista (a trilogia Subterrâneos da Liberdade e O Cavaleiro da Esperança — biografia romanceada do líder comunista brasileiro Luís Carlos Prestes etc.).

Raymond Aron, cientista político francês, parodiando Karl Marx, escreveu certa vez que “marxismo é o ópio dos intelectuais”; poderíamos dizer então, sem exagero, que realismo socialista é (foi) o ópio dos artistas ocidentais, pelo menos até a desestalinização ocorrida a partir de 1958, no governo de Nikita Krushev, quando das denúncias dos “crimes de Stalin” no XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética).

Jorge Amado faz parte daquele grupo de artistas, intelectuais e políticos que, sem abandonar seus princípios socialistas, a partir de então passa a escrever fora da “camisa de força” do proselitismo e doutrinarismo característicos da literatura de realismo proletário. É quando surgem suas obras primas (“Terra do Sem Fim”, grande romance da saga do cacau, é uma exceção a isso, pois foi escrito ainda na primeira fase da sua vida literária) e as suas heroínas — Gabriela, Dona Flor, Tereza Batista e Tieta do Agreste — que vão marcar definitivamente o imaginário do povo brasileiro.

Jorge Amado é um escritor modernista, herdeiro da grande revolução na arte brasileira ocorrida com a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, capitaneada por Mario e Oswald de Andrade. Suor é, portanto, um romance modernista.

O rural e o urbano na literatura jorgemadiana

O romance Suor é tipicamente um romance urbano, assim como o seu primeiro livro, O país do Carnaval. Podemos tentar fazer uma divisão arbitrária e classificar a literatura de Jorge Amado em três linhas, a partir de uma perspectiva também arbitrária: literatura rural, literatura praieira e literatura urbana.

Primeiro, a literatura rural, que corresponde à saga do cacau, com os romances Cacau, Terras do Sem Fim, São Jorge dos Ilhéus, Seara Vermelha, Tocaia Grande – A Face Obscura, A descoberta da América pelos Turcos. Cabe repetir que essa é uma classificação arbitrária e insuficiente porque, a rigor, da “saga do cacau” são só os três primeiros livros, sendo os outros já obra da maturidade, de livre temática, diríamos assim. Essa é uma classificação insuficiente porque deixa de fora desse “grupo” Gabriela Cravo e Canela e O menino Grapiúna, esse último de cunho memorialista.

O rural aí não se constrói enquanto oposição ao urbano, porque trata de uma região e uma época de Brasil agrário, rural e arcaico (anterior ao marco de mudanças conhecidas como a Revolução de 1930) e de uma zona de fronteira agrícola que passa a ser explorada através da cultura do cacau, que se torna a atividade mais importante da economia baiana — produção e exportação de cacau — até a criação da Petrobras e exploração do petróleo do Recôncavo, já na década de 1950.

É doce morrer no mar…

A literatura praieira — ou praiana. Em romances como Jubiabá e Mar Morto (ambos da década de 1930), em Os Velhos Marinheiros ou O Capitão de Longo Curso, como também na obra-prima A morte e a morte de Quincas Berro D’Água a temática praieira se manifesta. A rigor, só os dois primeiros livros dessa lista podem ser considerados como tal, mas como esta é uma classificação arbitrária…

Personagens como Guma e Lívia (Mar Morto) e pescadores, estivadores e feirantes do Caís do Porto se tornam recorrentes em toda a literatura amadiana que tem como cenário Salvador. Debruçada sobre o mar, principal porto do Atlântico Sul durante o período Brasil-Colônia, a atividade portuária vai ser condição necessária para o desenvolvimento das demais funções que a cidade abriga — e marca a paisagem urbana do centro da cidade.

Na trajetória de dois grandes artistas baianos, Jorge Amado e Dorival Caymmi, há um ponto de interseção de suas obras, uma similitude em certa fase de suas criações literária, poética e musical que faz desses dois artistas uma espécie de “almas gêmeas” ao contarem/cantarem “as coisas e graças da Bahia”. Apesar de serem parceiros bissextos (isto é, em apenas uma ou outra obra — como no poema de Jorge, em Gabriela, musicado por Caymmi) encontramos em um a extensão poética e literária do outro. As canções praieiras de Dorival Caymmi A jangada voltou só, É doce morrer no mar e Suíte dos pescadores (obras-primas, saibam) parecem que “saltam” das páginas dos romances de Jorge Amado.

E tem os “causos” de suas vidas que constituem matéria prima para a arte. Como de quando Jorge conheceu a paulistana Zélia Gatai na casa de Caymmi e, tímido, pede a ajuda do amigo para ser o seu cupido. Caymmi então cria essa que ainda é um símbolo de “baianidade” (ou o que quer que essa palavra/conceito queira dizer):

“Acontece que eu sou baiano
Acontece que ela não é… {…}
Por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher
Por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher…”
(Dorival Caymmi, Acontece que eu sou baiano)

Desde então — ou muito antes — o intercurso sexual e afetivo entre baianos e paulistas continua a acontecer.

Ruas e ladeiras da Bahia como cenário

A literatura urbana. O principal palco ou cenário do desenvolvimento das ações das “criaturas” de Jorge Amado se tornam as ruas e ladeiras da Bahia. Ao dizer “ruas e ladeiras da Bahia” estamos nos referindo ao Centro Histórico da Cidade do Salvador, a Cidade Alta e a Cidade Baixa, o Pelourinho e o Comércio, a Rua Chile e o Caís do Porto; os escritórios de advocacia e o Mercado Modelo… Tudo isso que na literatura de Jorge Amado faz de Salvador uma cidade única, uma cidade que atrai visitantes nacionais e estrangeiros, ainda hoje, devido à força da narrativa jorgeamadiana que cruzou o mundo em traduções para mais de trinta idiomas. Podemos dizer até, sem medo de errar, que a literatura de Jorge Amado modela inclusive o perfil do turista estrangeiro que chega a Bahia, na tradição dos viajantes ingleses, como Colin Thubron (1), por exemplo.

Certa vez, numa tarde invernal barcelonesa do ano de 2000, o professor Carles Carreras i Verdaguer assim se referiu a sua versejada cidade: “Barcelona no apareix com un escenari sinò que és la protagonista. Hi ha ciutats que són tratades com a dones”. Parodiando o professor Carreras, também poderíamos dizer: Salvador não aparece como cenário, e sim como protagonista. Há cidades que são tratadas como mulheres.

A partir daqui, ao caracterizarmos a paisagem urbana da Cidade do Salvador, entrelaçaremos a descrição das transformações físico-sociais da cidade com citações de textos de autores acadêmicos ao lado da verve artística do ficcionista Jorge Amado, pois compreendemos que o diálogo entre arte e ciência, literatura ficcional e academia geram um rico somatório para a constituição da imagem da cidade.

Ladeira do Pelourinho, 68

O romance Suor, de narrativa fragmentária, já começa a delinear o perfil daqueles tipos que, em geral, vão ser chamados de todo um rico universo de tipos populares das ruas da Bahia. Tipos humanos esses dos quais o autor se nutre para criar a sua literatura.

Suor é ambientado no bairro do Pelourinho, e pode ser caracterizado como um “romance geográfico”, pois a paisagem urbana não é só um “plano de fundo” e sim protagonista da narrativa. E neste cenário de casario colonial ganha destaque, ganha vida, um grande cortiço, “cabeça de porco” (moradia coletiva), o sobrado de número 68 da Ladeira do Pelourinho.

Os cortiços existentes no Centro Histórico de Salvador são marcas de um passado pujante, da economia açucareira do Recôncavo, com a ostentação da riqueza explicita nos casarões e sobrados de até quatro andares, o que contrastava com a degradação. Esses espaços foram ocupados por uma classe pobre, que subdividia e retalhava os ínfimos cômodos, cabendo um pequeno cubículo para cada família (ANDRADE, 2004, p. 41-42).

Certas atividades, como o pequeno comércio, serviços manufaturados e moradia de baixa renda não têm força para criarem um quadro urbano próprio, e por isso alojam-se no quadro preexistente. Assim:

“{…} os palacetes e sobradões envelhecidos que perderam seu antigo papel de residência dos nobres e da gente rica, conhecem agora outras utilizações. Alguns servem exclusivamente à residência pobre. Outros abrigam no andar térreo, um comércio de transição ou artesanato e nos andares servem como residência pobre (SANTOS, 1959, p.144).

“Nesses cubículos não há luz, nem ar e inexiste higiene. A vida nesses cortiços é um verdadeiro inferno e as diversas famílias que ocupam um mesmo andar se veem obrigadas a se servirem de um único banheiro e de uma só latrina. Escadas estragadas, soalhos furados, paredes sujas, tetos com goteiras formam um quadro comum a toda esta zona de degradação (SANTOS, 1959, p.166).”

Já na literatura de Jorge Amado esta realidade é assim descrita:

“Visto da rua o prédio não parecia tão grande. Ninguém daria nada por ele. É verdade que se viam as filas de janelas até o quarto andar. Talvez fosse a tinta desbotada que tirasse a impressão de enormidade. Parecia um velho sobrado como os outros, apertado na Ladeira do Pelourinho, colonial, ostentando azulejos raros. Porém era imenso. Quatro andares, um sótão, um cortiço nos fundos, a venda do Fernández na frente, e atrás do cortiço uma padaria árabe clandestina. 116 quartos, mais de 600 pessoas. Um mundo. Um mundo fétido, sem higiene e sem moral, com ratos, palavrões e gente. Operários, soldados, árabes de fala arrevesada, mascates, ladrões, prostitutas, costureiras, carregadores, gente de todas as cores, de todos os lugares, com todos os trajes, enchiam o sobrado. Bebiam cachaça na venda do Fernández e cuspiam na escada, onde, por vezes, mijavam. Os únicos inquilinos gratuitos eram os ratos. Uma preta velha vendia acarajé e munguzá na porta (AMADO, 1998, p.04).

“{…} O carteiro subiu reclamando, ficava furioso ao aparecer alguma carta para habitantes do 68. Havia gente demais e ele tinha de procurar o dono pelos andares. Nomes que ele não guardava porque não se repetiam. Aquele, por exemplo, era a primeira vez: Dona Risoleta Silva, Ladeira do Pelourinho, 68, Bahia. Já perguntara no primeiro andar e no segundo. No terceiro lhe disseram que era no sótão, evitando que ele parasse no quarto. Assim mesmo, parou para tomar ar. E continuou a subida resmungando. Quando alcançou a porta, nem podia gritar Correio! com voz forte. Chamou Julieta, que saía da latrina, e perguntou:
— Mora aqui dona Risoleta Silva? (AMADO, 1998, p.64-65).”

O Centro Histórico da Cidade do Salvador

O Centro Histórico da Cidade do Salvador é uma faixa de dois quilômetros de largura máxima de mais ou menos seis quilômetros de extensão, acompanhando a Baía de Todos os Santos. O local escolhido para a povoação “grande e forte” de Tomé de Sousa foi o cume de uma colina, caindo em forte declive até a extremidade das margens de uma baía abrigada, sobre um dos lados que separa a Baía de Todos os Santos e o Oceano Atlântico.

A história urbana de Salvador proporcionou a concentração de funções nos distritos centrais, num vigoroso fenômeno de centralidade. Da primitiva função de aglomeração administrativa e militar — que determinou a escolha do sítio, um sítio difícil, sobre a escarpa — foi-se acrescentando a função portuária (que existiu desde o início da vida urbana), a função religiosa, comercial, residencial, industrial, bancária e turística. A atração do porto provoca a permanência de localização do centro de atividades onde ele tinha inicialmente sido instalado. De meados do século XVI até a segunda metade do século XX, quase todas as funções praticadas numa cidade ali estavam postos, e o Centro abrigava aproximadamente toda a atividade comercial da cidade.

No século XVIII, o bairro do Pelourinho se constituía na zona residencial mais nobre da cidade. Construído em circunstância de grande desenvolvimento e expansão da economia baiana, morada de homens de negócios, grandes comerciantes exportadores e importadores, senhores de engenho e altos funcionários da administração pública. Nesse bairro concentravam-se os componentes das classes sociais mais altas, era então o centro cultural da Cidade do Salvador. No Maciel, área mais antiga do conjunto do Pelourinho, se encontravam os solares e sobrados mais imponentes, sendo o seu nome — Maciel — oriundo de uma família de posses que ali residia.

Salvador é palco de explosão feroz de epidemias — como o cólera em meados do século XIX — o que leva o poder público a tentativas no sentido de controlar as condições higiênicas na cidade. Esse trabalho de higienização, entretanto, só se torna mais estruturado e abrangente entre 1890 e os primeiros anos do Século XX. Um dos obstáculos para a concretização da cidade higiênica e normatizada são os limites impostos pela própria “concretude” da cidade, com seu espaço densamente construído de maneira intricada, com um traçado e uma arquitetura que em nada favoreciam a higiene.

A preocupação com a higiene e a salubridade e as novas possibilidades de circulação abertas com a estruturação de um sistema viário abrangente — obras de alargamento da Rua Chile, Ajuda, Misericórdia e Avenida Sete — e o aparecimento dos transportes coletivos — primeiro o bonde de burro, depois a introdução de transportes mecânicos como o automóvel (1901) e o bonde elétrico (1904) — desempenharão um papel fundamental no processo de transformação porque passa Salvador, desde o início do século XIX, embora se acentuando em meados do século: o das novas espacializações.

Nova espacialização e diferenciação: o advento dos transportes coletivos viabilizará o rompimento da superposição espacial entre o local de moradia e local de trabalho, ao mesmo tempo em que vai facilitar a fuga das áreas mais congestionadas e insalubres da cidade para as camadas de maior capacidade econômica.

A expansão da cidade na direção sul, que já vinha se desenvolvendo desde meados do século XIX — quando a Avenida Sete se desenvolve como local de moradia da classe dominante — com as obras de impacto de alargamento das ruas principais, articula o Centro com a parte nobre da cidade, os espigões da Vitória e Graça, o que leva a que o bairro do Pelourinho e demais áreas centrais, seja na sua parte alta como na parte baixa, sejam gradativamente desocupados por seus moradores originais, que vendiam seus imóveis já em plena obsolescência funcional — ou os arrendavam a comerciantes, transferindo-se para os novos bairros que surgiam, considerados mais próprios para residência, cujas construções se adequavam melhor às necessidades criadas pela crescente urbanização.

No distrito do Pilar deu-se o primeiro processo de migração das famílias ricas para os bairros exteriores. Originalmente com um tipo de ocupação onde se associavam comércio e população de comerciantes mais ou menos abastados e suas famílias, com fracas densidades, com a saída desses moradores as casas são ocupadas por uma população numerosa cada vez mais pobre, provocando degradação e aumento de densidade.

De bairro nobre à zona degradada. De sobrado nobre à cabeça de porco

A migração centrífuga das famílias ricas se correlaciona com a ocupação das casas por famílias de classe média e depois pelos pobres (SANTOS, 1959, p.133), atraídos pelo baixo valor do aluguel nos imóveis degradados e pela sua localização privilegiada. Estabelece-se um círculo vicioso, aonde a deterioração, oriunda dos primeiros anos do Século XX, conduziu a um processo irreversível de empobrecimento da área, e o empobrecimento um fator da deterioração.

A região norte do Pelourinho foi ocupada por uma população de estratos econômicos médios, que se acomodou nas casas térreas e de dois pavimentos, tipos de construções capazes de abrigar uma família de classe média, sem a necessidade de dispender grandes somas para mantê-las em condições de habitabilidade. Por outro lado, ao sul do Convento e Igreja do Carmo as casas foram ocupadas em seus pavimentos térreos por um pequeno comércio e artesanato — prolongamento das atividades comerciais da Misericórdia, Praça da Sé e Terreiro de Jesus — enquanto que os pavimentos superiores dos casarões e sobrados transformaram-se em hospedarias, casas-de-cômodo e outras formas de moradia coletiva, reunindo os mais diversos tipos de pessoas, pertencentes a estratos econômicos mais baixos.

No Maciel predominam as construções de mais de dois pavimentos, o que permite, em número cada vez maior, as moradas coletivas.

“Também, somente o proprietário chamava aquilo casa. Os moradores diziam meu buraco. E tinham razão. Todas do mesmo tamanho, oito embaixo, oito suspensas sobre as primeiras, as paredes de tábua, os telhados de zinco. Quando o sol batia parecia que o cortiço ia incendiar. Então ninguém podia tolerar os apartamentos abafados, uma sala, um quarto, e um simulacro de cozinha, onde, sobre quatro pedras, descansava a panela de feijão. Alguns possuíam fogareiros velhos, comprados a ciganos ladrões. Na frente do cortiço, um pátio cimentado com um tanque d’água servia de quaradouro às lavadeiras, de parque de diversões para as crianças e de leito nupcial para gatos líricos e cachorros sem-vergonha, que as mulheres enxotavam a pedradas, enquanto os homens riam a bom rir (AMADO, 1998, p.105).”

Com a fuga da primitiva população a deterioração do bairro se acelerou — as zonas de construções antigas se desvalorizaram rapidamente — devido ao baixo nível de renda das classes que a substituíram e especialmente pelo regime de uso destas construções, locações e sublocações, o que não estimulava a conservação, nem pelo locatário, nem pelo locador. Além disso, as interdições legais, criadas para proteção do patrimônio, desencorajam empresários de investir na área, que encontravam assim uma boa razão para investimento em outra parte da cidade (SANTOS, 1959, p.166).

Os anos 1920 são referência na formação de um novo quadro social no Centro Histórico degradado. É a época da formação do grande meretrício do Maciel, forçado pela ação repressiva da polícia de costumes que, dentro dos limites desse bairro, liberou a prostituição como forma de controle dessa prática, dentro da política higienista de então. Todavia, o estabelecimento do grande meretrício atraiu as atividades paralelas e derivadas — banditismo, tráfico de drogas — que terminou por envolver toda a área residencial.

A degradação social, o tipo de estrutura arquitetônica do casario colonial que propiciava o uso como moradia coletiva, são fatores que favoreceram a concentração da prostituição na área arruinada. O estigma de bairro maldito e a guetificação do Maciel — que paradoxalmente concentra o conjunto patrimonial de maior relevância no Centro Histórico — teve sua origem aí, no estabelecimento forçado de zona segregada, ambiente de doenças, misérias e crimes.

“Quando o cáften a trouxe (há quantos anos? — talvez trinta…), conheceu a bordo o milionário argentino. Não soube também quanto ele pagara pela sua virgindade. Fizera completa peregrinação pelos prostíbulos da América Latina. Era viajada e conhecia toda a profissão. Lembrou os tempos de glória. Sua carreira, em moeda nacional, fora quinhentos mil-réis em Buenos Aires. Depois trezentos. Em Santiago voltou aos quinhentos mil-réis. Cantava canções brejeiras nos cabarés. Possuía uma voz masculina e uns olhos claros de camponesa. Cuba, cem mil-réis e milionários americanos. Cem mil-réis no Rio de Janeiro e pensões chiques. Cinco anos depois, sifilítica e embriagada, amava marinheiros no Mangue por cinco mil-réis e louros alemães lembravam sua terra longínqua.

“{…} Na Bahia, começara a vinte mil-réis e estava agora novamente a cinco, escondida no prédio cosmopolita… (AMADO, 1998, p.21-22).

“{…}Os homens que suavam durante o dia na labuta do cais, na condução das carroças, saltando pelos estribos dos bondes a recolher as passagens, se nem sempre tinham dinheiro para comer, quanto mais para pagar mulher. É verdade que, na Ladeira do Tabuão e do Pelourinho, elas não eram tão caras assim. Havia desde cinco mil-réis (as mais aristocráticas), até mil e quinhentos réis, pretinhas sujas e polacas septuagenárias (AMADO, 1998, p.48).”

O Largo do Pelourinho, entre os anos 1940-50, era moradia de gente pobre. Os seus 32 imóveis eram ocupados no andar térreo por atividades de comércio e artesanato como:

“{…} oficina de vulcanização, bazares, alfaiates, joalheiros, casas que compram e vendem ferro velho, consertadores de coisas várias, armazéns, armarinhos, restaurantes baratos, sapateiros, padaria, tipografia, fotografia, barbeiros de 3ª classe, açougues, uma pequena fábrica de sabão etc. (SANTOS, 1959, p.166)”

Enquanto que, nos pavimentos superiores, residia uma população heterogênea, em condições precárias. Em 1950, aí moravam 708 pessoas, sendo que 60% das famílias não eram originárias da cidade do Salvador; muitos não dispunham de emprego fixo. Entre os ofícios mais frequentes encontravam-se

“{…} bicheiro, encanador, lavadeira, cozinheiro, bombeiro, pequeno funcionário, porteiro, engraxate, encerador, viajante comercial, tipógrafo, empregado doméstico, vendedor ambulante, chofer, condutor de ônibus, camelô, etc… são pequenos empregados ou pessoas sem uma ocupação permanente ou bem definida, seu local de trabalho era, de preferência, no centro da cidade (SANTOS, 1959, p.167).”

Uma característica peculiar a esta população que mora no Centro é a de “extrema rotatividade”, chegam a residir apenas um dia ou uma semana em cada local, com o aluguel dos cômodos sendo cobrado adiantadamente.

“{…} é uma população que vive em função do centro da cidade {…} de vender nas filas de ônibus, de cuidar dos carros, é gente que faz faxina de escritórios e lojas, são prostitutas. O centro é também uma área de submundo, de venda de “fumo”, de recepção de roubo, de violência policial. É tudo misturado, tem família vivendo com prostituta, tem tudo. Há guardadeiras de crianças {…} essa população é considerada, por grande parte da classe média e das autoridades, como uma população out law, marginal: o maconheiro, a prostituta, o foragido. É, na verdade, uma população que vive na clandestinidade, que não pode aparecer (AZEVEDO, P. O., 1984, p.249-250).”

Descrição da população feminina do Pelourinho, na verve de Jorge Amado:

“Mulheres sem sobrenomes. Marias de nacionalidades as mais diversas. Casadas umas, com maridos que também não possuíam sobrenomes; solteiras outras, magras ou gordas, doentes ou sãs, com um único traço de ligação: a pobreza em que viviam.

“Algumas juntavam outro nome ao primeiro: Maria da Paz, Maria da Conceição, Maria da Encarnação, Maria dos Anjos, Maria do Espírito Santo. Outras levavam apelidos: Maria Cotó, Maria da Sandália, Maria Doceira, Maria Visgo de Jaca, Maria Machadão. A maior parte, porém, era somente Maria de Tal, filhas de Antônio ou Manoel de Tal, casadas com Cosme ou Jesuíno de Tal.

“Mulheres que vendiam frutas, lavavam roupas, trabalhavam em fábricas, costuravam, vendiam o corpo. Mulheres sem sobrenome, mulheres do 68 da Ladeira do Pelourinho e de outros sobrados iguais, para quem os poetas nunca fizeram um soneto, elas simbolizavam bem a humanidade proletária que se move nas ladeiras e nas ruas escuras. Tiveram uma frase anônima:

— Gente sem nome… Gente sem pai… Filhas da puta… (AMADO, 1998, p.151-152).”

O sociólogo Gey Espinheira criou uma imagem “barroca” para caracterizar a paisagem de zonas urbanas centrais, especialmente à noite, quando mais se apresentam os aspectos de zona degradada:

“O centro velho de uma cidade é […} o lugar de gente sorrateira, de desafortunados, dos que vivem a solidão das ruas desertas, quando fecham as lojas e as instituições. É o lugar da amplidão silenciosa da cidade à noite. É o lugar de tipos característicos que culminam por caracterizar o lugar que frequentam (ESPINHEIRA, 2002, p.31).

Gente sorrateira que buscam a invisibilidade da noite, mas durante o dia…

“{…} Os garotos que viviam na ladeira do Pelourinho, aventurando-se pela Baixa dos Sapateiros e pelo Terreiro, se gritavam quando Artur aparecia com os cotocos dos braços, isso não era nada em comparação com o berreiro que faziam ao surgir no tope da montanha aquele homenzinho magro, de olhos fundos, cara miúda, calças de casimira, paletó de brim cáqui, uns sapatões à Carlitos, camisa ensebada da qual só restava o peito que ele fazia questão de conservar sem buraco, colarinho duro de onde pendia um pedaço de gravata encarnada, chapéu azul violento na cabeça. No braço balançava um guarda-chuva quebrado, sua arma contra os garotos.

Mal o viam, corriam para ele aos berros:

— Pega-pra-capá! Pega-pra-capá!” (AMADO, 1998, p.44).”

Conclusão

Consideramos que, através desse estudo comparativo, foi possível compreender a importância da utilização das fontes literárias para a constituição da imagem e paisagem urbana de uma cidade como Salvador. A subjetividade da fonte literária em questão — o romance Suor de Jorge Amado — supõe uma vantagem frente a outro tipo de fonte, devido a fina sensibilidade do escritor em descrever com vigor e claridade as características da vida urbana do centro da cidade e de seus problemas, o que constitui, sem sombra alguma, um depoimento fundamental para análise do urbano.

Acreditamos que resultou altamente interessante o contraste da descrição literária com outros dados da realidade urbana para entendimento da realidade social e das imagens que se criam.

Salvador, capital da Bahia, assim como outras ciutats tratades com a dones produzem imagens literárias e realidade concreta distintas que há que conhecer separadamente e em suas mútuas inter-relações, para poder aproximar-se de alguma forma ao conhecimento da vida urbana.

Notas

1. Colin Gerald Dryden Thubron (14/06/1939) é um escritor de viagens britânico e romancista. Em 2008 o The Times o classificou como um dos maiores 50 escritores britânicos do Pós-Guerra. Disponível em Acesso em 19 abr. 2012.

Referências

AMADO, Jorge. Suor. Rio de Janeiro: Record, 1998.

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Jorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001).

Jorge Leal Amado de Faria (Itabuna, 10 de agosto de 1912 — Salvador, 6 de agosto de 2001).

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About the Author

Juarez Duarte Bomfim
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]