O importante é competir

Artigo aborda trajetória dos Jogos Olímpicos.
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Desde que o Barão de Coubertin idealizou e promoveu os Jogos Olímpicos da Era Moderna, ao tempo em que era divulgada a máxima “o importante não é vencer, é competir”, que esta frase encerra uma meia-verdade, pois se ela é válida para o desporto brasileiro e a sua pífia participação em termos de resultados… não vale para potências econômicas e militares que visam utilizar politicamente o desempenho dos seus atletas nas competições olímpicas.

Uma característica das ditaduras totalitárias, os Estados Totais, é de suprimir a distinção entre vida pública e vida privada, entre a esfera da vida pessoal que se desenvolve no âmbito da sociedade civil e a esfera da vida pública, que se desenvolve no Estado. Isso acontece através da politização de todas as esferas de atividades humanas, inclusive os esportes, quando a vitória ou a derrota esportiva é vista como uma vitória ou derrota política do regime totalitarista.

Seria bizarra se não fosse trágica a suspeita internacional de chicoteamento dos jogadores de futebol iraquianos, após péssimos resultados, a mando do cartola-mor do país, sob a ditadura de Saddam Hussein.

Os Jogos Olímpicos quadrienais, ao longo da história, são importantes eventos que não se limitam às práticas esportivas, muito pelo contrário, transcendem a esse objetivo último e se tornam instrumento e locus de afirmações de poderio político-militar e econômico.

Os protestos contra a ocupação do Tibet pela China, nas Olímpiadas de 2008, que acompanharam a passagem da chama olímpica pelos continentes, é apenas mais um capítulo dessa longa história de politização dos Jogos. Jogos que a China se esforçou em sediar com competência para provar ao Ocidente suas qualidades como nação.

Os primeiros Jogos Olímpicos modernos aconteceram em 1896, em Atenas, e foram vencidos por uma potência capitalista emergente, os Estados Unidos. As Olimpíadas seguintes (1900) foram vencidas pelos anfitriões, a França. Já em 1904 os Estados Unidos (anfitrião) conquistaram mais de 80% das medalhas de ouro. Nas competições seguintes os anfitriões Reino Unido (1908) e Suécia (1912) venceram, tendo como vantagem o “fator campo”.

A Primeira Guerra Mundial não deixou que os jogos de 1916 fossem realizados. E no período Entre-Guerras (Olimpíadas de 1920,1924, 1928 e 1932) confirmou-se a superioridade estadunidense. Era, acima de tudo, a confirmação do “way of life” americano (modo de vida americano).

Já os atletas da Europa destruída pela Guerra não tiveram condições nem preparação para competir com os representantes dos EUA, pois muitos dos melhores quadros esportivos tinham lutado e morrido no front.

As Olimpíadas de Berlim (1936) foram as primeiras da história com o objetivo de se propagar uma ideologia política. Adolf Hitler tenta provar o mito da superioridade alemã com os resultados das competições. Mas as quatro medalhas de ouro obtidas pelo velocista negro Jesse Owens empanou o brilho – e as teses – da vitória olímpica hitlerista.

Os Jogos de 1940 e 1944 foram cancelados, devido à 2ª Grande Guerra. Nos Jogos de Londres (1948) os países que tinham formado o Eixo foram proibidos de participar. E pela primeira vez um país anfitrião não obtém bons resultados. A combalida Grã-Bretanha terminou as Olimpíadas em apenas 12° lugar.

A Alemanha só voltou a participar em 1952 (Helsinque), e mesmo dividida em dois países – Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental – competiu unificada até 1964. A União Soviética só passou a competir em 1952, em plena Guerra Fria.

Durante a Guerra Fria a supremacia olímpica ficou dividida entre os EUA e a URSS. Nunca os Jogos tiveram tanto apelo político como nesse período. Foram memoráveis os embates televisados pela disputa das medalhas de ouro no basquete masculino e feminino. Acontecia algo mais do que uma simples final olímpica…

A partir daí as Olimpíadas foram de equilíbrio entre as superpotências. Das dez edições seguintes, antes da extinção da URSS, seis foram vencidas pelos soviéticos e quatro pelos estadunidenses.

Em Tóquio (1964) a África do Sul é banida dos Jogos em razão das políticas racistas de seu governo (Apartheid). As Olimpíadas seguintes (Munique, 1972) foram irremediavelmente manchadas pelo terror, quando no 5 de setembro um grupo de terroristas palestinos da organização Setembro Negro invadiu a Vila Olímpica e ingressou nos dormitórios da delegação israelense.

Pela primeira vez os Jogos foram paralisados. Cogitou-se suspender os Jogos, mas o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu manter a programação original. Dezoito pessoas foram mortas, entre atletas israelenses, terroristas palestinos e policiais.

Ato terrorista se repetiria nas Olimpíadas de 1996 (Atlanta), com a explosão de uma bomba que vitimou duas pessoas no Parque Olímpico lotado.

Em março de 1980 o presidente americano Jimmy Carter anunciou a decisão de boicotar os Jogos Olímpicos de Moscou em nome da paz e contra a invasão do Afeganistão. Argumenta-se que além da questão geopolítica, existia o medo que se repetisse o fracasso de 1976 (Montreal), quando o país da maior economia do mundo foi superado pela comunista Alemanha Oriental. Um novo vexame americano na casa do inimigo era inadmissível.

Em 1984 os soviéticos deram o troco ao boicote de 1980. Em maio, o dirigente soviético Konstantin Tchernenko anunciou o boicote aos Jogos de Los Angeles, seguido pelos seus países satélites (Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Coréia do Norte, Cuba…). Mesmo com o boicote liderado pela União Soviética, as Olimpíadas de Los Angeles tiveram o recorde de países participantes até então.

Os Jogos de Seul (1988) marcaram o reencontro de estadunidenses e soviéticos depois de 12 anos. Cuba e Coréia do Norte boicotaram as Olimpíadas de Seul. O boicote da comunista Coréia do Norte justifica-se devido a divisão e conflito existente desde a Guerra da Coréia (1950-1953). Esse movimento foi seguido por Cuba, Etiópia e Nicarágua. O regime totalitário albanês declara seu quarto boicote consecutivo – um verdadeiro recorde olímpico.

Na glamorosa Barcelona acontecem os Jogos seguintes (1992). Os nacionalistas catalães exigiram o hasteamento das bandeiras da Espanha e da Catalunha e a execução dos dois hinos “nacionais” nas cerimônias oficiais.

Após a queda do Muro de Berlim (1989), os alemães competiram unificadamente. A URSS tinha se desintegrado, e as ex-repúblicas soviéticas competiram ainda sob uma única bandeira: Comunidade dos Estados Independentes (CEI).

O fim da história anunciado pelo nipo-americano Francis Fukuyama vai representar o surgimento de uma nova “ditadura” na era da globalização: o poder das grandes corporações transnacionais. Será emblemático que a Olimpíada de 1996 deixasse de ocorrer em Atenas (em comemoração ao centenário das Olimpíadas modernas) e acontecesse na cidade sede da Coca-Cola, Atlanta, apenas 12 anos depois de uma Olimpíada nos EUA.

Em 2000 (Sydney) alguma atitude é tomada contra o famigerado regime totalitário do Afeganistão, quando esse país é suspenso dos Jogos Olímpicos em razão do governo talebã não permitir a participação de atletas femininas. Em Atenas (2004) cai a suspensão, e o novo regime afegão participa dos Jogos com atletas mulheres.

Com esse retrospecto histórico, não surpreende que em Pequim (2008) se assistisse a mais uma disputa por hegemonia. Agora não mais entre EUA e URSS (pois esta acabou) e sim entre o imperialismo americano e o regime totalitário chinês – ditadura de partido único, onde a esperança de liberdade se apresenta na inevitável abertura para o Ocidente ao sediar um evento de olímpica magnitude.

Independente dessas questões políticas, os Jogos Olímpicos nos mobiliza entretém, emociona… tanto na forma de espetáculo quanto na construção identitária nacional – que tal o Brasil ganhar algo nessas recém-iniciadas Olimpíadas de Londres, 2012?

Isso nos leva a recordar o espírito olímpico da cultura greco-romana: a crença na capacidade humana de construir uma sociedade em harmonia e paz universal, substituindo a competição que se busca resolver utilizando tanques, metralhadoras e canhões – Na Síria, Afeganistão, Iraque… – por bolas, raquetes, varas e quimonos que decidam competições salutares nos jogos olímpicos.

Utopia? Talvez. Mas vale a pena sonhar… porque sonho que se sonha junto se torna realidade.

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