Má vontade em relação aos Alcoólicos Anônimos | Por Juarez Duarte Bomfim

Juarez Duarte Bomfim.
Juarez Duarte Bomfim.

Apresento-lhes, a seguir, uma matéria da Folha de São Paulo, do colunista Contardo Calligaris, que motivou uma réplica da também colunista confrade Barbara Gancia. De um lado, um colunista que, talvez não intencionalmente, busca desqualificar – por ignorância e desinformação – a metodologia do AA (Alcoólicos Anônimos); de outro lado, um membro do AA, que depõe sobre os benefícios conquistados naquela instituição.

Cada um sabe onde o sapato aperta, diz o ditado popular. Quem não vive o drama de alcoólicos e drogadictos, corre o risco de não entender a filosofia implícita no slogan do AA e NA (Narcóticos Anônimos): “só por hoje”.

Aos interessados: leiam.

Barbara Gancia:

Um convite a Contardo Calligaris

A COLUNA do Contardo Calligaris de ontem, que menciona seu amigo alcoólatra esti­mulado a voltar a beber pela mulher foi um clássico. Um clássico equívoco a ser evitado.

Costumo ler o Contardo de joe­lhos. Mas não ontem. Ali ele trivia­lizou um assunto que não só conhe­ço bem, como sou testemunha diá­ria dos efeitos devastadores que produz, inclusive pela negligência com que é tratado. Não dá para en­tender a má vontade dos profissio­nais do país com os Alcoólicos Anô­nimos, uma irmandade reconheci­da no mundo todo pelos excelentes serviços que presta.

O texto de Calligaris me remeteu ao hepatologista de Tarso de Cas­tro, que chegou ao cúmulo de libe­rar o jornalista, dependente, para tomar uma taça de vinho ao dia.

Não sou especialista, apenas al­guém que padece de uma doença que a Organização Mundial da Saú­de define como “incurável, pro­gressiva e mortal”. E posso atestar que o texto serviu de luva para rea­firmar o propósito de que proble­mas relativos ao álcool devem ser tratados dentro da sala dos Alcoóli­cos Anônimos, bem longe do divã do psicanalista.

Veja. Quem conhece minima­mente os 12 Passos dos AA sabe que o programa não oferece garantias. Mas, a dada altura, por negligência ou mero infortúnio, Contardo diz o seguinte: “O homem frequentou os AA e deu certo”. Ora, para nós, membros dos AA, ao contrário, o programa funciona, se muito, “só por hoje”, nunca “dá certo”, inexis­te esse conceito. Eu posso voltar à ativa daqui a 20 minutos, corro esse risco, é da natureza da doença.

Um dos maiores predicados dos AA, inclusive, é esse. O de me colo­car o tempo todo no presente para que eu consiga reduzir a angústia que a lembrança do passado me traz e diminuir a ansiedade que o peso do futuro pode vir a me causar.

Mas de que importa a filosofia dos AA? Bom mesmo é teorizar, não é para isso que serve psiquiatra? Cal­ligaris menciona ainda que, acon­selhado pelo seu grupo, o su­jeito passou por uma “internação de um ano”. De onde tirou um ab­surdo desses, só Deus sabe. Inter­nação longa nos AA? Em 20 anos de Alcoólicos Anônimos nunca vi essa picaretagem. Aliás, é cada vez mais comum no país a prática criminosa da internação longa que isola o de­pendente da família e coloca o mé­dico como intermediário todo-po­deroso, sem que ninguém fiscalize.

Adoro ler o Contardo, ele me ex­plica muitas coisas. Mas não me ex­plica tudo. A psicanálise é aleijada da dimensão espiritual, um cami­nho muito indicado, senão impres­cindível, para alguém como eu, que produz pouca endorfina, dopami­na e outros opiatos naturais por conta dos anos que passei maman­do destilados. Jung já advertia so­bre isso a Bill e Bob, os dois sujeitos que fundaram os Alcoólicos Anôni­mos. Está documentado.

Fico me perguntando a quem Cal­ligaris refere os casos mais graves de dependência. Não gosto nem de pensar na resposta. Em todo caso, uma atividade não interfere na outra, não é mesmo? O colunista é um, o médico é outro. Vamos dei­xar assim.

E deixar também um convite para que o amigo Contardo venha assis­tir a qualquer próxima edição que eu for dar da palestra “Do Fundo da Garrafa ao Domínio da Minha Vi­da”, em que conto um pouco sobre meu trágico envolvimento com o álcool e como consegui sair desse inferno. Quem sabe ele não se ani­ma a vir conhecer uma sala dos AA por dentro? Só por hoje. Funciona.

Contardo Calligaris:

Os outros que ajudam (ou não)

Muitos anos atrás, conheci um alcoólatra, que, aos 40 anos, quis parar de beber. O que o levou a decidir foi um acidente no qual ele, bêbado, quase provocara a morte da companheira que ele amava, por quem se sentia amado e que esperava um filho dele.

O homem frequentou os Alcoólatras Anônimos. Deu certo, mas, depois de um tempo, houve uma recaída brutal. Desanimado, mas não menos decidido, com o consenso de seu grupo dos AA, o homem se internou numa clínica especializada, onde ficou quase um ano -renunciando a conviver com o filho bebê.

Ele voltou para casa (e para as reuniões dos AA), convencido de que nunca deixaria de ser um alcoólatra -apenas poderia se tornar, um dia, um “alcoólatra abstêmio”.

Mesmo assim, um dia, depois de dois anos, ele se declarou relativamente fora de perigo. Naquele dia, o homem colocou o filhinho na cama e, enfim, sentou-se na mesa para festejar e jantar.

E eis que a mulher dele chegou da cozinha erguendo, triunfalmente, uma garrafa de “premier cru” de Château Lafite: agora que ele estava bem, certamente ele poderia apreciar um grande vinho, para brindar, não é?

O homem saiu na noite batendo a porta. A mulher que ele amava era uma idiota? Ou ela era (e sempre tinha sido) companheira, não da vida do marido, mas de sua autodestruição? Seja como for, a mulher dessa história não é um caso isolado.

Quem foi fumante e conseguiu parar, quase certamente encontrou um dia um amigo que lhe propôs um cigarro “sem drama”: agora que você parou, vai poder fumar de vez em quando -só um não pode fazer mal.

Também há parentes e próximos que patrocinam qualquer exceção ao regime que você tenta manter estoicamente: se for só hoje, uma massa não vai fazer diferença, nem uma carne vermelha. Seja qual for a razão de seu regime e a autoridade de quem o prescreveu, para parentes e próximos, parece que há um prazer em você transgredir.

Em suma, há hábitos que encurtam a vida, comprometem as chances de se relacionar amorosa e sexualmente e, mais geralmente, levam o indivíduo a lidar com um desprezo do qual ele não sabe mais se vem dos outros ou dele mesmo.

Se você precisar se desfazer de um desses hábitos, procure encorajamento em qualquer programa que o leve a encontrar outros que vivem o mesmo drama e querem os mesmos resultados que você. É desses outros que você pode esperar respeito pelo seu esforço -e até elogio (quando merecido).

Hoje, encontrar esses outros é fácil. Há comunidades on-line de pessoas que querem se livrar de seu sedentarismo, de sua obesidade, do fumo, do alcoolismo, da toxicomania etc. Os membros de uma comunidade registram e transmitem, todos os dias, seus fracassos e seus sucessos. No caso do peso, por exemplo, há uma comunidade cujos membros instalam em casa uma balança conectada à internet: o indivíduo se pesa, e a comunidade sabe imediatamente se ele progrediu ou não.

Parêntese. A balança on-line não funciona pela vergonha que provoca em quem engorda, mas pelos elogios conquistados por quem emagrece. Podemos modificar nossos hábitos por sentirmos que nossos esforços estão sendo reconhecidos e encorajados, mas as punições não têm a mesma eficácia. Ou seja, Skinner e o comportamentalismo têm razão: uma chave da mudança de comportamento, quando ela se revela possível, está no reforço que vem dos outros (“Valeu! Força!”).

Já as ideias de Pavlov são menos úteis: os reflexos condicionados existem, mas, em geral, se você estapeia alguém a cada vez que ele come, fuma ou bebe demais, ele não parará de comer, fumar ou beber -apenas passará a comer, fumar e beber com medo.

Volto ao que me importa: por que, na hora de tentar mudar um hábito, é aconselhável procurar um grupo de companheiros de infortúnio desconhecidos? Por que os próximos da gente, na hora em que um reforço positivo seria bem-vindo, preferem nos encorajar a trair nossas próprias intenções?

Há duas hipóteses. Uma é que eles tenham (ou tenham tido) propósitos parecidos com os nossos, mas fracassados; produzindo nosso malogro, eles encontrariam uma reconfortante explicação pelo seu.

Outra, aparentemente mais nobre, diz que é porque eles nos amam e, portanto, querem ser nossa exceção, ou seja, querem ser aqueles que nós amamos mais do que nossa própria decisão de mudar. Como disse Voltaire, “Que Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu”.

*Juarez Duarte Bomfim, sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

Juarez Duarte Bomfim
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Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]