A dor de Jerôncio | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA).
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA).
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)
Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA). (Foto: Carlos Augusto (Guto Jads) - Jornal Grande Bahia)

Jerôncio Brito de Souza é lavrador na roça do pai, de outros que seja. Levanta casas, pedreiro, quando o trabalho na lavoura escasseia. Não despreza uma cachaça, que ninguém é de ferro. Aproxima-se agora dos 30 anos. Casou-se cedo com Silvânia Mota da Silva, também com menos de 30. Protagonistas da dor dilacerante de terem perdido os filhos. Não de morte morrida ou morte matada. Levaram-nos embora, sumiram com eles no mundo, sem lhes dar explicação. Decisão de juiz, polícia na porta.

Jerôncio é pai de quatro crianças, todas da união dele com Silvânia: Ricardo Wallace, seis anos; Daniel, quatro; Danilo, três; e Luan, de apenas um ano e meio. Silvânia, além desses, é mãe de Estéfane, fruto de outra relação, recém-nascida. Dois mandados de busca e apreensão, entre maio e junho deste ano, tiraram as crianças do aconchego deles. São hoje quase mortos-vivos, sem alegria de viver, e sem saber o que fazer ou a quem apelar. Mandaram seus filhos para não sabe que mundo ou destino. Jerôncio nunca se conformou.

Até hoje só faz chorar. “Sou homem. Meus filhos não são filhos de urubu”, repete. No dia seguinte à retirada das crianças de sua casa, invadiu o Conselho Tutelar, quis arrebentar tudo, distribuiu pontapés em mesas e cadeiras, assustou conselheiras. Que mais esperar de um pai cheio de amor, que não sabe a quem responsabilizar? Não machucou ninguém, não quebrou nenhum computador, nada. Mas, a lei o levou para a prisão, onde ficou por 21 dias. Só saiu ao custo de cinco mil reais, não se sabe se pago ao advogado ou como fiança. O pai teve que vender a casa onde morava para tirá-lo do inferno. Daquele inferno, porque do outro não consegue sair.

Perambulou pela cidade, errante, entrou numa lojinha, pegou duas cuequinhas de criança, saiu. Chorava. A dona nem se incomodou porque se fora sem pagar. Como não se sensibilizar com tanta dor? De vez em quando, agarra as fotos dos meninos, numa moldura dourada, alisa que alisa, como se acariciasse cada um deles, imagina-os ali ao lado dele, e chora feito criança. Embalado pelo álcool, promete matar a galega. É, a galega andou coisa de quatro anos por Monte Santo, município do Norte da Bahia, onde se deu a tragédia.

O nome da galega é Carmem, sempre à procura de crianças para adotar. Neste caso, apresentando pessoas como ela, interessadas em buscar crianças. Depois disso, Carmem e seu marido Bernard sumiram. O casal já tem a guarda de três crianças, duas de Monte Santo e outra de Euclides da Cunha e nunca foi investigado. E tudo indica teve participação na articulação que tirou os filhos de Jeroncio e Silvania.

Esta, hoje, é uma jovem triste. Perdeu os cinco filhos, sem que lhe explicassem as razões. Mora com os pais e com seu novo bebê, Juan, filho do outro companheiro. A avó costuma afirmar que ninguém tirará Juan dos braços dela. A casa toda imersa na tristeza, olhos sem brilho entre roupas, brinquedos e fotos das crianças que se perderam no mundo, olhadas e reolhadas entre lágrimas, como se isso as trouxessem de volta.

A ação do Ministério Público e do novo juiz de Monte Santo reverterá a situação das crianças, presumivelmente adotadas, num processo absolutamente irregular. Elas já foram localizadas. Já se tem os endereços. Menos de um, Luan, então com um ano e meio, que sumiu, simplesmente sumiu. Quanto aos outros, restam as providências para fazê-los voltar aos braços de seus pais, que é o lugar deles, de onde nunca poderiam ser tirados, salvo se fossem violentos com as crianças, se não tivessem condições de criá-las, se não houvessem avós dispostos a cuidar delas. E nada disso ocorria.

A dor do pai e da mãe é a prova mais evidente do crime cometido – crime contra a humanidade. Ressalto o papel absolutamente essencial da jornalista Eleonora Ramos na elucidação de toda essa trama, que espero resulte num desfecho feliz para as crianças, todas, inclusive Luan, e para os pais. Ninguém pode negar a Jerôncio e Silvânia o direito de criar seus filhos. O direito de amá-los, de vê-los crescer, se desenvolver. Feita a justiça, nesse caso, desestimula-se a repetição de adoções criminosas como estas.

* Emiliano José é jornalista, escritor e deputado federal (PT-BA).

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