A nobreza da política | Por Emiliano José

Emiliano José é jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).
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Uma viagem à Itália, como a que realizei recentemente para começar as filmagens de documentário sobre o padre Renzo Rossi, permite, nem que precariamente, perceber o clima de desesperança que toma conta da Europa atual. Há um descrédito profundo na política – e este não é um problema exclusivamente europeu. E há, também, um sentimento de perplexidade diante da crise econômica, que subsiste há alguns anos. Esse olhar atônito diante do cenário atual atinge em cheio as esquerdas européias, que apesar das vitórias recentes das eleições presidenciais francesas e municipais na Itália não sabem o apresentar como alternativa ao neoliberalismo.

Participei de um debate em Florença – essa cidade-símbolo do Ocidente, berço da Renascença e dos maiores pensadores e artistas do século XV. Vários dos participantes, depois de uma breve fala minha, me agradeciam e eu, no princípio, não entendia bem por quê. Entendi depois, quando Mauro Perini, por três vezes prefeito de Pontassieve, cidade próxima a Florença, me disse que tais agradecimentos decorriam principalmente do fato de eu ter dito que a política era a mais nobre das atividades humanas.

O período Berlusconi, de triste memória, lamentavelmente deixou uma herança profundamente negativa. O desalento com a política talvez seja uma das marcas mais fortes dessa herança. Uma moça me agradeceu por falar em esperança e por revelar um Brasil que recusa a submissão ao neoliberalismo e que se tornou um protagonista efetivo da cena mundial. A Itália não vive um momento que justifique ter qualquer esperança, chegou a dizer. Disse-lhe, ao responder, que a esperança é tão mais necessária quanto mais difíceis sejam as condições políticas.

Enquanto ouvia as perguntas e olhava o auditório, com algumas poucas dezenas de pessoas, refletia sobre o que fora o Círculo Vie Nuove, no bairro Gavinana, de história ligada aos comunistas. Era o principal centro de mobilização política de Florença. O mais dinâmico. Agora, luta para recuperar a confiança na política. Curioso ver a Europa – ou ao menos a esquerda européia – querer saber o que ocorre no Sul do mundo. Perguntava-me, e disse no debate, se seria uma condenação ter que adotar o mesmo receituário de antes para enfrentar a crise que é, afinal, o que está acontecendo. O capital financeiro há de continuar a ditar os rumos da política? A tragédia grega talvez simbolize na sua forma mais dramática o que ocorre no Continente.

Cheguei a ouvir de um metalúrgico de Prato, município industrial vizinho de Florença, que não havia outro jeito. Que a Grécia tinha que se submeter aos ditames dos países mais importantes, o que quer dizer seguir as diretrizes do capital financeiro. Se isso não acontecesse, a Europa toda seria penalizada. E por Grécia, claro, leia-se na verdade os trabalhadores, que tiveram o salário mínimo reduzido à metade, isso para dar um exemplo de como, de fato, se penaliza com rigor os de baixo, fazendo com que tenham de pagar a conta da irresponsabilidade da banca financeira. Sempre apropriação dos lucros, socialização dos prejuízos.

Devemos muito à Europa. O pensamento iluminista, a Revolução Francesa, o marxismo, tudo isso nos iluminou sempre. A Itália foi berço da grande experiência de um partido comunista de massas – o PCI – que produziu lideranças do porte de um Gramsci, Togliatti, Berlinguer. Foi da Alemanha que vieram as luzes de um Marx. Quando, no Círculo Vie Nuove, me perguntaram sobre o que devia fazer a esquerda européia, pensei muito, pois, afinal, é muito difícil apontar caminhos a outros povos.

Ousei, no entanto, dizer que considerava um equívoco político grave entregar os destinos do Continente aos banqueiros. E que nós, do Sul, especialmente da América Latina, que passamos séculos nos mirando na Europa, estávamos seguindo outro caminho, combinando crescimento econômico e distribuição de renda. Seria bom que o velho Continente, agora, olhasse para essas experiências, e recolhesse delas a idéia central de que a política pode fazer milagres, e tem condições de não se dobrar de modo tão obsceno à exclusiva lógica do capital financeiro.

*Emiliano José, jornalista, escritor e suplente de deputado federal (PT-BA).

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