Deus, a questão | Por Frei Betto

Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), frade dominicano, jornalista e escritor, autor de Por uma Educação Crítica e Participativa (Rocco), entre outros livros.
Frei Betto: Jesus fez Deus descer de sua solidão celestial e habitar o humano. "E o Verbo se fez carne". Fundiram-se, então, o céu e a terra, o divino e o humano.

Só há uma questão verdadeiramente filosófica, diz Kirilov, personagem de Dostoiévski: a existência de Deus. Se Deus não existe, então tudo é permitido. Paulo, o apóstolo, preferiu sobrepor o amor à fé. “Ainda que eu tivesse a fé capaz de transportar montanhas, mas não tivesse o amor, seria como o bronze que soa e isso de nada me adiantaria”. Quatro séculos mais tarde, santo Agostinho resumiria o hino paulino numa proposta: “Ama e faze o que quiser.”

Deus inquieta-nos. Não é fácil ignorá-lo. Prova disso é que não se restringem à mera indiferença aqueles que o negam; constituem-se num movimento de rejeição militante: o ateísmo.

Muito contribuíram para suscitar o interesse por Deus os manuais soviéticos que pregavam o ateísmo, disse-me em Moscou um teólogo da Igreja Ortodoxa russa. A insistência em negá-lo despertava em crianças e jovens o apetite pelo “fruto proibido”. Deus era conatural às civilizações antigas. A Anbtropologia desconhece casos de tribos atéias. Isso levou Comte a acreditar, induzido por uma lógica mecanicista, que a religião era um estágio primitivo de cultura e a ciência, o ápice.

Três séculos antes, Descartes admitira sua finitude frente à infinitude divina: como seres imperfeitos como nós podem trazer na mente a idéia de um ser perfeito? Bafejado por Artistóteles, Tomás de Aquino, no século XIII, cedeu à tentação de querer provar a existência divina pela via racional.

Um deus que precisa ser provado não merece ser Deus. Banhar-se nas águas do rio é muito diferente do que conhecer a fórmula e as propriedades químicas da água. Outrora, os deuses promoviam a coesão dos povos. O céu estava povoado por inúmeros deles.

Até que um casal de sem-terra do atual Iraque, Abraão e Sara, foi para o Egito em busca de melhores condições de vida. Ao passar pelo monte Moriá, na atual Jerusalém, recebeu a revelação de Javé, o Deus único.

Jesus fez Deus descer de sua solidão celestial e habitar o humano. “E o Verbo se fez carne”. Fundiram-se, então, o céu e a terra, o divino e o humano. O Senhor dos Exércitos, cujo nome era impronunciável pelos hebreus, revelou-se, em Jesus, como Abba, o Pai amoroso que cobre de beijos o filho pródigo.

Essa avassaladora paixão do Criador por suas criaturas assusta os que pretendem ser seus únicos porta-vozes. Daí a tendência de as religiões aprisionarem Deus na figura de um irado inquisidor, burocratizando o amor divido e congelando-o em doutrinas maniqueístas, nas quais o castigo predomina sobre o perdão e a disciplina sobre a liberdade.

No século XX, o clamor de duas grandes guerras encheu céus e corações humanos de silêncio de Deus. Motivados pelo racionalismo, Marx e Freud já haviam concordado que a idéia de Deus é uma inversão compensatória de nossas incompletudes.

Só não se deram conta de que a razão é a imperfeição da inteligência.

Deus, no entanto, mostra-se agora mais vivo do que nunca. Como predisse Rimbaud, há uma “gula de Deus”, da expansão de novas igrejas ao esoterismo, do gnosticismo acadêmico aos movimentos pentecostais. É o ateísmo que se encontra em crise. Quando muito, o cético diz-se agnóstico.

Enquanto isso, Deus – que não tem religião – desborda os cânones institucionais, burla a vigilância eclesiástica e ocupa, com seu toque sutil, o coração dos pobres e também dos físicos, dos intelectuais e dos artistas renomados. Ele sabe, como diria Tomás de Aquino, que são habitados por um outro que não é eles e, no entanto, restaura-lhes a verdadeira identidade. A fé, aliás, é um fenômeno da inteligência.

Mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos, como afirmou Agostinho, Deus é, de fato, a questão axial da existência humana. Tudo mais são contingências. Mas, para acolhê-lo, é preciso dobrar os joelhos e deixar-se habitar por seu espírito amoroso.

Como mero objeto de fé, Deus não passa de mito, se, em nossas vidas, não se traduz em amor que liberta, segundo os novos mandamentos descritos no Sermão da Montanha. E, para nós cristãos, o centro da revelação divina é Jesus, com quem Dostoiévski, se instado a escolher, preferiria ficar a ficar com a verdade.

*Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), frade dominicano, jornalista e escritor, autor de Por uma Educação Crítica e Participativa (Rocco), entre outros livros.

*Artigo publicado no Jornal de Ciência e Fé em maio de 2001, ano 2, nº 30.

Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), frade dominicano, jornalista e escritor, autor de Por uma Educação Crítica e Participativa (Rocco), entre outros livros.
Frei Betto: Jesus fez Deus descer de sua solidão celestial e habitar o humano. “E o Verbo se fez carne”. Fundiram-se, então, o céu e a terra, o divino e o humano.
Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]