Sortilégios dos desenlaces | Por Emiliano José

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É um tempo curioso, esse, o do calendário ocidental. Final de ano, novo ano. Há uma espécie de pausa, e depois reinício, como se houvesse um fim de estrada, início de outra. É pau, é pedra, é o fim do caminho, é o fundo poço. É, às vezes, o fundo do poço. Quando caem as estantes, quando tudo desaba, e tudo tem de ser reconstruído. Aí, a alma, o edifício todo tem de ser novamente levantado, alma eventualmente jogada na lama por dores do amor. Alma e lama, aliás, tem parentesco, não? Vejam, olhem. Olhem para a arquitetura das duas palavras.

Conversando com um amigo, que sentiu e sente essas dores duras do abandono, dores da separação, separação de amantes, pensei nesse tempo, e quase cantarolei, à Gil e Bob Marley, não, não chores mais, que tudo, tudo vai dar pé, que tudo, tudo vai passar. Construíram esse tempo de balanço, quase obrigatório. Um tempo que deveria ser de reflexão, e de amadurecimento. E que nem sempre o é, por força do que nos impõe o capitalismo e a força do consumismo. É como se fôssemos obrigados, compelidos a comprar, a presentear, não importa que a vontade nem sempre venha do coração, que só às vezes vem de um desejo genuíno.

De alguma forma, este é um tempo de separação. De rompimento com o velho. Aparentemente não há recuperação do que passou. Mas, há. Penso em Walter Benjamin, e no que dizia sobre uma espécie de ressurreição do passado. Lá, no que passou, estão plantados os nossos sonhos. Que vão continuar germinando, que aparecerão à frente. Assim, essa separação não é tão clara, como se pretende. Depende da capacidade que tenhamos de aproveitar o que plantamos, de colher as sementes que espalhamos, de continuar a lutar para realizar os sonhos que pensamos lá trás. De alguma forma, podemos dizer também feliz ano velho, se não desprezarmos o tanto de bom que construímos.

Como, por exemplo, na vida política, vou esquecer tudo o que foi edificado no ano que passou? Nada. Tenho é que examinar o que foi sonhado e concretizado, e dar sequência à caminhada, sem interrupções. O passado, tanto o mais próximo, quanto o mais remoto, serve sempre de alimento para o presente e para o que queremos construir para as próximas gerações, no futuro. Sonhos não são construídos de um estalo. Levam tempo para se tornarem realidade, e por isso, passado e presente devem se entrelaçar.

Claro que na separação dos amantes, tudo parece mais difícil. Tenho observado o sofrimento desse amigo. Sentido o quanto dói um abandono, e atire a primeira pedra aquele que não sofreu por amor. Como dizia, desaba tudo, e tudo parece acabar, e pior ainda se isso se dá nas proximidades de um tempo como esse, calendário de natal, fim de ano. Parece o fim de tudo, parece que a vida perde sentido, que não haverá mais amor, que a alma foi jogada na lama, coitada. E aí vem Lupicínio, você sabe o que é ter um amor, meu senhor… E vem Caetano, o ciúme lançou a sua flecha preta… Tudo parece escuridão.

Tenho dito a ele que não, que a vida segue, que o mundo dá voltas, e que o amor retorna, não sei se o mesmo amor, que às vezes ocorre, ou se um novo. Que retorna, retorna. Só é preciso a coragem de viver. A resistência para não sucumbir. O edifício humano é frágil, mas tem forças inimagináveis dentro de si. Na solidão, ele se suficienta, à Manoel de Barros, e busca as energias para se reintegrar consigo próprio, e buscar na convivência fraterna com os outros humanos o caminho para reencontrar uma outra amante, ou a mesma amante em novas condições.

Amante aqui não tem a conotação pejorativa com que é usada. Leva a idéia do grande amor, que reaparece, se a alma não for pequena, se o coração estiver aberto, disposto a enfrentar a barra de viver. E viver não é uma estrada sem curvas, sem obstáculos. Para enfrentar a vida, é preciso coragem. E as separações cobram coragem também, de qualquer lado. Do que abandona, do que é abandonado. Nesses tempos de separação, mesmo triste, é preciso cantar: gracias a la vida, que me ha dado tanto… Feliz anos novos, com velhos ou novos amores, inverno e primavera, que a vida é dura e é bela. E sempre nos reserva surpresas…

*Emiliano José é jornalista, escritor, deputado federal (PT/BA)

[email protected].br | www.emilianojose.com.br

*Com informações: Emiliano José | [email protected]

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