Os olhos frescos do fotógrafo José Miguel Ferreira

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Entre 2008 e 2011, José Miguel Ferreira fotografou diversos parques naturais do norte de Portugal, um país onde viveu vários anos, mas do qual conhecia muito pouco. 

Deste projecto, designado “Naturalia”, resultou um conjunto de fotografias em platina e paládio, que está exposto no Museu da Imagem, na cidade portuguesa de Braga, até dia 30.

Em 2011, o fotógrafo português, que vive há 20 anos em Genebra, esteve “muito atarefado”, nomeadamente com outro projecto: “A Rota do Vinho do Porto”, que incluiu várias exposições e o lançamento de um livro, com fotografias e poesia, em três idiomas: português, francês e inglês.

José Miguel Ferreira nasceu em 1972, em Angola, na altura uma colónia portuguesa. Depois, passou a infância e a adolescência em Portugal, até emigrar para a Suíça, onde já passou mais de metade da sua vida. Com um percurso repartido por vários sítios, o fotógrafo tem dificuldade em definir onde estão as suas raízes: “Nós, emigrantes, viajantes, vamo-nos apropriando daquilo que os outros países também têm para oferecer. Por isso, no fim eu não vejo um só país como sendo o país natal”.

Há cinco anos, José Miguel Ferreira despertou para o facto de que conhecia muito pouco de Portugal. Fez, então, inúmeras viagens “do rio Mondego para cima”, de maneira a passar nos diferentes parques e nas diferentes cidades”. Acompanhado da câmara fotográfica, viu o país “com olhos frescos”, algo que só é possível a quem aí não mora. O que encontrou “foi sempre uma grande novidade”.

E o que é que descobriu enquanto fotografava o Parque Nacional Peneda-Gerês e os Parques Naturais de Montesinho, Alvão, Douro Internacional e Serra da Estrela? “As paisagens naturais em Portugal, talvez por causa da desertificação do interior, conservam algo de outro tempo. Há aldeias que estão completamente isoladas do resto da sociedade. Achei extremamente interessante o facto de ainda haver estes poços de civilização num meio tão agreste. Morar na Serra da Estrela ou no Parque Nacional da Peneda-Gerês, sobretudo no Inverno, é algo muito difícil, porque é muito húmido, chove quase todo o tempo, o que também contribui para a beleza das paisagens”, sublinha o fotógrafo.

José Miguel Ferreira é sempre atraído pela beleza dos espaços naturais, independentemente de já estar envolvido noutro projecto. “As imagens vão-se acumulando e os projectos desenvolvem-se mais tarde”, sempre com um objectivo: “Dar a conhecer essa beleza natural, mas incentivar a desfrutá-la com um certo cuidado, para que ela não venha a ser uma vítima do seu próprio sucesso. Tento despertar uma certa sensibilidade para a protecção desses espaços naturais”.

A Rota do Vinho do Porto 

“A Rota do Vinho do Porto” foi outro dos projectos que preencheu o ano de 2011 de José Miguel Ferreira. Uma selecção das centenas de fotografias que tirou desde o Alto Douro até Vila Nova de Gaia esteve exposta em algumas cidades portuguesas.

”A viagem pelo território do vinho do Porto, tal como a poética destas imagens de José Miguel Ferreira, procura a identidade do lugar. Com todos os sentidos. Assumindo a dúvida, como confessa o autor. Porque, acima de tudo, trata-se de ‘fazer Arte como se faz Amor’. Com o corpo e com a alma”, escreve Gaspar Martins Pereira no prefácio do livro “A Rota do Vinho do Porto”, que conjuga as fotografias com poesia de A. M. Pires Cabral.

A obra foi publicada em português, francês e inglês e está à venda, fisicamente, em Portugal, Bélgica, França e Suíça, mas também em vários sítios da internet. Em Genebra pode ser adquirida em vários estabelecimentos suíços, mas não na livraria portuguesa, que, segundo o autor, “não manifestou interesse” em comercializar a publicação.

Tiragem fotográfica em platina e paládio 

Há cinco ou seis anos que o fotógrafo trocou os sais de prata pela platina e paládio (a platinotipia é um processo fotográfico alternativo, usado por alguns fotógrafos no início do século XX) “não somente por causa da qualidade técnica, estética e de fino detalhe – ainda hoje inultrapassável -, mas também pela extrema longevidade que permite”.

José Miguel Ferreira entende que “da mesma maneira que é necessário preservar o património artístico, histórico e natural, deve-se também preservar a documentação do que um dia pode vir a desaparecer”. E dá o exemplo da Linha do Tua, outro trabalho fotográfico que efectuou, em 2008, com a mesma técnica e que é agora “documentação histórica”.

*Com informações: Filipa Soares, swissinfo.ch

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