Ex-prefeito José Ronaldo afirma: Feira de Santana é uma cidade politizada. É um povo independente, que decide seu destino por si só

Ronaldo vai enfrentar três máquinas de conquistar votos.
Ronaldo vai enfrentar três máquinas de conquistar votos.
Ronaldo vai enfrentar três máquinas de conquistar votos.
Ronaldo vai enfrentar três máquinas de conquistar votos.

O ex-prefeito José Ronaldo de Carvalho, filiado ao partido Democratas, deve apresentar a sua pré-candidatura à prefeitura de Feira de Santana após o carnaval. Eleito por duas vezes prefeito e apoiado o sucessor e atual adversário político, Tarcízio Pimenta. Ronaldo parte para a mais difícil disputa eleitoral de sua trajetória política. Uma vez que terá como concorrentes o deputado estadual e líder do governo e da maioria na AL-BA (Assembleia Legislativa da Bahia), Zé Neto (PT) e Tarcízio Pimenta, filiado ao PDT.

Ronaldo vai enfrentar três máquinas de conquistar votos, a estrutura federal e a estadual que está com Neto e a municipal que conta com o controle de Pimenta. Em entrevista ao jornalista Biaggio Talento, do A Tarde, concedida no último dia 2 (01/2012), José Ronaldo discorreu sobre as eleições municipais de 2012, disse existir uma convergência de candidaturas entre Democratas, PSDB e PMDB. Comentou sobre o peso das máquinas eleitorais federal, estadual e municipal. Afirmou que o povo de Feira de Santana tem maturidade política para decidir o destino do município independente de influências externas. Ele também desdenhou do fato de políticos como Lula, Dilma Rousseff, Jaques Wagner e outros, virem para o palanque municipal, afirmando que os venceu em eleições passadas.

Confira a entrevista

Clima político em Feira de Santana

José Ronaldo – As ruas, o povo, a classe política, falam muito da eleição. Existem pessoas que publicamente já admitem a candidatura. O prefeito (Tarcísio Pimenta) diz que é candidato à reeleição, o deputado Zé Neto (PT) comenta também que é candidato e mais recentemente o deputado Colbert Martins (PMDB) comenta este assunto. A própria mídia da cidade, que é muito forte, trata deste assunto. As emissoras de rádio AM, praticamente 24 horas de notícias, se preocupam muito com o mundo político. Isso tudo provoca esse debate, prematuro, que já vem acontecendo desde maio ou talvez até antes e isso enriquece também o processo político. Embora, de certa maneira seja um pouco cansativo, acho que debate político feito com civilidade também é bom para a sociedade.

Disputa antecipada

José Ronaldo – A administração pública sofre um pouco. Quando se ganha uma eleição você precisa cair de corpo e alma no processo administrativo. A política tem um momento próprio. Esses últimos anos em Feira de Santana foi muito enriquecido coma questão política porque teve a eleição de 2010, com determinadas características que proporcionaram uma movimentação maior no município.

Uso da máquina pública

José Ronaldo – Extremamente natural. Não vejo nenhuma novidade nisso. Deixe eu contar um pouco a história política de Feira de Santana . Em 2004 fui candidato à reeleição e tive como adversários o deputado Colbert Martins e o deputado Zé Neto e naquela oportunidade era o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Fiz a minha campanha, onde em momento algum dirigi uma palavra contra Lula, aliás, durante os meus anos como prefeito foi assim, e tive todos os projetos que eu encaminhei a Brasília aprovados, tanto no tempo do presidente Fernando Henrique como no de Lula. Em 2004, o Colbert (além de Zé Neto) era correligionário do Lula. O governador era Paulo Souto (DEM). Fizemos a campanha e fomos vitoriosos com um percentual de votos 10% superior à minha primeira eleição de prefeito. Em 2008 não fui candidato e através de uma escolha de grupo, com nossa participação efetiva, apoiamos um candidato [Tarcízio Pimenta] e toda a campanha foi em cima do ex-presidente Lula e do governador Jaques Wagner (eram candidatos Colbert e o deputado Sérgio Carneiro).

Cenário se repete em 2012

José Ronaldo – É semelhante ao que está acontecendo agora. A única diferença é que eu ainda não anunciei uma candidatura, em momento algum afirmei de público que sou candidato, afirmo sempre de que os contatos políticos vêm, de fato, fazendo com intensidade, reuniões, debate em nível partidário e de pessoas, esse diálogo, de fato, existe, mas sempre acho que trabalhar um processo político com tamanha antecedência não é uma coisa muito boa.

Melhor momento para apresentar candidatura

José Ronaldo – Sempre digo que a partir de março, Feira de Santana tem a tradição tornar isso bem mais claro todo esse processo político. Enfim, não vejo diferença entre o que o deputado (Zé Neto) prega no momento com o que se pregou em 2008. Entendo que Feira nunca foi diferente nesse aspecto. Quem conhece a história política da Bahia sabe que já tivemos em Feira um período de Chico Pinto, eleito, depois João Durval, José Falcão. Lembro que quando Falcão foi eleito pela primeira vez era do MDB e o seu adversário era João Durval que naquela oportunidade era o candidato dos governos (estadual e federal). José Falcão foi eleito. Posteriormente Colbert Martins foi eleito prefeito pela primeira vez, sem o apoio dos governos estadual e federal. João Durval já foi eleito também uma vez prefeito, sem apoio do governo estadual. Então, Feira de Santana é uma cidade politizada. É um povo independente, decide seu destino por si só. A influência externa em Feira nunca decidiu eleição. E vai continuar sendo assim, pois o povo sabe o que quer.

Dificuldade em conquistar verbas públicas

José Ronaldo – Historicamente nunca houve empecilhos à administração pública de Feira, externamente. Independentemente de quem seja o prefeito, seu partido político, os governos federal e estadual nunca trabalharam contra os prefeitos. Eles, defendendo os princípios constitucionais, o que eles entendem que o povo de Feira lhe confia esses governos municipais sempre trataram e conviveram com autoridades estadual e federal independentemente de siglas partidárias.

Projeto é fator determinante 

José Ronaldo – Exatamente. Brasília trabalha com projetos. Se você elabora bons projetos e seu governo tem credibilidade com certeza absoluta Brasília sempre vê com bons olhos esses projetos. As pessoas dizem até (eu fui prefeito dois mandatos) que os dois últimos anos que eu fiquei sem governo estadual, trabalhei muito mais do que antes. Sempre procurei dialogar com a classe política. Tive o apoio de duas bancadas na Câmara Municipal que ajudavam muito a administração, os vereadores trabalhavam muito na linha da coletividade, da defesa das causas públicas e na questão pessoal. A sociedade também contribuiu muito. Lembro que as pessoas me paravam na rua para dizer, “olhe meu carnê do IPTU não chegou, por favor, mande”.

Investimentos necessários para Feira de Santana

José Ronaldo – Como toda grande cidade que cresce muito, precisa de continuar suas obras de infraestrutura. Fizemos muito nessa questão, no transporte, mas como a cidade vai crescendo, o número de carros vai aumentando, você precisa continuar investindo para que o trânsito de lá não fique logo, logo parecido com o de Salvador.

União das oposições

José Ronaldo – Hoje se respira uma coisa diferente, nas oposições, do que um dois anos atrás. Hoje existe um diálogo entre partidos políticos e políticos que até o ano passado não era fácil, não acontecia com a frequência de agora. E a gente sente amadurecimento e seriedade nessa conversa que proporciona entendimentos em vários municípios. Assim, se num município tal um candidato é melhor do PMDB, a tendência é apoiar esse candidato, num município b, se o candidato melhor é do PSDB é ele o apoiado, se no município c o nome é do DEM vamos para ele. É isso que eu estou sentindo nas conversas das oposições. Agora eu sempre costumo dizer que quando um candidato é eleito, ele tem que governar com o povo, ou seja, se foi eleito precisa conviver com todas as autoridades na defesa de sua causa administrativa.

Programas sociais e uso eleitoral

José Ronaldo – Inegavelmente os programas sociais contribuíram especialmente na eleição de presidente da República no Nordeste, não há como esconder isso. Até na eleição de governador influencia, mas na de prefeito acredito que não, pois se trata de um pleito localizado, mesmo porque todos esses programas sociais são executados no município, com a participação efetiva das prefeituras (para o cadastramento das famílias, por exemplo).

Nós fizemos isso com irrestrito apoio. Todos os programas federais que nós pleiteamos, em Brasília, foram aprovados e implantados. Dois exemplos que posso dar: na área da saúde. Quando assumimos a prefeitura em 2001, Feira não tinha nenhum programa da saúde da família. Em oito anos quando saímos deixamos 83 Unidades de Saúde da Família. Veja em Salvador, se não me falha a memória, tem 55 equipes. O número de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) em Feira de Santana é semelhante ao número da capital baiana. Outro exemplo prático, de projeto feito nesses casos sem recursos federais, são as Policlínicas 24 horas (que o governo federal criou posteriormente e chamou de UPA- Unidade de Pronto Atendimento). São cinco unidades que funcionam até hoje exclusivamente com recursos municipais.

Acho que são grandes conquistas que mostram a sintonia municipal/estadual/federal. Essas policlínicas, instalamos pensando em dar um suporte melhor na saúde para melhorar, desafogar a questão do atendimento, crucial de Feira de Santana, que é o Hospital Regional Clériston Andrade, que atende uma demanda de muitos municípios.

Jaques Wagner no palanque do PT

José Ronaldo – Em 2008, como governador, Wagner fez a campanha política, defendeu o candidato do PT. Não só ele falou no programa político do PT, como o presidente Lula, como a então ministra Dilma Rousseff. Deverá o governador proceder da mesma forma, não imagino nada diferente. Dentro do espirito democrático não vejo nada de mais. O que não pode haver é a agressão nem o uso da máquina pública. Na eleição passada não ocorreu, tanto que não houve nenhum processo de uso da máquina na eleição. Na verdade houve uma ação pelo fato de eu gravar um programa em cima de um viaduto que construímos, mas isso foi arquivado pela Justiça Eleitoral, que entendeu que não era uso de máquina. E eu entendo também. Ora, se um cidadão está no governo e não pode mostrar os trabalhos que realizou como pode ser candidato à reeleição?

Oposição passa por um momento ruim

José Ronaldo – Na verdade, a vaidade humana existe em tudo na vida, agora eu acho que na hora que você deseja buscar a vitória, uma renovação no mundo político, no momento que está havendo um diálogo, acredito que tudo isso, evidentemente, passa pelo princípio onde a vaidade de alguém pode ser maior que a busca de uma vitória. Claro que existem dificuldades. Todo mundo sabe que há um número muito grande de pessoas que se filiaram em partidos vinculados ao governo, o que não é novidade, já aconteceu em outros períodos. Mas o mundo político é muito dinâmico. Sinceramente, acho que há um caminho novo e, como se busca o diálogo, o processo politico é muito bom e inserido na renovação que está acontecendo na Bahia.

Sobre Carlos Augusto 9459 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).