Roberto DaMatta: o governo não pode ter razões que a sociedade desconheça

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.
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O antropólogo Roberto DaMatta avalia que o Estado brasileiro deve se tornar mais transparente e permitir o controle social. “O problema é entre a transparência e a opacidade. A transparência entre aquilo que o governo faz e o que a sociedade sabe. O governo tem que prestar contas. O governo não pode ter razões que a sociedade desconheça”.

DaMatta coordenou a elaboração do Diagnóstico sobre Valores, Conhecimento e Cultura de Acesso à Informação Pública no Poder Executivo Federal Brasileiro, feito a pedido da Controladoria-Geral da União (CGU).

Em entrevista à imprensa antes de apresentar a publicação no evento da CGU para o Dia Internacional contra a Corrupção, na última sexta-feira (09/12/2011), DaMatta relacionou a série de demissões de ministros ocorridas desde junho à “confusão entre público e privado”. Segundo ele, também há ligação com aspectos culturais e históricos, que ainda fazem o país ter traços personalistas e autoritários. “O sistema político brasileiro é muito mais resistente em suas formas tradicionais”, disse.

“Somos um país de cultura católica: a gente confessa [para ter perdão]. Somos um país muito personalizado, existem muitos santos no Brasil, e temos um sistema político extremamente autoritário até hoje. Não podemos esquecer que tivemos um sistema escravocrata”, acrescentou.

Para o antropólogo, é preciso pensar em termos históricos. “Era uma sociedade de barões, príncipes e imperadores. A matriz republicana brasileira repousa em cima de uma administração imperial e aristocrática”, lembrou antes de comentar que “todo político brasileiro se aristocratiza (…). Ele toma posse do cargo, mas ele não é possuído pelo cargo”, diferenciou ao salientar que o cargo no Estado pertence à sociedade, a quem o político deve prestar serviço.

DaMatta avalia que o Brasil passa tardiamente por mudanças institucionais que já ocorreram em outros países. “Isso é o que nós estamos estranhando no século 21. Não é no século 19. Alguns países fizeram isso no século 18”, comparou.

Para ele, apesar das diferenças, o grande desafio para o Brasil e outros países é ser mais igualitário. “Nosso grande desafio continua sendo, como em todos os países, liquidar as diferenças sociais entre os muito ricos e os muito pobres e miseráveis.”

Sobre Carlos Augusto 9717 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).