O olhar de Dilma | Por Emiliano José

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Se uma palavra num texto é um bólido com milhões de sentidos, imagine uma foto. Algumas delas nos deixam estupefatos, primeiro. Depois, nos levam pelas mãos, e nos abrem as portas da percepção, numa caminhada sem fim. Esta, a minha sensação diante da foto daquela jovem sentada à frente de seus interrogadores, ou de seu interrogador, que não estão à vista. A foto da quase-menina de cabelos curtos, orelhas à mostra, foi publicada pela revista Época, de 5 de dezembro de 2011, curiosamente data do centenário de nascimento do herói brasileiro Carlos Marighella.

Olho uma, duas, três, centenas de vezes para a foto, e sou transportado a outro tempo, tempo que vivi, nas mesmas circunstâncias. A quase-menina está na Auditoria Militar do Rio de Janeiro, depondo. Camiseta branca, calça comprida, as mãos prestes a se entrelaçar, os polegares aparentemente em movimento e, parece-me, um pequeno papel seguro entre os dedos. Saiu de uma cova, foi para outra, com os mesmos leões. Antes de chegar àquela, enfrentara a tortura, com todos os requintes de crueldade, de perversidade da ditadura. A tortura era, então, regra. Não exceção.

Certamente, ela está ouvindo a promotoria militar ou, então, quem sabe, o advogado de defesa. Ao menos é o que se pode depreender da posição em que se encontra e do foco de seu olhar. E que impressionante é o olhar. Os olhos são o espelho da alma. Eles revelam tudo, por mais que a pessoa queira se esconder. O olhar da quase-menina no verdor de seus 22 anos alterna esperança, determinação, destemor e uma espécie de quase indiferença diante de uma situação inexorável. Parece não ver o interlocutor. Parece olhar por cima dele, e não para ele. Como se dissesse o que eu disser aqui só terá importância para a história, para a posteridade. Não para vocês.

Afinal, ela o sabia, um tribunal da ditadura, não se guiava por critérios de justiça, senão os dele mesmo, que era sempre condenar quaisquer adversários, quando a ditadura não os matava antes, na outra cova dos leões, os centros de tortura. O olhar dela parece dizer um dia isso passa, um dia isso tudo muda, um dia as posições das cadeiras se modificarão. Talvez poucos saibam que chegar às auditorias militares, regra geral, era um passo decisivo para quem era prisioneiro político. Respirava-se. A partir dali, nos tornávamos presos oficiais, e ser morto era mais difícil.

Os juízes, oficiais militares, devidamente fardados, em segundo plano na foto, cobrem os rostos, ambos com a mão direita, e não creio que o façam para se esconder. Talvez apenas revelem enfado com todo aquele teatro. Tinham clareza da sentença, ditada a priori, de acordo com a, para eles, periculosidade da prisioneira. Sabiam-na perigosa, leia-se uma militante política com capacidade de articulação, disposta a não desistir da luta contra a ditadura. Os jovens revolucionários de então eram considerados perigosos pelos militares. E quando chegavam aos tribunais não eram poupados. Alguns anos de suas vidas eram roubados, inapelavelmente.

A foto é de novembro de 1970, um ano de terror, como de terror especial foram aqueles anos Médici. Eu próprio fui preso em 1970. E no mesmo novembro, 20. A quase-menina chama-se Dilma Rousseff. Nunca se imaginaria, então, presidenta da República, comandante-em-chefe das Forças Armadas, senhora dos destinos do Brasil por delegação do povo brasileiro. Os que a torturaram, prenderam, condenaram são hoje lembrados com asco. Entraram para a história como carrascos, como coveiros da democracia. Muitos, como assassinos, pura e simplesmente.

Aquele olhar de esperança, revelado pela foto, um olhar que perscruta o futuro, que indaga o horizonte, que desconhece a contingência de estar presa e inevitavelmente ser condenada, era como que um olhar profético. Não do seu destino individual, que pouco importava a ela, tenho certeza, mas dos caminhos que seriam seguidos pelo povo brasileiro. Que derrotou a ditadura, e que mais recentemente, escolheu uma nova trajetória para o Brasil, elegendo o operário e a quase-menina, mulher que hoje nos governa. Democracia, sempre. Ditadura, nunca, nunca mais!

*Emiliano José é jornalista, escritor, deputado federal (PT/BA)

emiljose@uol.com.br

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*Com informações: Emiliano José | emiljose@uol.com.br

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