Contra ou a favor da exigência do diploma em jornalismo no Brasil? A opinião de dois estudantes

Jornal Grande Bahia, compromisso em informar.
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Este post é parte de uma série produzida pelo Centro Knight para debater a exigência do diploma de curso superior em Jornalismo como requisito para o exercício da profissão de jornalista, após a aprovação no Senado de Proposta de Emenda Constitucional que prevê o restabelecimento da exigência, derrubada pelo Supremo Tribunal Federal em 2009. Convidamos você, leitor, a enviar sua opinião para a nossa seção de comentários.

Confira também a opinião de dois professores, no primeiro post da série.

Contra: Thiago Jansen*

Acredito que fazer faculdade de jornalismo não significa necessariamente ser um profissional de qualidade. Tenho 24 anos, estou terminando a graduação em jornalismo em uma das universidades federais mais conceituadas do país e aprendi mais sobre a prática jornalística nos meus estágios do que nas salas de aula. Por isso, sou levado a crer que qualquer pessoa com bagagem cultural e boa formação intelectual, seja ela de qual graduação for, ou até mesmo sem graduação, pode aprender a atuar no jornalismo.

Então quer dizer que a faculdade é dispensável e uma perda de tempo para quem queira se tornar um jornalista? De maneira nenhuma. Mas a obrigatoriedade do diploma específico sim. Independente do curso, o ensino superior agrega valor àquele que o faz. A universidade ajuda na formação teórica, intelectual e – por que não? – ética de qualquer indivíduo. Expande horizontes, permite contatos e amplia possibilidades. Sem a faculdade de jornalismo, talvez eu fosse um jornalista em início de carreira com as mesmas habilidades jornalísticas que possuo hoje. Mas com certeza não seria a mesma pessoa, com as mesmas conexões e oportunidades.

Se na época em que iniciei o curso de jornalismo não houvesse obrigatoriedade de diploma, eu poderia ter feito uma graduação que me agregasse mais conhecimento especializado (Direito? Economia? Ciências Sociais?) e, a longo prazo, poderia me tornar um jornalista melhor. Dos quatro anos de faculdade, o que foi ensinado sobre a prática na redação – como escrever uma matéria, algumas questões de ética profissional – tomaram no máximo 25% do curso. Por que não transformar esse tempo em uma especialização que permita a outros profissionais exercer a prática jornalística?

O argumento de que o fim da exigência do diploma desvaloriza o profissional é equivocado. Buscar profissionais com baixa qualificação é dar um tiro no próprio pé, pois as empresas vão comprometer a qualidade de seus produtos e, como consequência, suas vendas de exemplares e de anúncios. Não é uma decisão inteligente do ponto de vista de estratégia de mercado. A valorização do jornalista passa por outras questões que não a do diploma.

*Estudante de jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha no jornal O Globo.

A favor: Ricardo Cabral*

Os meios de comunicação, mediadores da esfera pública, são, antes de tudo, fomentadores de discursos na sociedade; são eles os que selecionam, dentre todas as vozes sociais, aquelas que merecem o status de memorável promovido por eles. Operam sob um dispositivo de visibilidade e invisibilidade, o que significa que têm o poder de definir não só aquilo que estará na pauta das discussões políticas e sociais, mas também o que não estará presente nela.

Ser jornalista é atuar submerso nesse contexto. Torna-se obrigatório, portanto, compreender o processo da notícia para além de seu resultado final nas páginas de papel imprensa – ou nos pixels das telas de computadores e celulares. Não defendo o diploma de jornalista pelo fortalecimento de sua categoria profissional; tampouco acredito que seja a formação imprescindível para ensinar ao futuro jornalista técnicas de reportagem. A necessidade do diploma reside na importância de sua função social, apenas isso.

Há muito tempo, nos corredores das escolas de comunicação, tornou-se evidente a crise do ensino da técnica. Basta pouco mais de um mês de estágio para se aprender muito mais sobre apuração e redação que em quatro anos de faculdade. Como dizem alguns respeitados figurões das antigas, o bom jornalismo se aprende na rua.

Mas existe uma lasca do jornalismo que não se aprende na prática. Essa lasca, central na práxis profissional, é justamente a que não nos permite ser usados como massa de manobra da chefia; como mão de obra especializada que repete fórmulas da mesma maneira que um operário aperta parafusos – apenas para satisfazer interesses que lhe são alheios. E trabalhar essa consciência é precisamente o papel e o diferencial das escolas.

A verdade, no entanto, é que talvez seja inútil a minha defesa, assim como toda a discussão. Explico-me: o que impede a real liberdade de expressão não é a regulamentação profissional, como alardeiam os anti-diploma. Com ou sem canudo, quando a notícia vira produto e o editorial depende do comercial, o interesse de uns poucos se sobrepõe ao de muitos, inevitavelmente. E aí a obrigatoriedade ou não do diploma vira coisa pouca, sem muita importância.

*Estudante de jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalha na revista Piauí.

*Com informações: Knight Center

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