Seminário debate desafios e avanços dos afrodescendentes no município de Lauro de Freitas

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A trajetória biográfica do povo negro foi relembrada no seminário Nossa Gente, Nossa História, realizado nesta sexta-feira (25) no Terminal Turístico Mãe Mirinha de Portão. Desafios e avanços para a construção de uma nova realidade foram debatidos em um auditório lotado. O final foi marcado pelo lançamento da cartilha, Cotas Raciais Porque Sim?. “Continuamos na resistência e ainda temos muitos caminhos a trilhar, para que políticas afirmativas e de cotas sejam contempladas. Peço a Oxalá que seja breve”, rogou Marta Alencar, coordenadora do projeto Diálogos Cotistas.

Cerca de 82% da população de Lauro de Freitas é de afrodescendentes. O município foi o primeiro a instituir a capacitação de professores de acordo com a lei 10.639, que insere a África e os afrodescendentes brasileiros na grade curricular das escolas. A prefeita Moema Gramacho criou lei que assegura a atenção às pessoas com anemia falciforme, doença que atinge mais os negros; a cidade também foi pioneira em implementar em sua estrutura organizacional uma coordenação de saúde para população negra. “A história do município não será a mesma depois da passagem de Moema. Nunca houve uma gestão que dialogasse tanto com as lideranças negras, dando ferramentas e empoderamento para o povo aprender a lutar por seus direitos”, ressaltou Eriosvaldo Menezes,superintendente de Promoção da Igualdade Racial.

O secretário de Governo Ápio Vinagre citou o deputado Jair Bolsonaro como modelo da falta de consciência e visão de alguns políticos. “Se gente como ele, que teve acesso a boa educação e informação, está no Congresso Nacional, é o exemplo de um extrato social infeliz em um país com uma consciência ainda retrógrada e colonialista. Precisamos assumir um caráter progressista e quebrar essas amarras. Toda ação nesse sentido é bem vinda. É dessa forma que transformamos e construímos um presente mais igualitário que sobreviva às gestões, porque o tempo passa, mas a essência de um povo não se perde nunca”, frisou. Recentemente Bolsonaro fez declarações homofóbicas contra a presidenta Dilma.

Entre as personalidades históricas relembradas durante o seminário, esteve a figura de Abdias do Nascimento, falecido em maio deste ano, e um dos mais importantes nomes do movimento negro no país. Em 1944, fundou o Teatro Experimental do Negro, organizou o I Congresso do Negro Brasileiro, em 1950, e a Convenção Nacional do Negro, entre 1945/46. Além disso, Abdias participou ativamente do processo de criação do Movimento Negro Unificado, em 1978, um dos principais órgãos na luta em defesa das causas do segmento.

De acordo com a historiadora e professora Márcia Paim, não adianta ter todos os instrumentos de combate à desigualdade social se o problema não for encarado de frente. “É necessário assumir que vivemos numa sociedade onde o racismo ainda é presente. Dizer que o preconceito acabou é falácia. Anos atrás os maridos podiam literalmente ‘lavar sua honra com sangue’, caso sua parceira cometesse adultério. Mas graças ao reconhecimento desse problema e à luta das mulheres, esse paradigma foi quebrado”, relembrou. “Somente a luta de quem sofre a opressão pode mudar a realidade”, completou Marcelo Cardoso, representante dos movimentos de juventude de terreiro.

Dentre os desafios debatidos, destacaram-se a violência, intolerância religiosa e novas perspectivas para a juventude. “Ainda existem muitas técnicas de ‘invisibilização’ por parte da mídia e da própria sociedade, que estabelece barreiras de acesso ao povo negro. Não precisamos de reparação, necessitamos de afirmação enquanto sujeito de direito ”, discerniu a socióloga Vilma Reis. O seminário integra a programação do Novembro Negro em lauro de Freitas, que será encerrado no dia 31 (11/2011), com uma Roda de Diálogos, no Centro de Referência da Cultura Afrobrasileira, em Portão, a partir das 9h.

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