Festival Première BR, em Berlim, é uma janela para o novo cinema brasileiro

Jornal Grande Bahia, jornalismo com opinião e em defesa da ecologia integral.
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Em sua terceira edição, festival leva um panorama do atual cinema brasileiro à capital alemã. Entre filmes experimentais e comerciais, os destaques são os documentários e as coproduções com a televisão.

Vencer preconceitos foi um grande desafio para o cinema brasileiro, que passou por um período de quase extinção. No final da década de 80, o cinema brasileiro lutava para existir, em meio ao eclínio das pornochanchadas e a grave crise econômica em que o país se encontrava.

Tudo piorou com o governo Collor e o fechamento do órgão de fomento do cinema nacional, a Embrafilme. Em 1992, apenas um filme brasileiro foi lançado comercialmente no país. O chamado renascimento aconteceu a partir de 1995, mas mesmo assim foram necessários mais alguns anos para que o cinema no Brasil começasse a andar com as próprias pernas e atraisse o grande público.

Hoje a história é diferente. Com mais de cem filmes produzidos por ano, o cinema brasileiro engloba produções para todo os tipos de público e está encontrando o caminho de se tornar uma indústria e uma vitrine cultural realmente significativa. Uma boa maneira de conferir onde se encontra o cinema brasileiro é o festival Première BR Berlim, que acontece até 27 de novembro na capital alemã. Uma das principais mostras de filmes exibidos no Festival do Rio, o Première BR é uma oportunidade para muitos filmes brasileiros fazerem sua estreia mundial e serve também de vitrine para programadores dos maiores e mais importantes festivais de cinema do mundo.

Há dez anos o festival acontece também no MoMa, em Nova York, e há três anos tem uma edição Berlim. “Para fazer um festival de cinema brasileiro, o mais importante é achar um parceiro certo para agregar valor no que está sendo feito. Acredito que a Casa das Culturas do Mundo é perfeita, pois eles têm interesse em criar novas maneiras de atrair o público e são muito abertos ao que é novo, de filmes mais comerciais a filmes de arte”, declarou a curadora do festival, Ilda Santiago, em entrevista à Deutsche Welle.

Criar conexões

“Luz nas Trevas” é a continuação do clássico “O bandido da luz vermelha”
Essa parceria, que começou modesta, com cinco filmes, chega à atual edição com mais de quinze. Grande parte da seleção é composta por filmes inéditos, mas também há mostras especiais e retrospectivas.

O filme de abertura é VIPs, do diretor Toniko Melo, com Wagner Moura, e foi o grande vencedor da versão brasileira do festival, em 2010. “Tentamos explorar as novas linguagens do cinema brasileiro, mas também ser mais abertos a filmes com um caráter mais comercial. Criar essas conexões é um grande desafio”, disse a curadora. A programação de ficção tem como destaques neste ano Luz nas Trevas, de Helena Inez e Ícaro Martins. O filme é a continuação de O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, que deixou o roteiro pronto antes de falecer, em 2004. Radicado em Berlim, Karim Ainouz apresenta O abismo prateado. Baseado numa canção de Chico Buarque, o filme foi exibido no mais recente Festival de Cannes.

Além do intercâmbio cultural que esse tipo de evento proporciona, há também as oportunidades de parcerias econômicas. “É primordial para o festival criar uma ligação entre a delegação brasileira e os produtores locais. Coprodução é uma ótima maneira de viabilizar filmes e expandir o mercado distribuidor”, completou.

Realidade e homenagem

Os documentários, como “Diário de uma busca”, são um dos destaques do festival
O grande homenageado do evento deste ano é o cineasta Hector Babenco. “Ele é um mestre do cinema mundial, com uma obra de enorme importância dentro do cinema brasileiro. Quando revejo seus filmes fico impressionada com sua força e atualidade. Ele tem a genialidade de conseguir fazer filmes extremamente complexos e que ao mesmo tempo tocam todo tipo de público. Homenagear o Babenco é sempre uma grande honra”, declarou Ilda.

A crescente importância dos documentários brasileiros impulsionou a seleção a focar em documentários políticos. “É quase um resgate de quem somos. Talvez este seja o momento que começamos a tentar entender a história do país e do povo brasileiro. Esses documentários têm a necessidade de mostrar e descobrir nossa identidade”, disse Ilda, que destaca filmes como Utopia e barbárie, de Silvio Tendler, e Diário de uma busca, de Flávia Castro.

Televisão e cinema

Outra novidade deste ano é o TV Lounge, que mostra o trabalho que quatro conceituados cineastas brasileiros fizeram para a televisão. Um modelo bem comum nos Estados Unidos e na Europa teve que vencer preconceitos para começar a ser colocada em prática no Brasil.

“Alice”, de Karim Ainouz, foi produzido para a televisão
Para Ilda, a televisão brasileira tem grande qualidade, além de um grande impacto no grande público, principalmente com as novelas. “Essa divisão enorme entre o cinema e a televisão tem que acabar. As iniciativas de aproximar as duas mídias têm se intensificado e eu queria reunir esses diretores de uma mesma geração, que são respeitados tanto no Brasil como no exterior, e que fizeram trabalhos magníficos para a televisão.” O trabalho de Karim Ainouz, Beto Brant, Tata Amaral e Sandra Kogut transita entre o comercial e o experimental, mostrando que quem tem a ganhar com essa parceria é o audiovisual brasileiro. A história entre Berlim e o novo cinema brasileiro está apenas começando, já que o festival tem comprovado ser um grande sucesso, tanto entre o público local quanto entre os diretores brasileiros, que adoram mostrar seus filmes na cidade.

Para o ano que vem, além de Nova York e Berlim, a curadora planeja expandir o festival para outras cidades. “Temos que achar o parceiro certo para também ajudar na distribuição do cinema brasileiro. Produzir com países como a Alemanha é muito importante. Quero levar o festival para algum país da América Latina. Está na hora de nos conectarmos de uma forma diferente com a nossa latinidade. Seria uma troca cultural incrível”, diz Ilda.

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